Queixas com algum desconto

Estamos num campo que nem o provedor pode clamar a sua versão como a autêntica, a verdadeira.

E ainda por cima são assuntos recorrentes, com cota elevada de reclamações nestes últimos dias. E percebe-se porquê. O futebol esteve em prazo limite na definição da conquista de títulos. Os partidos políticos ou até sobretudo o partidarismo está sob o fogo de uma campanha eleitoral.

Não quer dizer que não responda aos leitores queixosos. Porém, o que acontece é que não trago essas queixas a esta página na frequência com que as recebo. Provavelmente, são dois temas que quando sujeitos a queixas sobre o modo como foram tratados ou noticiados desafiam a isenção, prestimosa qualidade exigida ao jornalismo livre, independente, plural. Mas, também se diga, comprometem de modo claro a isenção de quem as apresenta. De um lado e de outro teremos de reconhecer que tomar posições sobre a análise, o comentário, a crítica sobre questões clubistas e partidárias toca sempre na fronteira de alguma paixoneta, de algum sentimento escondido que não garante, antes tolda, um total discernimento para fazer prevalecer a razão, o raciocínio frio, o ponto neutral da visão. Estamos num campo que nem o provedor pode clamar a sua versão como a autêntica, a verdadeira.

Devo esclarecer que não se trata de ter recebido qualquer queixa formal ou oficial da parte de qualquer Partido. Igualmente de qualquer clube ou entidade desportiva. Refiro-me a queixas genéricas de alguns leitores e que também não visam particularmente este ou aquele jornalista, mas o PÚBLICO em geral. Por isso também estou a tratar deste assunto de um modo genérico e sem sequer interrogar este ou aquele jornalista.

Como é óbvio, no que diz respeito aos queixumes sobre notícias ou reportagens a cobrir questões partidárias ou políticas, este período de propaganda partidária em campanha eleitoral faz aumentar a tonalidade e o número de queixas. Convenhamos que cobrir os actos de campanha dos partidos é difícil. Por isso será de advogar, por parte do provedor ao PÚBLICO, a máxima parcimónia na narração dos pequenos fait-divers. Percebe-se que, na rotina chata daquele vaguear dos candidatos pelas ruas ou pelas feiras, o repórter queira aliviar a paisagem monótona e repetitiva de nada relevante, imprimindo alguma nota mais picante ou até picaresca. Haverá sempre quem veja a mais e quem veja a menos, quem julgue a favor ou contra. Por exemplo, (e será importante para o jornal não só tomar em conta a palavra escrita, mas também as imagens gráficas) há quem veja na publicação daquela selfie do “amigo alemão do PS, Martin Schulz, com líderes do PS, publicada na primeira página do PÚBLICO do dia 7 de Maio, um gesto fácil no “embarque” da propaganda do Partido Socialista, mas também há quem veja um certo gozo mordaz e desfavorável.

É certo que o jornalista do PÚBLICO, como estabelecem os Princípios e Normas de Conduta Público, terá de ter “como preocupação central do seu trabalho jornalístico o rigor e a qualidade, procurando casá-los de forma harmoniosa e inventiva com a criatividade que é indispensável a um trabalho que recusa o cinzentismo e a rotina”. Pois é, mas com os moldes em que está a decorrer esta campanha, que é tudo menos europeia, e que temos a grande maioria dos actores políticos a parecer perdida, desorientada, sem projecto, e em que a tónica dominante é a de “bater” uns nos outros, será difícil e, porventura, até pouco aconselhável tentar ser inventivo para quebrar o cinzentismo.

No campo futebolístico, a saga do Benfica que estava a escrever uma época de enorme brilhantismo pelo comportamento de uma equipa notável, mas entristecida com aquele perder da final da Liga Europa, numa perda feita de falta de sorte, quiçá de momentânea menor competência, de ineficácia de alguma frescura física e força mental e de uma quase deplorável arbitragem, fez disparar o barómetro das queixas. Para além das pequenas reclamações, há quem opine que o PÚBLICO perdeu a compostura de “jornal generalista e de referência” ao dedicar as primeiras sete páginas do dia 15 de Maio ao colapso do Benfica. Interessantes, e matéria de estudo para os especialistas destas matérias entre as magias e as superstições, as considerações feitas à roda da “profecia” ou do mau agoiro do defunto Bela Guttmann, já com meio século.

Sinceramente, não me parece quanto ao relevo dado pelo PÚBLICO, que este jornal, sem perder o estatuto de jornal generalista, pudesse dispensá-lo. Tratava-se de um acontecimento mais do que nacional, global, (um jogo transmitido para todo o mundo por mais de 100 televisões), dada a popularidade do futebol e do seu impacto social e a forma como os portugueses estavam a viver aquele momento.

No fundo, o que hoje quero deixar expresso por aqui é o confessar aos Leitores este desconto que faço a queixas deste teor. Não quer dizer que não venha a retomar algumas em concreto para fazer prevalecer a isenção, imparcialidade e independência devidas ao cumprimento estatutário do PÚBLICO para com os seus leitores e público em geral.

 

CORREIO LEITORES/PROVEDOR

Escreve-me um Leitor a anotar o seguinte: “Num tempo em que o Cartas à Directora é tão exíguo em espaço, fiquei muito surpreendido que um texto – A Linha do haram – do Eng. Carlos F. Sampaio tenha sido publicado em carta no dia 14.05.14 e repetido em artigo de opinião no dia 16.05.14. Descoordenação? Mas grave, temos de convir.”

Comentário do provedor: Tem razão o Leitor. Verifiquei que a carta, conforme, está estabelecido nas regras desta secção, traz alguns cortes, com as respectivas (…). O artigo tem uma publicação integral. Os critérios da publicação (cartas e artigos de opinião) são adoptados por direcções editoriais diferentes. Trata-se, sem dúvida, de uma descoordenação. Grave não sei se tanto. Todavia, era bom que não sucedesse ou viesse explicado no “O PÚBLICOU errou” o que se passou.

Outro Leitor vem queixar-se de que na notícia da “inenarrável novela” da conferência do BCE e do Conselho de Ministros do dia 17, o PÚBLICO tomou partido muito cedo ao descrever o resultado da votação da CNE (Comissão Nacional de Eleições) 6 votos contra 4 e ao mencionar a representação partidária desses votantes. “O que me interessa é o que o PÚBLICO não escreveu”, ou seja, “que o porta-voz da CNE é representante do PC” -diz o Leitor.

Comentário do provedor: O porta-voz da CNE falou nessa qualidade e não foi contestado pela CNE. Na peça, João Almeida é identificado com o PC. Acho mais contestável, nessa qualidade, ter dito que sobre a decisão da conferência do BCE, esta incluía um apelo à organização para que não fossem feitas quaisquer declarações durante o período de abertura das urnas.

É caso para se dizer: “Não vá o sapateiro além do pé”.

 

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