Rui e Mariana, meia hora entre amigos

Estes 30 minutos de conversa entre amigos serviram para clarificar sete detalhes, que resumo em quatro concordâncias e três discordâncias. São muitos, mas vale a pena ler para tirar teimas.

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Foi um debate fácil, mas foi um debate difícil. Fácil porque Mariana Mortágua e Rui Tavares não se desafiaram mutuamente, foram sempre cordiais, conseguiram falar na sua vez e sem interrupções — eu não esperava outra coisa. Difícil porque exigiu um grande esforço para evidenciar as pequenas diferenças entre o Bloco e o Livre, dois partidos com ligações umbilicais.

Estes 30 minutos de conversa entre amigos serviram, ainda assim, para clarificar sete detalhes, que resumo em quatro concordâncias e três discordâncias. São muitos, mas vale a pena ler para tirar teimas.

1. Mariana Mortágua e Rui Tavares têm um “inimigo comum” chamado Luís Montenegro. Ambos começaram o debate a criticar a postura do líder da AD, que se quis fazer substituir nos frente-a-frente com o PCP e com o Livre pelo número dois da coligação, Nuno Melo. (Registo um conselho muito útil de Rui Tavares: “Um debate a que se vai é sempre melhor do que um debate a que não se vai.”)

2. Mariana Mortágua e Rui Tavares têm muito mais em comum do que um “inimigo” nada secreto que querem derrubar em nome de uma maioria de esquerda que “vire a página”, como disse a bloquista. Estão de acordo no essencial. Têm as mesmas prioridades: investigação e educação são dois dos temas centrais nos programas de ambos os partidos. E têm diagnósticos comuns na habitação quando concordam, por exemplo, que os milionários estrangeiros pressionam os preços das casas em Portugal.

3. Mas os dois políticos também discordam e uma das questões em que se esforçaram por mostrar as suas diferenças foi na resposta a dar ao problema da habitação. O Bloco defende que se proíba a venda de casas a não-residentes. O Livre está contra e propõe, em vez disso, uma sobretaxa do IMT (da qual o BE discorda) sobre prédios de luxo destinada a financiar um fundo de emergência na habitação.

4. A segunda questão em que discordam é o Rendimento Básico Incondicional (RBI). O Livre defende, no seu programa, um projecto-piloto com vista à implementação faseada do RBI – que é uma prestação universal e incondicional. E o Bloco entende que não há condições para avançar nesse sentido.

5. A terceira discordância é mais uma diferença e tem que ver com as famílias políticas que os dois partidos integram no Parlamento Europeu: o Livre está com o Grupo dos Verdes/Aliança Livre Europeia e o Bloco está com o Grupo da Esquerda no Parlamento Europeu - GUE/NGL.

6. Voltando às concordâncias: ambos defendem a semana dos quatro dias: um quer implementar a medida e outro quer alargar o teste que já se iniciou. Ritmos diferentes para chegar ao mesmo fim: uma semana de trabalho mais curta.

7. Termino como terminou o debate: com um acordo em matéria europeia. A propósito da guerra na Ucrânia e do papel da NATO (temas que têm estado afastados dos debates), os dois líderes registaram que a União Europeia precisa de cooperação e de autonomia estratégica.

“Acabamos com um acordo”, disse Mariana Mortágua. Acabaram como começaram, acrescento eu. Próximos como sempre.

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