Clothilde e o que vem de dentro

Tem a frontalidade de uma primeira obra e a vivência de quem já viu mundo, sentiu e pensou de muitas maneiras. Disco raro, para estimar. Afinal, foram precisos 42 anos para chegar até ele. Do inglês to twitch, contorcer.

Vegetação, paisagem, floresta
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Fotografia de retrato, Árvore
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“Foi preciso chegares aos 40”. A mãe de Sofia Mestre, a pessoa por detrás de Clothilde, tinha passado a infância a instigá-la a mexer com música, mas foram precisas as voltas que foram precisas para que o momento certo chegasse. Sonja, activista cultural multifacetada e responsável pela editora Labareda, desafiou a amiga de longa data a publicar o seu primeiro trabalho em música para a sua compilação 100% feminina, Labareda, distribuída em dois volumes. Twitcher é a estreia de Clothilde num formato de longa-duração.

Sofia nasceu e cresceu em Lisboa. Partiu durante quase uma década para Espanha, onde estudou colorismo e trabalhou nessa área para cinema e publicidade. Regressou à capital quando tanta gente estava a partir, no ano de 2009. Foi mexendo também em desenho e fotografia, mantendo o seu percurso de exploração criativa vivo. O seu companheiro Zé (como ela fala dele), depois de começar a mexer com circuit bending passou para a criação e fabrico de modulares, que passou a produzir para consumo domiciliário do casal. Sempre a melhorar, com calma, tempo e aprumo os acabamentos tecnológicos destas máquinas emissoras de sinais sonoros electrónicos moduláveis.

“Eu gosto do instinto. Da coisa vir de dentro”. Ouve-se bem, claro. Numa época onde a utilização deste tipo de tecnologia se expandiu e democratizou, gerando milhentos discos exclusivamente feito com estes utensílios, o trabalho aqui em questão destaca-se de imediato pela directicidade. É emocionalmente legível, honesto, brutalista, bravo. Os vícios normais do “género musical” em questão (previsibilidade, circularidade monótona) são uma não-questão, com a música cheia de direcções melódicas, harmónicas, rítmicas, estruturais e narrativas sempre em progressão, mas com uma história para contar, com princípio, meio e fim, ao ponto de quase se tornarem canções.

“Eu lembro-me de quando comecei a ouvir as [minhas] músicas de fora… pode não estar lá para ninguém, mas parece que toda a música que ouvi na minha vida está lá. Comecei a ouvir Joy Division, Bauhaus. São ritmos, são cadências que me fazem ir atrás delas… é tripas”.

Esta concisão poética à flor da pele é cruzada com o contacto que acabou por ter em anos recentes com a música de visionárias da composição e improvisação electrónica. Fala-nos de Eliane Radigue e Daphne Oram, e de forma certeira a Labareda refere ainda Maryanne Amacher, Jessica Rylan ou Annea Lockwood. Gente que sempre trabalhou novas formas que reformulassem e fizessem andar para a frente vários tipos de música de origem oriental e ocidental, o minimalismo, a electroacústica, por vezes a própria ideia de canção.

No particular de Twitcher, Sofia contou com a valiosa opinião do seu Zé e do amigo Marco Guerra, que lhe deram feedback precioso sobre as propostas de edição e alinhamento de disco que ia desenhando. Esse é outro aspecto refrescante deste trabalho, onde não há peças desnecessariamente longas nem vinhetas demasiado curtas, mas objectos-sonoros vivos, cheios de capital musical. “O único corte que [cada música] tem é no início e no fim. Não há nada no meio. Decido exactamente o ambiente em que quero começar a tocar na faixa. Foi tudo muito instinto. Tudo é uma improvisação no momento. Acaba, ponto. Acho que foi isso que me atraiu nestas máquinas. É um momento, super efémero. Se eu não gravar nunca vou poder ouvir aquilo que fiz”.

Acerca da natureza das coisas incontroláveis: “Aqui não posso parar porque [se o fizer] as máquinas páram de tocar. É tudo muito veloz na minha cabeça. Como é que tiras, introduzes e pões, e pões uma linha e outra mais áspera... é lindo, não tenho tempo para parar, olhar e para avaliar. Gosto disso, dessa crueza”. (Para quem não souber como funciona, uma maneira simples de explicar estas máquinas é que elas são geradoras de sinais sonoros não totalmente controláveis, e que para adquirirem simultaneamente musicalidade e complexidade requerem perícia e paciência para serem orquestrados, visto cada um dos sons - e seus processamentos - serem parcialmente instáveis.)

Nas suas apresentações ao vivo essa qualidade mantém-se: não leva qualquer muleta, mas sim o mesmo material que emprega no seu trabalho privado. “Há coisas que aconteceram naquelas faixas [do disco] que ao vivo é difícil de lá chegar. Precisava de tocar duas horinhas para chegar lá”. Tal como em estúdio, em palco, para além de algumas notas acerca de como chegar a determinados tipos de som, tudo começa com “uma história na cabeça, um fio condutor”, e parte daí para o processo abismal de tentar ver deus nosso senhor.

A sua editora, Sonja, próxima não só de Sofia como de Nuno Patrício e de Marco Guerra através do colectivo artístico Fungo, responsável por eventos e edições nos últimos anos largos, tem utilizado a Labareda para dar espaço a coisas novas, entre estreias absolutas a primeiras colaborações. Para além dos supramencionados dois volumes da compilação Labareda, onde estão mulheres de nova geração da electrónica, casos de Jejuno, Raw Forest ou Caroline Lethô, contou também com a colaboração de Anabela Duarte, com conhecido e já antigo percurso na música nacional. De destacar ainda dentro do catálogo da editora para o trabalho homónimo de BLEID, das mais interessantes artistas actualmente em Portugal a trabalhar todos os tipos de formas electrónicas abertas, quer em âmbitos mais ligados à música de dança, quer em desenhos arrítmicos ou trabalhos mais puramente texturais (mas sempre dinâmicos). Twitcher surge numa edição digital gratuita disponível no bandcamp da Labareda, e em tiragem limitada em cassete, disponível por encomenda online ou em lojas mais investidas no apoio continuo às tiragens de música independente em Portugal.

Novamente Sofia: “Nunca fiquei tão satisfeita com nada que tenha feito” no seu percurso criativo. “Acho que esta é a que me preenche mais, a que me toca mais. Acho que é onde consigo ser mais pura, mais verdadeira”. As coisas chegam quando têm que chegar, as boas e as más. Esta é das boas. Tem a frontalidade de uma primeira obra e a vivência de quem já viu mundo, sentiu e pensou de muitas maneiras. Disco raro, para estimar. Afinal, foram precisos 42 anos para chegar até ele. Do inglês “to twitch”, contorcer.