Soares diz que Governo tem chantageado Portas com processo dos submarinos

Histórico do PS considera que Cavaco Silva devia demitir o Governo, por este estar a "destruir em absoluto a sua imagem junto da esmagadora maioria dos portugueses".

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Soares considera que estamos perante um "Governo de direita pura e dura" Daniel Rocha

Numa entrevista ao jornal i, Mário Soares, quando questionado sobre a actual situação do ministro dos Negócios Estrangeiros no Governo, disse que, quando o líder centrista ponderou pela primeira vez se ficava ou não no cargo, “o caso dos submarinos voltou à primeira linha. E isso obriga-o a continuar no Governo. O medo é que manda na vinha”.

Numa análise sobre o actual estado do país, o antigo Presidente da República afirmou que os portugueses “querem que o Governo se demita”, criticando a “subserviência em relação à troika e à senhora Merkel”. Apesar disso, Soares acredita que, com o risco de a Alemanha entrar em recessão, “os neoliberais ainda vão ser surpreendidos”, e aponta o dedo a Durão Barroso, por ter vindo a “variar muito segundo os ventos”.

Mário Soares entende também, em declarações na mesma entrevista, que Cavaco Silva devia “demitir o Governo, porque, como se tem visto, a legitimação do Governo está a destruir em absoluto a sua imagem junto da esmagadora maioria dos portugueses. O que é um perigo que nunca aconteceu”. E condena, por isso, que, recentemente, o Presidente da República tenha reafirmado a legitimidade do executivo, que “não fala com o povo que o elegeu – nem pode sair à rua sem ser vaiado”.

Governo de esquerda ou maioria absoluta do PS?
Soares congratulou-se, ainda, com a reunião da esquerda contra a austeridade que conseguiu organizar e que terá lugar na quinta-feira, na Aula Magna da Universidade de Lisboa, contando com a presença das direcções de PS, PCP e Bloco de Esquerda. Mas recusou, para já, dizer que o encontro pode impulsionar um futuro Governo de esquerda.

“Eu gostaria, mas não posso dizer se sim ou não. É importante tão-só que se juntem pessoas indicadas ou não pelos partidos e das centrais sindicais que se reclamem da esquerda e se afirmem contra a austeridade, e considerem que é fundamental e urgente que o actual Governo se demita”, disse. E acrescentou: “Todos sentem que é necessário acabar com a austeridade já e derrubar o Governo, que tem vindo a arruinar a nossa pátria, criando mais de um milhão de desempregados, o empobrecimento geral e a destruição do Estado social”.

Para justificar a presença na reunião de direcções que não gostam de se juntar – e por o encontro contar até com o apoio de Pacheco Pereira –, Soares insistiu que muitos sociais-democratas não se revêem na “direita ultraconservadora e neoliberal” como a do actual executivo, que considera mesmo não respeitar o “espírito de Sá Carneiro”. “É um Governo de direita pura e dura, como quase todos os governos que hoje estão no poder na Europa. Ora, quem fez a União Europeia foram os socialistas, sociais-democratas e os democratas-cristãos. Agora, com a excepção da França e da Itália, não há nenhum Governo destas famílias políticas na Europa! São todos neoliberais, republicanos no sentido americano do termo e ultraconservadores”, sublinhou.

Quanto ao futuro, o antigo primeiro-ministro denotou, apesar de tudo, algum optimismo, acreditando que, tal como Portugal conseguiu derrubar a ditadura antes de outros países, também o poderá fazer com a austeridade, até porque, insistiu, “a crise do euro não é só financeira e económica, é também social, política, ética e ambiental. O neoliberalismo, a ideologia que provocou a crise, contra as pessoas e em favor do dinheiro, está moribunda e não vai poder perdurar muito”.

Mesmo assim, na entrevista ao i, Mário Soares disse que não é capaz de responder em consciência se acredita numa maioria absoluta do PS, mas garantiu que António José Seguro lhe tem falado nessa possibilidade. Contudo, deixou um recado ao líder socialista: “Era bom que dialogasse com a esquerda, quer sejam militantes dos partidos ou não. Também com os militantes e antigos militantes do PSD que estão críticos do Governo e que representam, de longe, a maioria. Não esqueçamos que quase dois terços dos militantes do PSD são contra o Governo, e os candidatos a presidentes dos diferentes municípios também. E ainda com os militares e a Igreja. Sem isso, não podem ganhar”.