Guerra na Ucrânia alimenta apetite francês pelo nuclear

Com a promessa do “renascimento do nuclear francês”, Macron quer manter os preços energéticos sob controlo e limitar a dependência energética do país.

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Depois da vitória com a inclusão do nuclear na classificação europeia de investimentos que contribuem para a descarbonização (o chamado regulamento taxonomia), França ganhou com a guerra na Ucrânia mais argumentos para solidificar o peso desta indústria no seu cabaz de geração eléctrica, que hoje representa 70% da electricidade produzida, em 56 reactores, correspondentes a 18 centrais espalhadas no “hexágono”, com uma capacidade de 61,4 gigawatts (GW).

Há três semanas, já em modo de pré-campanha para a reeleição como presidente de França, e indiferente às críticas de outros Estados-membros e ao debate em torno da segurança do nuclear, Emmanuel Macron proclamou o “renascimento do nuclear francês”, com a construção de 14 reactores de nova geração até 2050 e prolongamento da vida útil daqueles em que isso seja viável.

As justificações de Macron, de que o nuclear é essencial para manter os preços “dentro do razoável” e para “garantir a independência energética” da nação, parecem sair reforçados, aos olhos dos defensores do nuclear, com a necessidade de quebrar a dependência europeia da Rússia e a convicção de que os preços energéticos dos produtos importados, como o gás (que também foi classificado por Bruxelas como energia de transição) e o petróleo, não vão abrandar enquanto persistir a ofensiva militar na Ucrânia.

França quer uma energia barata, que contribua para a competitividade da sua indústria, que quase não liberta emissões de CO2 e que não põe em causa as metas de atingir a neutralidade carbónica até 2050.

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Emmanuel Macron proclamou o “renascimento do nuclear francês”, com a construção de 14 reactores de nova geração até 2050 Ludovic Marin/Pool via REUTERS

De acordo com os dados de 2020 do Ministério francês da Transição Energética, 40% da energia primária consumida em França (num total de 2571 terawatts hora) foi de origem nuclear, à frente dos 28,1% e 15,8% que representaram o petróleo e o gás natural, respectivamente.

As energias renováveis e biomassa abasteceram apenas 14% do consumo e o carvão correspondeu a 2%.

Perante os actuais preços do petróleo e do gás, e ainda que a aposta nas energias renováveis possa acelerar, França não prescindirá do nuclear, que também exporta para os países vizinhos, e que tem tentado proteger a todo o custo da competição das renováveis, com um travão ao reforço das interligações energéticas da Península Ibérica.

Tema diferente é saber se, ao fim de vários anos de declarações sem consequência, a Europa conseguirá finalmente forçar Paris a investir no reforço das auto-estradas energéticas (de electricidade e de gás natural) nas fronteiras com Espanha, não só para quebrar o isolamento ibérico, mas também para diversificar as proveniências e rotas dos fluxos energéticos europeus.

Alemanha avalia opções

Se o nuclear é indiscutível em França, a Alemanha (que sob a liderança de Angela Merkel, declarou o fim desta indústria depois da catástrofe de Fukushima e aprofundou os laços energéticos com a Rússia, viabilizando a construção do gasoduto Nord Stream 2), mantém as opções em aberto.

O que inclui avaliar se o desligamento iminente das centrais nucleares irá mesmo acontecer, perante a possibilidade de se fecharem as torneiras do gás natural russo (de que o país é o maior importador europeu) e a necessidade de manter os alemães quentes e a economia a funcionar (em 2020, a dependência de importações energéticas na Alemanha rondou os 64%, que comparam com os 44% em França).

O vice-chanceler Robert Habeck, do partido ecologista alemão, que tem a pasta dos Assuntos Económicos e da Protecção Climática admitiu já que “dar resposta a essa questão é uma das competências” do seu ministério, embora um “exame inicial” pareça indicar que “a energia nuclear não será grande ajuda para o Inverno 2022/2023”.

Certo para já, é o abrandamento do programa de fecho das centrais a carvão: “O pragmatismo deve sobrepor-se a qualquer compromisso político”, disse o ministro Habeck aos microfones da rádio pública Deutschlandfunk.

Segundo a plataforma especializada em assuntos europeus Euractiv, o vice-chanceler alemão, do partido os Verdes, garantiu que o país quer constituir até ao final deste ano “uma reserva estratégica de carvão e gás”.

A Alemanha anunciou já uma encomenda de gás natural liquefeito (não proveniente da Rússia) no valor de 1,5 mil milhões de euros.

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