O melhor do teatro e da dança em 2024
O melhor do teatro e da dança em 2024.Escolhas de Gonçalo Frota, Inês Nadais e Mariana Duarte.
Teatro
10
A Vida Secreta dos Velhos de Mohamed El Khatib | Culturgest (Alkantara Festival)
Há vida sexual depois dos 75/80 anos – desde que os filhos e as instituições o permitam. Mohamed El Khatib junta em palco velhas e velhos para falarem das suas histórias de intimidade e de amor, mas também do direito ao prazer até ao fim e da infantilização de que são alvo nos seus últimos anos. Um espectáculo profundo, comovente, cómico e a reclamar a vida por inteiro em cada um dos minutos em que a morte é mantida à distância. G.F.
9
Guião para um país possível de Sara Barros Leitão/Cassandra | Teatro do Noroeste
É burlesco, e por vezes mais deprimente do que edificante, o retrato da Assembleia da República que Sara Barros Leitão compõe em Guião para um país possível, prosseguindo um trabalho autoral que reconfigura, com sentido do statement e sentido do lúdico, os parâmetros do teatro documental. A vida parlamentar saída das eleições antecipadas de Março tornou este espectáculo ainda mais presciente. I.N.
8
A Noiva e o Boa Noite Cinderela de Carolina Bianchi/Coletivo Cara de Cavalo | Culturgest (Alkantara Festival)
Tão dura é a matéria com que suja as mãos, e tão complexa a operação que monta em palco, no seu vaivém entre teatro, performance e “realidade”, que ficou difícil assimilar a estreia de Carolina Bianchi em Portugal – onde chegou já coroada como “acontecimento” do Festival de Avignon e “melhor espectáculo estrangeiro do ano” em França. Meses passados, A Noiva e o Boa Noite Cinderela continua a trabalhar-nos por dentro… I.N.
7
Depois do Silêncio de Christiane Jatahy | Centro Cultural de Belém
A partir de obras de Itamar Vieira Júnior e de Eduardo Coutinho, Christiane Jatahy monta uma peça-denúncia, com o dedo apontado à violência endémica no Brasil sofrida pelas populações negras, pobres e indígenas. Interpretada em palco por actrizes e activistas, uma peça habitada pela raiva e pela frustração, mas sobretudo pela resistência que sempre encontra forma de renascer diante do ciclo eterno da escravatura. G.F.
6
Angela (A Strange Loop) de Susanne Kennedy | Teatro Nacional São João
Viagem labiríntica pela autoconsciência de uma influencer com uma doença auto-imune, através de personagens e linguagem arquetipais das redes sociais, de uma arquitectura videográfica cheia de fractais e loops, de um palco em constante metamorfose. A peça mais bizarra que vimos este ano resulta num inesperado entendimento da psique humana na realidade (?) tão quebrada e baralhada de hoje. Como se tivéssemos saído de um sonho tão alucinante quanto revelador. M.D.
5
Class Enemy de Nigel Williams, encenação de Teresa Sobral | São Luiz Teatro Municipal
Seis miúdos dados como falhados na integração social que o sistema de ensino deveria conseguir amparar. Seis miúdos que, durante uma tarde, se substituem ao/à professor/a que nunca chega, esquecidos numa escola que já desistiu deles. O texto pungente de Nigel Williams encontrou na encenação de Teresa Sobral um espantoso veículo para este zoom sobre casos perdidos que apenas querem, com a violência que é a sua linguagem, alguém que lhes dê a mão. G.F.
4
Sem Palavras de Marcio Abreu/Companhia Brasileira de Teatro | Teatro Nacional São João (FITEI)
É estonteante a adrenalina e a assertividade política e poética do texto de Marcio Abreu. Palavras cavalgam vertiginosamente de história em história, num “corpo-livro” que reflecte os abismos sociais e de classe do Brasil, sem repetir teses marteladas. Entre o teatro, a dança e a música, um elenco magistral trabalha o corpo como língua e linguagem, destacando-se a presença sísmica das artistas trans Irmãs Brasil – o monólogo final de Viní é das cenas mais avassaladoras que já vimos num palco. M.D.
3
Fado Alexandrino de António Lobo Antunes, encenação de Nuno Cardoso | Teatro Nacional São João
Reiterando a singular capacidade para forjar novo reportório a partir da literatura portuguesa contemporânea que tem sido marca de água das suas direcções artísticas, o TNSJ arrancou ao Fado Alexandrino de Lobo Antunes uma visão inospitamente lúcida – e por isso tão fantasmagórica – da nossa Guerra Colonial. I.N.
2
The Confessions de Alexander Zeldin | Centro Cultural de Belém
Após a sua trilogia de realismo social, o inglês Alexander Zeldin montou uma peça sublime e tocante que atravessa parte do século XX, a partir da biografia da mãe. De uma condenada existência presa na vida doméstica a uma respeitada carreira académica, seguimos uma mulher habituada a ser subjugada, até ao momento em que, tomando o destino nas mãos, sai da moldura e inventa para si um futuro que não estava escrito. G.F.
1
Stabat Mater de Janaina Leite | Teatro Municipal do Porto – Rivoli (FITEI)
Criada num contexto familiar onde “a relação entre violência e amor era muito confusa”, com um pai alcoólico, e vítima de violação aos 15 anos, Janaina Leite desaloja em Stabat Mater os seus traumas pessoais, ancorada na obra homónima da filósofa e psicanalista Julia Kristeva, para explorar arquétipos da feminilidade pautados pela violência. Desde a Virgem Maria aos corpos esquartejados do cinema de terror dos anos 80, onde as mulheres “impuras” são feitas rodízio de sangue e tripas, passando pela indústria porno, onde o corpo feminino também se quer aberto, passivo, quase desmembrado pelo sexo.
Numa palestra-performance acompanhada pela mãe e pela figura de Príapo, interpretado por um actor porno, a dramaturga e encenadora brasileira traz-nos um texto brutalmente inteligente e interpelativo e constrói uma peça entre o real e o performático, entre o que está em palco e aquilo que a levou ali – incluindo experimentações com a droga da violação e o trauma resultante de um suposto incesto. Sem cair nos binários simplistas homem/mulher, abusador/vítima, e num tom académico-pessoal-humorístico que imprime simultaneamente peso, leveza e loucura à peça (é nesse movimento desconcertante que Janaina consegue ficar mais próxima de nós do que Carolina Bianchi, que também figura nesta lista com um espectáculo de temáticas confluentes), a artista mostra como a normalização da violência contra as mulheres marca inevitavelmente o consciente e o inconsciente de cada uma. Inclusive na relação com o sexo, onde se cruzam a atracção e a repulsa, a emancipação e o trauma.
Num ano em que veio à tona o caso da francesa Gisèle Pelicot, vítima de violações em série orquestradas pelo próprio marido, e em que a violência contra as mulheres no Brasil regista uma subida (a cada seis minutos, uma violação), Stabat Mater resume o lastro da ferida, seja ela sentida na própria pele ou não: “A gente não se vê livre dessas coisas.” M.D.
Dança
10
Há Qualquer Coisa Prestes a Acontecer de Victor Hugo Pontes | Teatro Aveirense
Alinhada com os 50 anos do 25 de Abril, e tendo como ponto de partida um verso de Inquietação de José Mário Branco, esta peça celebra o “corpo livre” face à ascensão de ideais conservadores. O elenco de 19 intérpretes toca nessas ameaças, mas, através da nudez, entrega-se ao prazer epidérmico e contagiante de dançar, conduzindo o espectáculo para um lugar de descompressão e alegria a que não são alheios a harmonia e o à-vontade de uma rara dinâmica de grupo. M.D.
9
Hatched Ensemble de Mamela Nyamza | São Luiz Teatro Municipal (Alkantara Festival)
Uma poderosa viagem de enraizamento em que intérpretes de diferentes cidades da África do Sul transformam o ballet, a sua área de formação, numa encruzilhada entre dança clássica, danças tradicionais africanas, cerimónias ancestrais, ópera, canto e teatro, mostrando como a dança ganha amplitude e plenitude quando os cânones ocidentais, que outrora castraram certos corpos, são transformados por outras formas de ver, mover e ser. M.D.
8
fio^ de Inês Campos | Auditório de Serralves (DDD – Festival Dias da Dança)
Trespassado pela tristeza, o solo de Inês Campos faz das fraquezas forças, exibindo uma capacidade de fantasiar e de fantasmar que se desmultiplica prodigiosamente em microepifanias e achados discursivos e cénicos. E assim se encheu de luz e de poesia aquilo que poderia ser apenas um inexpugnável buraco negro. I.N.
7
In C de Sasha Waltz | Centro Cultural Vila Flor
Inspirada pelos 53 motivos musicais de que se compõe In C, a peça de Terry Riley precursora do minimalismo, Sasha Waltz desenvolveu outras tantas figuras coreográficas e transformou-as num banho de leveza e de esperança que transborda do palco. Sem protagonistas, numa apologia da democracia contra as ameaças políticas actuais, uma belíssima busca pela harmonia em que cada um segue ao seu ritmo. G.F.
6
Los Inescalables Alpes, Buscando a Currito de María Del Mar Suárez (La Chachi) | Teatro Municipal de Matosinhos Constantino Nery (DDD – Festival Dias da Dança)
Possuído pela gramática de dor e de superação inscrita na matriz do flamenco, e activado pela potência viva do impressionante aparato cénico, coreográfico e sonoro da romaria anual da Virgen del Rocío, o corpo quebrado e contorcido de La Chachi desconstrói, actualiza e incendeia um património – que assim se torna um fervilhante portal entre passado, presente e futuro. I.N.
5
Age of Content de De (La)Horde/Ballet Nacional de Marselha | Teatro Municipal do Porto – Rivoli
Neste videoclipe-videojogo-rave-filme-de-acção-espectáculo-de-dança electrizante em que recorrem a coisas tão díspares (mas surpreendentemente tão próximas) como danças folclóricas da Geórgia, techno, corpos-avatares, OnlyFans e TikTok, o colectivo (La)Horde e o Ballet Nacional de Marselha injectam a adrenalina, a ambivalência e a violência de um mundo entrincheirado entre o real e o simulado, entre o fascínio da abundância das redes sociais e os perigos que nelas se propagam. M.D.
4
Black Lights de Mathilde Monnier | Escola D. António da Costa (Festival de Almada)
Se o corpo sempre esteve no centro da obra de Mathilde Monnier, desta vez – a partir de nove histórias de violência quotidiana sobre as mulheres (física, verbal, psicológica, nas ruas, nos transportes públicos, nos empregos, nos tribunais) – o corpo está por todo o lado. E se começa subjugado e quebrado, há-de tornar-se instrumento de revolta e de afirmação, num estrondoso crescendo de libertação furiosa. G.F.
3
Weathering de Faye Driscoll | Teatro do Bairro Alto
São corpos a entrar uns pelos outros, como no sexo ou na violência, desacelerados até se tornarem quase estátuas, num longo tableau vivant em cima de uma plataforma giratória (um colchão, uma jangada?) que pode ser lido como uma progressiva aceleração da humanidade até sair do eixo e perder o controlo. Todo um trabalho que interpela os vários sentidos e envolve o público num desconcertante sentimento de vertigem. G.F.
2
The Köln Concert de Trajal Harrell | Teatro Municipal do Porto – Rivoli
A primeira parte de The Köln Concert, álbum icónico de Keith Jarrett, é a vida a acontecer em 26 minutos: melancolia, saudade, solidão, medo, expectativa, júbilo, excitação, extravasamento, recolhimento, dor, regeneração. Alquimia que os bailarinos põem a espiralar dentro dos seus corpos, numa peça feérica que arranca com um solo comovente de Trajal Harrell ao som de Joni Mitchell e em que o coreógrafo solidifica a sua linguagem entre a cultura ballroom e a dança pós-moderna, o gestuário da Grécia Antiga e o butô. M.D.
1
Lounge de Marga Alfeirão com Mariana Benenge, Myriam Lucas e Shaka Lion | Teatro Municipal do Porto – Rivoli (DDD – Festival Dias da Dança)
Foi com relativo atraso, fruto dos actuais trânsitos e circuitos expandidos das artes performativas portuguesas – mas mais vale tarde do que nunca –, que Marga Alfeirão fez a estreia nacional da sua peça de 2023, Lounge. Incubado em Berlim, onde recebeu o ImPulsTanz – Young Choreographers’ Award e foi seleccionado para a Tanzplattform Deutschland, este melting pot colaborativo que cruza eroticamente, mas com rigor e precisão absolutos, as práticas de dança da diáspora africana de Lisboa e as sensualidades e sexualidades lésbicas constituiu um dos grandes motivos de espanto do ano nos nossos palcos.
Entendendo a dança como experiência simultaneamente íntima e colectiva que vai do olhar ao toque e vice-versa, em loop, a bailarina e coreógrafa nascida em Lisboa em 1994 inventa neste dueto com Mariana Benenge uma zona lúbrica de convergência entre pólos que fluem e refluem entre si, liquefeitos: descanso e desejo, sugestão e consumação, atenção e tensão.
O fluxo sempre recíproco de chamada e resposta que estrutura a peça é, afinal, também uma proposta social e política. Ficámos – literalmente – a salivar por mais. I.N.
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