“Os ucranianos também estão a lutar pela liberdade dos russos”

A jornalista russa Irina Dolinina acredita que a maioria dos russos não sabe que a guerra está a correr mal no terreno e teme que, se Putin caísse, alguém pior subisse ao poder.

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Irina Dolilina escreve para o site independente russo Important Stories DR

Irina Dolinina é uma jornalista do site de notícias independente russo Important Stories, fundado em 2020. Venceu o European Press Prize de investigação em 2021.

Quão difícil é ser, hoje, um jornalista independente na Rússia?
É quase impossível depois da invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia. Praticamente todos os jornalistas independentes tiveram de abandonar o país. Não podemos falar da guerra, nem sequer chamá-la pelo nome, sem sermos perseguidos ou detidos pelas autoridades. Os que ficaram são verdadeiros heróis.

As pessoas na Rússia têm noção do que está realmente a acontecer na Ucrânia?Infelizmente, a maioria dos russos não sabe como é que a guerra está a decorrer. Nos primeiros meses, quem via os canais oficiais pensava que era apenas uma operação com alvos militares. E quando eram confrontados por quem lia os media independentes, não queriam acreditar que estavam pessoas a morrer na Ucrânia por causa da invasão. Agora, com quase um ano de guerra, percebem que há um elevado número de mortes, entre os ucranianos e os russos. Mas continuam sem saber como é que a guerra está a correr no terreno, não sabem que o exército russo tem sofrido derrotas.

De acordo com algumas sondagens independentes, o apoio da população à guerra começa a reduzir-se.
Eu gostava de dizer que sim, que o apoio está a ficar mais pequeno. Mas não é isso que sinto. No início da mobilização, recebemos muitas mensagens de familiares de soldados, a contarem o medo que tinham. Começámos a falar com pessoas que nunca nos tinham lido, nem a outros media independentes, mas raramente revelavam posições contra a guerra, antes as preocupações pessoais com os seus familiares, nomeadamente com a falta de equipamento. E eu perguntava o que pensavam da guerra, mas a maioria não queria responder, o que pode ser por causa do medo de ser detido ou pior.

De início, ainda houve protestos nas cidades da Rússia, que entretanto desapareceram. Porquê?
Os protestos, que nunca deixaram de acontecer na Rússia anteriormente, foram muito pequenos. Depois de a guerra começar, ficou claro que protestar tornou-se muito mais perigoso. Mas, mesmo assim, ainda houve quem saísse à rua, o que nos deixa a todos orgulhosos.

Os russos sentem de facto o impacto das sanções económicas?
Sentem, claro. Mas não é a primeira vez que a Rússia sofre sanções económicas, já acontecera em 2014 após a anexação da Crimeia. Mas ao fim de oito anos, as pessoas já se habituaram às subidas dos preços e à descida do seu rendimento. É claro que muitos sentem o facto de as suas marcas favoritas terem saído do país, mas acabam por se habituar. Não se pode falar de uma situação desastrosa neste momento. E a verdade é que a Rússia ainda continua a receber muito dinheiro com a venda de gás e petróleo a outros países.

Imagina a hipótese de uma mudança de regime na Rússia num futuro próximo?
Acho que a cada dia, a cada hora, que dure esta guerra, a mudança de regime vai ficando mais próxima. Os ucranianos estão a lutar pela sua pátria e pela sua liberdade, mas também pela liberdade dos russos. É claro que Putin não cairá nem hoje nem amanhã, e não é possível perceber o que será a Rússia depois deste regime. Há muita gente a ganhar mais poder por causa da guerra e que não é melhor do que Putin.

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