Vamos à Lua sem sair de Portugal? Há uma simulação em curso nos Açores

Sete “astronautas” vão viajar até ao ambiente da Lua sem deixar a ilha Terceira, nos Açores. De 22 a 28 de Novembro, este grupo de exploradores vai passar uma semana na gruta do Natal.

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A astronauta análoga Yvette Gonzalez replica o ambiente lunar na gruta do Natal, nos Açores António Araújo/LUSA

A primeira missão de simulação de ambiente lunar realizada em Portugal vai colocar a ilha Terceira e os Açores no mapa da comunidade científica internacional, defendem os organizadores do projecto, denominado “Camões”.

“A Gruta do Natal oferece todas as condições para finalmente termos um local análogo (de simulação da superfície da Lua) para oferecer aos verdadeiros astronautas. Abrimos as portas à comunidade nacional e internacional para vir cá treinar”, afirma Ana Pires, comandante da missão e investigadora do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores Tecnologia e Ciência – INESC TEC, em declarações à Lusa e à Antena 1.

Ana Pires fala na gruta onde sete “astronautas” nacionais e estrangeiros vão ficar isolados, entre 22 e 28 de Novembro, para simular uma missão na Lua e realizar 14 experiências científicas. A investigadora já participou numa missão análoga no deserto, mas pela primeira vez participa numa subterrânea, que diz ser “muito mais dura”. “Finalmente temos um local onde investigadores, futuros astronautas e jovens se poderão preparar para a exploração humana (da Lua) e para a exploração robótica”, frisa.

A equipa de cientistas estará uma semana isolada nesta gruta açoriana António Araújo/LUSA
Ana Pires será a comandante desta missão António Araújo/LUSA
A gruta do Natal será o palco para esta rara missão de simulação da Lua em ambiente subterrâneo António Araújo/LUSA
A missão quer mostrar se é possível viver dentro de uma estrutura com características similares a um ambiente lunar António Araújo/LUSA
Ao longo de uma semana, a equipa científica também vai levar a cabo 14 experiências dentro da gruta António Araújo/LUSA
Durante sete dias, estes "astronautas" só subirão à recepção para refeições, higiene e um acesso breve à internet António Araújo/LUSA
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A equipa de cientistas estará uma semana isolada nesta gruta açoriana António Araújo/LUSA

Isolados a estudar o mundo subterrâneo

A temperatura está a 17 graus Celsius. Do tecto caem pingos de água, que se acumulam em poças no chão formado pela lava. Em breve, a gruta será encerrada ao público e as luzes serão desligadas. Dois geocientistas, um geofísico, uma astrobióloga, um explorador, uma especialista em factores humanos e clima e um psicólogo vão dividir-se por três estações, onde serão montadas tendas.

Durante sete dias estarão isolados na gruta e só subirão à recepção para refeições, higiene e um acesso breve à Internet. Com a colaboração de outros dez investigadores, vão realizar 14 experiências, com recurso a drones, sensores e outras tecnologias, na esperança de recolher dados que possam partilhar com a comunidade científica internacional.

“Vamos passar aqui 24 horas por dia. Portanto, vamos ter imenso tempo para descobrirmos muitas coisas. Estamos ansiosos por perceber as histórias que esta gruta tem para nos contar”, adianta Ana Pires.

Mais do que estudar a gruta, a missão pretende comprovar se é possível viver dentro de uma estrutura com características que se assemelham a um ambiente lunar. “Vamos, no fundo, tentar perceber se de facto um verdadeiro astronauta conseguiria viver neste tipo de ambiente e qual é o resultado final que poderá servir para dar pistas um dia para as verdadeiras missões. O que é que uma estrutura geológica deste tipo precisa para que um astronauta consiga viver aqui”, explica.

Os geocientistas, por exemplo, vão tentar descobrir o que poderá estar por detrás das paredes da gruta, recorrendo à tecnologia óptica de detecção remota Lidar, enquanto a astrobióloga vai recolher amostras de organismos vivos.

Já Yvette González, directora-executiva da missão e investigadora Universidade de Plymouth, no Reino Unido, vai estudar os factores humanos e a empatia ambiental. “Enquanto humanos, acreditamos que vivemos em reciprocidade com a Terra? E o que é que isso significa para viver na Lua ou em outro planeta? Será que olhamos à volta e ainda nos sentimos ligados a este tipo de natureza? Lá fora olhamos para uma árvore, para um pássaro, mas aqui será que olhamos para a gruta e nos sentimos ligados para a protegermos, para viver aqui a longo prazo?”, questiona.

Uma das vertentes que a investigadora vai estudar é até que ponto a sensação de tomar um duche pode manter o “astronauta” mais confortável e contribuir para a sua saúde mental.

“Viver numa gruta é algo de novo”

A ideia de criar uma missão de simulação numa gruta surgiu há quatro anos, mas desde que foi anunciada, na Cimeira dos Exploradores em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, a equipa teve quatro meses para a montar.

Segundo Yvette Gonzalez, há muitas missões análogas no mundo, mas esta é realizada numa estrutura “muito invulgar, diferente de qualquer outro lugar” e que vai funcionar como um verdadeiro laboratório natural. “Viver numa gruta é algo de novo. Poucos grupos o fizeram. Pela primeira vez vamos dar dados a outros cientistas de como é viver aqui. Por outro lado, esta gruta vai disponibilizar novos dados para a astrobiologia e para a geologia”, nota.

Durante o período em que vão estar isolados na gruta, os “astronautas” vão fazer videochamadas com alunos do primeiro ciclo à universidade, de Portugal, Estados Unidos e Indonésia.

A Gruta do Natal foi escolhida não só pela sua acessibilidade, para instalar a missão e para um eventual resgate, mas também porque, apesar de manter interesse científico, já é visitada por turistas. “Interessava propor uma gruta que não fosse intocada, uma gruta que já estivesse perturbada”, explica o espeleólogo Paulo Barcelos, presidente da associação “Os Montanheiros”, que gere o local.

“As grutas são ambientes vivos, têm um nível de biodiversidade que tem vindo a ser estudado e cada vez se descobrem coisas mais interessantes. A fauna endémica dos Açores está quase toda dentro das grutas”, sublinha.