Música livre, aventureira, desafiante: eis mais um Out.Fest, no Barreiro

À 19.ª edição, o festival de música exploratória do Barreiro volta a apresentar um cartaz rico em linguagens musicalmente ousadas. Acontece entre esta quarta-feira e 7 de Outubro.

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Dali Muru and the Polyphonic Swarm, um dos projectos que integram o cartaz do festival DR

Math rock, black metal, afro jazz, electrónica, hip-hop, R&B alternativo, experimentalismo de diferentes tipos. É com a diversidade de sempre, é com a mesma atenção a algumas das manifestações mais criativas e/ou estimulantes da música actual, que o Out.Fest avança para a sua 19.ª edição. Entre esta quarta-feira e 7 de Outubro, o Festival Internacional de Música Exploratória do Barreiro (é esse o seu subtítulo) ocupará mais de dez espaços dessa cidade do distrito de Setúbal, desde o teatro e a biblioteca municipais a igrejas, um atelier, sedes de diferentes associações culturais, o largo de um dos mercados municipais (o Mercado Municipal 1º de Maio) e uma escola de jazz.

Esteve para não ser assim. “Saímos da edição passada com um desejo de limitar os espaços”, diz ao PÚBLICO Rui Pedro Dâmaso, director artístico da OUT.RA, associação cultural que produz o festival, co-programado pela Filho Único. A inflação e o aumento do custo de vida traduziram-se em “constrangimentos financeiros” para esta edição, conta. “Mas acabámos por deixar o entusiasmo falar mais alto. Esta vai ser a edição em que vamos usar mais espaços, de longe. Surgiram possibilidades que pensámos que devíamos perseguir.”

Num ano ambicioso, que aproxima o Out.Fest de um aniversário redondo, o cartaz reúne “coisas díspares entre si, mas que apontam para caminhos novos”, diz o responsável. Criadores e propostas musicais que apresentam “formas novas de olhar não apenas para trás, como para o agora e o futuro”, considera.

Um dos nomes mais reconhecíveis é Alvin Curran, americano que é “um histórico do continente” europeu. Nos anos 1960, co-fundou, em Roma, o grupo vanguardista Musica Elettronica Viva, colectivo de improvisadores que procuravam explorar as possibilidades de outras fontes sonoras que não os instrumentos convencionais. Hoje com 84 anos, Curran apresentará no festival Beams, peça “com uma componente performativa” em que trabalhará com mais de 20 músicos locais, sobretudo jovens.​

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Alvin Curran CR

Outro veterano é o histórico violinista português Carlos Zíngaro, outro experimentador. O cartaz leva-nos, depois, ao encontro de várias jovens da nova electrónica nacional, como Joana de Sá, Rita Silva e Xexa. Na música da primeira destas criadoras, natural de Viseu, loops de sons do dia-a-dia, sintetizadores e exploração drone criam ambientes ora reparadores, ora mais desassossegados. Rita Silva trabalha com sintetizadores modulares para criar uma electrónica cósmica, introspectiva, flutuante. E Xexa, de ascendência são-tomense e a residir em Londres, usa de forma económica a sua voz num ambient afrofuturista, entre a ancestralidade e o digital.

O sector nacional do cartaz inclui ainda, por exemplo, a electrónica com traços folclóricos de Luís Pestana, Ravenna Escaleira (exploradora, em alguns trabalhos seus, de uma electrónica entre o noise visceral e paisagens mais ambientais, e, num outro registo, de uma poesia evocativa com o saxofone), e o duo Leonor Arnaut & Ricardo Martins, voz retrabalhada por efeitos e bateria como que aos solavancos, incluindo outros elementos que apontam em vários sentidos, desde o free jazz a um ambient irrequieto (ou ainda a uma electrónica mais sedada).

Quanto a Tiago Sousa, o pianista do Barreiro vai tocar o órgão tricentenário da Igreja da Nossa Senhora do Rosário. “Ele interessou-se pelo instrumento e acabou por conseguir ter acesso a ele. Gravou um tema; achámo-lo extraordinário e pedimos-lhe mais”, recorda Rui Pedro Dâmaso.

Outro momento particular constituirá a primeiríssima actuação dos ΔIII/XIII (lê-se “Treze”), que junta o rock avant-garde e cavernoso dos Estranhas Entranhas ao projecto de drone/noise CAVERNANCIA, de Pedro Roque. “São dois projectos do Barreiro que se uniram de forma espontânea”, diz Rui Pedro Dâmaso. “Aqui, damos-lhe um espaço talvez privilegiado para se apresentarem ao público”, acrescenta. “O nosso trabalho é esse: prestar atenção e seguir o que se passa, a nível local, nacional, quando possível internacional, sobretudo nutrindo a comunidade.” Numa outra colaboração inédita, Sofia Mestre, vulgo Clothilde, partilhará o palco do Teatro Municipal do Barreiro com o trompetista João Silva.

Revisitar tradições

No sector internacional do cartaz, encontramos propostas como o Nok Cultural Ensemble, de Edward Wakili-Hick (Sons of Kemet e Kokoroko, por exemplo), projecto de música resiliente que, indo do jazz ao dub, convoca várias tradições percussivas da diáspora africana. Há também a escocesa Brìghde Chaimbeul, jovem que insere a sonoridade característica da gaita-de-foles numa música minimalista, meditativa, por vezes reconfortante.

Outras apostas incluem Afrorack, ugandês com um tecno inspirado em elementos tradicionais do Leste de África, o trio francês Nze Nze, que transporta contos guerreiros do povo africano Fang para uma música pós-industrial e rarefeita, os Sirom, eslovenos que misturam referências e instrumentos de diferentes proveniências numa música livre e libertadora (chamam-na “folk imaginária”), e a dupla indonésia Raja Kirik, que parte das tradições dos javaneses e da sua “história de luta contra a opressão colonial” para erguer um tecno industrial e combativo.

Há ainda: Sven-Åke Johansson & Jan Jelinek, duo que junta, respectivamente, o veterano baterista e poeta sueco ao germânico da música glitch; ​Dali Muru and the Polyphonic Swarm, em que o spoken word de Dalia Neis assombra as sinistras imagens desenhadas por sintetizadores e percussão; Cucina Povera, com vozes processadas e camas sonoras que levitam; Voice Actor, com canções curtas e narcotizadas que escapam a categorizações simples; os HiTech, trio de Detroit com soul, jazz e hip-hop na sua electrónica de dança entre o footwork e o ghettotech; LustSickPuppy, com um hip-hop enérgico e mergulhado em hardcore digital; os Liturgy, banda de culto do black metal; e os americanos Horse Lords, com o seu math rock nervoso.​

Sven-Åke Johansson & Jan Jelinek UDO SIEGFRIEDT
Liturgy Jessica Hallock
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Sven-Åke Johansson & Jan Jelinek UDO SIEGFRIEDT

“Tentamos, de ano para ano, surpreender as pessoas. Ainda que haja uns cinco nomes que podem ser mais reconhecíveis, tentamos que quem vem ao festival para os ver possa, também, levar outras vezes consigo. Acho que temos conseguido que isso aconteça: o nosso público é aventureiro, disposto a descobrir coisas”, diz Rui Pedro Dâmaso.

Já antecipando, na medida do possível, a edição do próximo ano, o director artístico da OUT.RA diz que o Out.Fest não tem “a tradição de assinalar os aniversários de uma forma extravagante”. Mas “20 anos é uma idade com algum peso”, diz. “Implica alguma reflexão, baralhar e voltar a dar.” Por isso, o festival vai, em 2024, “tentar criar uma edição que funcione fora do tempo”. Isto é, uma edição com uma estrutura diferente, que possa representar uma espécie de “ponto disruptivo”. “A seguir, logo vemos para onde vamos.”

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