A depressão é uma doença do estigma e dos obstáculos ao tratamento

Se entendermos toda a doença como uma perda de liberdade, percebemos que ter uma depressão não é diferente de ter uma perna partida.

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"Enquanto a doença mental é um tema médico, a saúde mental é um tema sobretudo político" Kelly
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Hoje é o Dia Mundial do Combate à Depressão, condição médica muito comum que afeta cerca de 5% da população mundial. A depressão está associada a um estigma negativo muito intenso que é um dos principais obstáculos ao acesso aos cuidados precoces e ao tratamento adequado que diminuiria o impacto desta doença e as suas graves consequências. Como tal, no combate a que hoje se apela, devemos desconstruir preconceitos.

Podemos começar por afirmar que a ideia de que o corpo e a mente são coisas distintas está errada. Aprendemos que o corpo é físico e que a mente não tem matéria, que depende da nossa vontade e nos permite pensar e sentir. Esta divisão é falsa e perpetua a ideia de que uma pessoa com depressão é fraca de cabeça, preguiçosa e precisa apenas de se distrair.

Outro obstáculo pernicioso é a crença de que para termos uma depressão tem de ter acontecido alguma coisa externa a nós que percecionamos como negativa. Sabemos que a depressão resulta da interação da unidade corpo-mente com o meio externo onde nos desenvolvemos. Mas podemo-nos deprimir e achar que não há nada na nossa vida que justifique esse estado. Então porque é que me sinto triste? Porque a depressão é uma doença que afeta o cérebro e que não depende exclusivamente de fatores externos. É por isso que, perante a mesma situação, uma pessoa se deprime e outra não.

A falsa externalidade das causas e a lógica corpo-mente como entidades separadas atrasam a procura de cuidados porque nos fazem acreditar que conseguimos dar a volta pelo poder da nossa vontade e da nossa mente.

Se entendermos toda a doença como uma perda de liberdade, percebemos que ter uma depressão não é diferente de ter uma perna partida. No caso da perna, perdemos liberdade de movimentos e de fazer as coisas como fazíamos, mas vê-se no raio X e todos se compadecem. Na depressão, além dos sintomas clássicos (tristeza, falta de prazer e de energia, ansiedade, choro, insónia), perdemos liberdade para pensar, centramo-nos no que é negativo e tornamo-nos menos capaz de tomar decisões e de agir. Dói, não se mede em análises e é incompreendida.

Os obstáculos não se ficam por aqui. Se quisermos procurar ajuda profissional, é habitual dizermos "sou contra químicos, não quero medicação". Existem doenças que nas fases iniciais não se sentem, como a diabetes ou a hipertensão, e isso não gera um sentimento de rejeição aos químicos porque se quer procurar evitar ter um AVC ou um enfarte. Então, qual é a razão de não se tratar uma depressão? Uma delas é o medo de se ficar zombie, de engordar ou dormir demais. Se tal já foi verdade, desde os anos 90 que os antidepressivos estão desenvolvidos para não darem efeitos adversos relevantes e nos porem funcionais, com mais energia, vontade de fazer coisas, bem-dispostos e tranquilos. Ou seja, capazes de pensar e de agir, de recuperar a liberdade perdida.

Negar a terapêutica farmacológica adequada e atempada a uma pessoa doente é prejudicar a sua recuperação, agravar o problema (por vezes, levá-la ao suicídio) e impedi-la de se manter ativa.

Se quisermos ter ajuda profissional, o obstáculo último é o acesso que é muito difícil. Porquê? Porque é urgente alocar os recursos necessários para que os cuidados prestados àqueles que padecem de depressão sejam rápidos, adequados, economicamente acessíveis e pautados da humanidade que a escuta ativa exige.

Enquanto a doença mental é um tema médico, a saúde mental é um tema sobretudo político. Cabe à sociedade organizar-se de forma a promovê-la e, assim, diminuir o risco de desenvolver doença mental. Viver em função da economia e não das pessoas é provavelmente o maior obstáculo a ter uma boa saúde mental.

Em tempos de linguagem bélica, podemos também apelar a que se combatam até à aniquilação total os infindáveis obstáculos ao tratamento da depressão.


O autor escreve segundo o Acordo Ortográfico de 1990

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