A geração mais ouvida de sempre

Está na hora de nos passarem o testemunho, pelo bem da nossa democracia, sob pena de termos, num futuro próximo, uma juventude alienada não só do sistema político, mas de si mesma.

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Megafone P3: A geração mais ouvida de sempre Rui Oliveira

É inegável o progresso que tem sido feito no que toca à auscultação das gerações mais jovens. Seja através de entidades orgânicas como os Conselhos Consultivos Jovens e Assembleias de Juventude, seja através da imposição – natural – de meios de comunicação que nos são mais familiares, a minha geração (entre os 18 e os 30 anos) tem vindo a conseguir impor vários pontos importantes da sua agenda na discussão política. Desde a crise climática, passando pelas crises na educação e na habitação, são muitos os jovens que se têm destacado nestas lutas.

A transição democrática, em 1974 e 1975, permitiu a uma série de jovens assumirem posições de acção e de poder naquela que foi a construção de um novo sistema político e de sociedade. A tão repentina mudança de regime forçou o aparecimento de novos protagonistas, ainda que em posições de menor destaque.

Entre estes figuravam personalidades como Marcelo Rebelo de Sousa, António Guterres, Basílio Horta ou Jerónimo de Sousa. A todos estes jovens (todos com menos de 25 anos) foi dada a oportunidade não só se sentarem à mesa de negociações, mas também de tomar decisões, quer enquanto deputados eleitos à Assembleia Constituinte, quer como governantes.

Esta vivência, proporcionada por uma elevada politização da sociedade e por um sistema político errático, possibilitou não só uma maior, mas também melhor representação da juventude nas esferas do poder.

No entanto, aquilo a que assistimos nas décadas seguintes foi a desvalorização completa da juventude enquanto força informada, capaz e, acima de tudo, valiosa para a decisão. A geração política de que anteriormente falei — e as seguintes — captaram o aparelho do poder e o monopólio das tomadas de decisão, incapacitando qualquer jovem de chegar a estas posições.

Basta, aliás, notar que os nomes que mencionei são, ainda hoje, protagonistas políticos do nosso dia-a-dia. Este facto, por si só, não seria necessariamente problemático, caso tivéssemos observado uma renovação geracional no caudal mais abaixo, o que não aconteceu. O número de deputados com menos de 30 anos tem vindo a diminuir de uma legislatura para a seguinte.

Na esfera governativa não se pensa, sequer, em iniciar o debate sobre a necessidade de representação jovem, sob pena de acusações de “tachismo” e de falta de experiência. As juventudes partidárias não se conseguem distanciar destas acusações e os partidos tradicionais têm vindo a afastar os jovens das suas estruturas pouco transparentes e demasiado inflexíveis. Já na dita “sociedade civil”, não faltam jovens com ideias e projectos para o país. Basta que os governantes deixem de se fechar sobre si mesmos.

Por outro lado, também naquela que é, muitas vezes, considerada a porta de entrada para a política – a política autárquica – a representação da juventude tem vindo a diminuir. Há 20 anos, a maioria dos deputados em assembleias municipais eram jovens, hoje já não. Adicionalmente, a idade média de um presidente de câmara aumentou uma década nos últimos 20 anos.

Assim, se é verdade que os órgãos de juventude, como os conselhos municipais de juventude e até mesmo o associativismo têm os seus problemas, também é verdade que já provaram o seu valor repetidamente. Isto, contudo, não basta para fazermos chegar as nossas vivências e desejos àquilo que é a decisão política portuguesa. É factual que a minha geração participa politicamente de forma diferente das gerações anteriores. No entanto, continua a ser nos lugares “tradicionais” da política que a mudança, de facto, é criada.

Ao mesmo tempo que nos deram um lugar à mesa, afastaram-nos das salas onde se tomam as decisões. Ao mesmo tempo que nos ouvem nos inúmeros conselhos, artigos nos jornais, podcasts na rádio e espaços de comentário na televisão, não nos permitem escolher. Ora, é chegada a hora de, mais do que nos fazermos ouvir, passarmos à acção.

Está na hora de nos passarem o testemunho, pelo bem da nossa democracia, sob pena de termos, num futuro próximo, uma juventude alienada não só do sistema político, mas de si mesma.

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