Mieloma Múltiplo: uma doença silenciosa e pouco conhecida

No mês de consciencialização do Mieloma Múltiplo, importa sensibilizar para aquele que é, por vezes, um cancro silencioso e pouco conhecido. É fundamental diagnosticar o mais cedo possível para permitir uma melhor qualidade de vida para os doentes. O desenvolvimento de novas alternativas terapêuticas permitem-nos encarar o futuro com mais esperança.

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"O tratamento do mieloma múltiplo evoluiu muito nos últimos anos com o desenvolvimento de fármacos mais eficazes" Fabio Augusto/Arquivo

Quando comparado com outros tumores, o mieloma múltiplo é raro. No entanto, é um dos mais frequentes em relação aos “cancros do sangue”, logo a seguir aos linfomas. Todos os anos são diagnosticados cerca de 730 novos doentes com mieloma múltiplo e esta doença afecta sobretudo pessoas mais velhas, com idade entre os 65 e os 75 anos.

O mieloma múltiplo é um tumor hematológico com origem em células da medula óssea designadas por plasmócitos. Os plasmócitos são células do sistema imunológico que habitam a medula óssea e são responsáveis pela produção de anticorpos que nos protegem das infecções. Os plasmócitos podem sofrer alterações patológicas e transformação em células tumorais que depois levam ao mieloma múltiplo. Não são conhecidos os factores que provocam esta transformação, mas é provável que determinados produtos químicos possam ter um papel importante neste processo.

Não existem sintomas específicos do mieloma múltiplo, no entanto, pode provocar anemia ou levar à destruição do osso. A anemia vai levar ao aparecimento de fraqueza, fadiga e cansaço intenso. A destruição do osso vai provocar dores ósseas que podem ter grande intensidade e afectar, por exemplo, as costelas, a coluna ou a anca e dar origem a fracturas. Os doentes podem apresentar ainda falta de apetite, emagrecimento, infecções de repetição, alterações da função renal.

A presença de um destes sintomas deve alertar o doente para uma procura do médico, uma vez que o diagnóstico tardio do mieloma múltiplo poderá ter um grande impacto na qualidade de vida do doente, já que algumas das lesões induzidas pela doença podem tornar-se irreversíveis se não forem corrigidas numa fase precoce.

O diagnóstico é feito por um médico, na maioria das vezes confirmado por um hematologista numa consulta de especialidade. A presença de sintomas de anemia, dores ósseas ou disfunção renal implica a realização de análises ao sangue para avaliar o grau de anemia, a função do rim e a pesquisa de uma proteína anormal no sangue ou na urina que é produzida pelos plasmócitos malignos e que é designada por componente monoclonal. Esta proteína é um marcador da doença e é utilizada para o diagnóstico e depois para avaliar a resposta ao tratamento. Para o diagnóstico do mieloma múltiplo será ainda necessário fazer uma biópsia de medula óssea a nível dos ossos da bacia para quantificar o número dos plasmócitos e um exame radiológico do esqueleto, para identificar a existência de lesões líticas ou fracturas.

Apesar de ser uma doença incurável, existem hoje muitas alternativas terapêuticas que permitem aos doentes uma vida com qualidade durante vários anos. O tratamento do mieloma múltiplo baseia-se em esquemas de quimioterapia que associam os corticóides a outros fármacos. Na maioria das vezes, para diminuir a resistência da doença aos tratamentos, utilizamos uma associação de fármacos. Hoje são muitos os fármacos que podem ser utilizados nestas combinações.

Após o diagnóstico de mieloma múltiplo o doente terá seguimento preferencial pelo hematologista, sendo por vezes necessário o envolvimento da Endocrinologia para controlo da diabetes, da Nefrologia para controlo da função renal ou da Ortopedia ou Neurocirurgia para estabilização das lesões ósseas.

O tratamento do mieloma múltiplo evoluiu muito nos últimos anos com o desenvolvimento de fármacos mais eficazes. Presentemente estão em desenvolvimento novos fármacos que acrescentarão mais tempo e mais qualidade de vida. Entre os novos tratamentos actualmente em desenvolvimento gostaria de destacar a terapia celular com células geneticamente modificadas (células CAR T), cujos resultados preliminares deixam uma enorme esperança em relação ao seu potencial terapêutico.

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