Primeira visita oficial

Barack Obama joga na Europa a sua reputação e credibilidade

Há dois anos que Obama fala na necessidade de restaurar a liderança americana no globo; esta viagem é a sua primeira oportunidade
Foto
Há dois anos que Obama fala na necessidade de restaurar a liderança americana no globo; esta viagem é a sua primeira oportunidade Jason Reed/Reuters

O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, aterrou terça-feira à noite em Londres para um roteiro de oito dias que inclui visitas a cinco países — Inglaterra, França, Alemanha, República Checa e Turquia —; participações nas três cimeiras internacionais do G20, NATO e União Europeia; uma série de inéditos encontros bilaterais; um discurso sobre a proliferação nuclear e ainda um debate aberto com jovens na Internet.

É uma agenda ambiciosa, mas que pode ser resumida a um único tema: a economia. A crise mundial, que mantém as nações ricas mergulhadas na recessão e ameaça o desenvolvimento dos países mais pobres, é a razão do encontro do G20: todos os intervenientes concordam que é preciso encontrar um novo modelo global para o crescimento económico.

E essa ideia de “nova ordem mundial” estará também presente nas conversas de Obama hoje com o Presidente da Rússia, Dmitri Medvedev, e com os líderes da China, Índia, da Arábia Saudita e Coreia do Sul.

Uma impressionante entourage de quase 500 pessoas viajou com o líder americano — não só os guarda-costas e outros agentes de segurança, cozinheiros, pessoal médico e variados assistentes que vão para todo o lado com o Presidente, mas também os principais conselheiros, directores e pessoal político da Casa Branca e outros departamentos do Governo, num claro sinal da importância atribuída pela Administração dos Estados Unidos às discussões dos próximos dias.

“Desde há dois anos que Obama tem vindo a falar na necessidade de restaurar a liderança americana no globo. Esta viagem é a sua primeira oportunidade para ele começar a fazer alguma coisa. Aliás, é uma bandeja de prata para ele pôr essas promessas em prática”, observa Reginald Dale, analista do Center for Strategic and International Studies de Washington.

O momento é crítico para Obama, que esta semana tem em jogo muita da sua reputação e credibilidade. O Presidente tem-se agarrado ao seu capital político eleitoral — e à sua popularidade — para defender propostas controversas e dispendiosas, perante um avassalador coro de críticos.

Duas sondagens de ontem, nos jornais "Washington Post" e "USA Today", mostram que dois terços dos inquiridos aprovam o desempenho de Obama e seis em dez dão-lhe nota positiva nas soluções para combater a crise.

Do outro lado do Atlântico, porém, parece não existir tamanha boa vontade, e apesar de Obama não ser pessoalmente responsabilizado pela crise, vigora a ideia que foi a desregulação e a irresponsabilidade dos Estados Unidos que causaram a actual situação.

À partida de Washington, a visita de Obama à Europa fazia manchetes por causa do aparentemente irresolúvel conflito entre a sua Administração e os líderes europeus relativamente à necessidade de um vigoroso plano de estímulo económico à escala global versus a urgência de um novo quadro regulatório que permita estabilizar o funcionamento dos mercados.

Os apelos dos EUA no sentido dos Governos tomarem medidas mais decisivas para a recuperação da economia foram rejeitados pelos principais dirigentes da União Europeia, e a tensão tem vindo a acumular-se. Ontem, o Presidente francês, Nicolas Sarkozy, ameaçou abandonar a cimeira do G20 a meio se os países não quisessem rever as regras que balizam a actividade financeira. A Casa Branca já deu sinais de que não vai querer transformar o caso num braço-de-ferro embaraçoso. “O Presidente vai a Londres para liderar, mas também para ouvir”, frisou o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs.

Turquia fecha viagem

Igualmente difícil será encontrar consensos na cimeira da NATO. A dominar o evento, que marca o 60.º aniversário da organização, está o debate sobre o papel da Aliança e os desafios com que se confronta, nomeadamente o alargamento. Obama, que acaba de anunciar um substancial reforço das tropas na guerra do Afeganistão, quer desviar a discussão para o futuro (e sucesso) dessa missão. Para os comentadores, esse será mais um momento em que a sua popularidade medirá forças com a realidade. O desfecho previsível é que os parceiros no Afeganistão apoiem a estratégia americana com mais fundos para o desenvolvimento, mas não com mais soldados.

A etapa final da viagem, na Turquia, oferece uma oportunidade de relativa “descompressão” para Obama, que convidou a juventude a colocar-lhe questões num debate pela Internet. O mais importante é o tom: todo o mundo islâmico seguirá as suas palavras para constatar se a postura confrontacional da Administração Bush ficou definitivamente no passado.