As Matildas da inteligência artificial

Não são poucos os casos na história de invenções e progressos científicos feitos por mulheres que ou são atribuídos a homens, ou o seu nome nunca é referido. Este fenómeno tem um nome: efeito Matilda.

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Após intensas semanas de seguimento da história da OpenAI, com o CEO Sam Altman a ser despedido e re-contratado no período de dias, a inteligência artificial esteve de novo no foco dos media nacionais e internacionais. Empresa criadora do ChatGPT, a OpenAI é uma das empresas da área com maior impacto e com um poder determinante sobre o futuro que o desenvolvimento desta tecnologia irá tomar.

Como é sabido, a IA tem tendência a amplificar vieses e preconceitos, pelo que o seu desenvolvimento de maneira equilibrada e ética é crucial. Por isso, é igualmente vital que as equipas que lideram esta revolução da IA sejam diversas e representativas dos mais diversos pontos de vista.

Ora, enquanto andávamos a tentar perceber o que é o projeto Q*, ou o que teria feito Sam Altman para que o board o tivesse despedido, houve uma notícia que passou relativamente despercebida: o tal board desta poderosíssima empresa é apenas constituído por homens, o que levanta várias questões de ordem ética e põe em causa a diversidade necessária para desenvolver a IA de maneira ética e sem preconceitos. É neste ambiente que a revista Forbes lançou, uns dias depois, um artigo levantando estas preocupações e listando dez mulheres notáveis na área da IA, incluindo as portuguesas Daniela Braga e Manuela Veloso.

Uma semana depois, o jornal The New York Times lançou um artigo que enumera “algumas das pessoas envolvidas nas origens da IA moderna e que influenciaram o desenvolvimento da tecnologia.” Entre nomes óbvios como Altman, a publicação identifica mais 11 homens como Bill Gates, Elon Musk ou Satya Nadella, não existindo uma única mulher nesta lista.

Esta peça expõe uma constante na história das ciências: a exclusão e invisibilidade das mulheres nesta narrativa, independentemente dos seus feitos. Não são poucos os casos na história de invenções e progressos científicos notáveis feitos por mulheres que ou são atribuídos a homens, ou o seu nome nunca é referido, apagando estas geniais mulheres da história.

Este fenómeno tem um nome: efeito Matilda. Cunhado por Margaret W. Rossiter em 1993, é uma homenagem à sufragista Matilda Joslyn Gage, que em 1883 listou uma série de mulheres responsáveis por invenções e progressos científicos notáveis cujos nomes foram esquecidos, apagados ou até usurpados ao longo de séculos.

Cento e quarenta anos depois de Woman as an Inventor de Matilda Joslyn Gage, continuamos a assistir ao apagar e tornar invisível a contribuição das mulheres. A lista do New York Times é um claro exemplo e um alarme que soa no caminho da igualdade, ainda tão longo. As Nações Unidas calculam que, a este ritmo, vamos demorar mais 300 anos até a igualdade de género ser atingida.

Não há desculpa para continuarmos a ocultar as mulheres da história. Não há desculpa para continuarmos a não dar visibilidade a mulheres brilhantes nas suas áreas. Não há desculpa para não termos role models diversos. Porque só podemos ambicionar aquilo que conhecemos. E é imperativo garantir uma maior diversidade nas áreas das ciências se queremos que as futuras tecnologias, como a inteligência artificial, sejam construídas de maneira cada vez mais ética e com o menor grau de preconceito. Se mantivermos este domínio restrito apenas a um grupo pequeno e não representativo da sociedade, podemos ter a certeza de que a inteligência artificial vai ser apenas mais uma ferramenta para perpetuar as desigualdades sociais e os preconceitos.

Por isso, é crucial garantir a visibilidade de mulheres em todas as áreas. Para que cada vez mais raparigas se possam sentir inspiradas, e sentirem que também podem enveredar por aquele caminho e serem bem-sucedidas. E o sucesso da diversidade, especialmente no desenvolvimento tecnológico, é o nosso sucesso enquanto sociedade.

A autora escreve segundo o acordo ortográfico

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