Costa responde a Cavaco: “Desceu à terra” para “alimentar o frenesim de uma crise política artificial”

Primeiro-ministro acusa ex-Presidente de colaborar com os sociais-democratas para derrubar o Governo. Sobre confusão no gabinete de Galamba, Costa reitera que não soube previamente do recurso ao SIS.

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António Costa diz que Cavaco quer beneficiar o PSD TIAGO PETINGA

António Costa procurou, nesta segunda-feira, desvalorizar as violentas críticas do ex-Presidente da República afirmando que Cavaco Silva "desceu à terra" depois de algum tempo de recolhimento, "vestindo" a camisola" do PSD para "alimentar aquele frenesim em que a direita portuguesa agora está de querer criar o mais rapidamente possível uma crise política artificial". O objectivo, diz, é que os portugueses "não sintam plenamente os benefícios da recuperação económica".

Falando aos jornalistas à entrada para um almoço que assinala os 25 anos da inauguração da Expo-98, no Parque das Nações, o primeiro-ministro afirmou que o ex-chefe de Estado "despiu o fato institucional próprio a que nos habituou e que todos respeitamos como estadista" e "vestiu a t-shirt de militante partidário e fazer um discurso inflamado para animar as suas hostes partidárias".

No encerramento do Encontro Nacional de Autarcas do PSD que decorreu em Lisboa, Aníbal Cavaco Silva criticou os casos que têm assolado o Governo, afirmou-se preocupado com o rumo da governação, acusou o executivo de Costa de colocar "o país na trajectória de empobrecimento e profunda degradação da política nacional", e apresentou o PSD como "a única verdadeira alternativa credível ao poder socialista". Depois de um discurso de 40 minutos com afirmações duras para os socialistas, diversos dirigentes do PS vieram criticar a forma e o conteúdo escolhidos pelo antigo Chefe de Estado.

Críticas que encontram eco nas declarações de António Costa, que ainda vai mais longe: "O professor Cavaco Silva é um homem que é um profundo conhecedor dos ciclos económicos. E, portanto, percebe bem qual é a dinâmica em que estamos neste momento na economia portuguesa: felizmente, a economia portuguesa está a dar a volta às grandes dificuldades que teve que enfrentar com a pandemia, a guerra e a inflação", disse, para justificar que os sociais-democratas querem deitar o Governo abaixo para que o PS não possa beneficiar politicamente dos bons resultados económicos.

"Só uma crise política podia interromper, hoje, esta dinâmica de bom crescimento", sublinhou.

Como outros socialistas já tinham tomado para si essa tarefa, António Costa preferiu dizer que continua a ter "toda a consideração" pelo antigo Presidente, apesar de "divergirem" no que pensam, classificou-o de "reputado economista" e de "grande especialista". Mas também recordou que Cavaco Silva teve que dar posse, contrariado, ao seu Governo em 2015.

"Eu percebo bem que alguém que tem muitos anos de militância partidária, que teve a enorme frustração de concluir o seu mandato presidencial, dando posse a um Governo que, de todo em todo, não desejava dar posse, tenha ficado sempre com esta mágoa. E volta e meia suspenda a sua função institucional e, na sua qualidade partidária venha alimentar esta ideia" de crise política, sustentou.

Em contraponto, acrescentou: "Aquilo que me cabe a mim não é cuidar dos interesses partidários da direita portuguesa. É cuidar do interesse nacional e garantir que os portugueses irão beneficiar das políticas que têm vindo a ser seguidas que têm permitido à economia estar a recuperar", apontou, enumerando alguns indicadores económicos como o emprego, equilíbrio das contas externas, recuo da inflação e melhoria dos rendimentos.

Costa reitera confiança em Galamba

Não foram só as declarações de Cavaco Silva que o primeiro-ministro procurou desvalorizar: António Costa acabou por fazer o mesmo em relação ao caso do Ministério das Infra-estruturas. Questionado pelos jornalistas sobre se mantém confiança política em João Galamba, o primeiro-ministro defendeu que "não houve nenhum facto novo sobre essa matéria" e que "o único facto novo que justifica perguntas" foi o discurso de Cavaco Silva.

António Costa voltou a insistir que não foi informado previamente sobre a intervenção do SIS na recuperação do computador do ex-assessor, "nem tinha que ser", mas confirmou a o relato de Galamba de que foi informado sobre o caso na mesma noite já muito tarde, depois de já estar "tudo resolvido", como lhe afiançou o ministro.

Sobre a sua eventual presença na comissão de inquérito como já pedem a Iniciativa Liberal e o Chega, António Costa diz que fará o que lhe for solicitado pela comissão, mas reitera que esta foi constituída com um objecto e prazo no tempo bem definidos, como que realçando que não abrange o que se passou no ministério neste último mês.

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