Cavaco Silva arrasa Governo e projecta um futuro com Montenegro

A jogar em casa, ex-Presidente da República passou em revista a governação socialista e não deixou pedra sobre pedra. Governo é “especialista em mentira”, Montenegro é “alternativa sólida”.

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"O PSD é, inequivocamente, a única verdadeira alternativa" ao actual Governo, disse Cavaco Silva ANDRÉ KOSTERS/LUSA

Um Governo incompetente e mentiroso, desarticulado e desnorteado, sem rumo nem estratégia. Um primeiro-ministro que perdeu a autoridade e que num “rebate de consciência” devia ponderar demitir-se, tal como aconteceu em 2011 com outro governante socialista, José Sócrates. À direita, um PSD a crescer e que cada vez mais se afirma como "alternativa sólida" de governo, chefiado por um líder mais preparado do que o próprio estava quando ascendeu a primeiro-ministro, corria o longínquo ano de 1985.

A jogar em casa, no encerramento do Encontro Nacional de Autarcas do PSD que decorreu em Lisboa, Aníbal Cavaco Silva desferiu este sábado uma das mais contundentes críticas ao Governo socialista que se lhe conhecem, passando em revista os últimos casos que culminaram numa crise institucional com Belém mas pondo sobretudo em perspectiva uma governação que, no seu entender, está à deriva e deixará o país em pior estado do que estava quando o PS regressou ao poder.

“Estou seriamente preocupado com as consequências, para o país, da governação do Partido Socialista. Muito especialmente para o futuro dos mais jovens", criticou o ex-Presidente da República no seu longo discurso de 40 minutos que a plateia que enchia o Hotel Epic Sana Marquês aplaudia com renovado entusiasmo a cada nova passagem.

Cavaco acusou "o Partido Socialista e o seu Governo" de colocarem "o país na trajectória de empobrecimento e profunda degradação da política nacional". "É no Governo socialista que o PSD deve centrar a sua atenção", alertou.

"O PSD é, inequivocamente, a única verdadeira alternativa credível ao poder socialista", disse. E continuou: os salários baixos e as pensões de reforma "que não permitem uma vida digna, o empobrecimento da classe média e a má qualidade dos serviços públicos são o resultado das políticas erradas do Governo, da sua desarticulação e desnorte, da falta de rumo e da falta de visão estratégica. São o resultado de um primeiro-ministro que perdeu a autoridade".

Na sua declaração, além de tecer fortes críticas ao Governo de António Costa, Aníbal Cavaco Silva respondeu ainda ao actual Presidente da República: "O PSD tem vindo a apresentar alternativas e a defender causas que permitem inverter o declínio político e social em que o país se encontra. É totalmente falsa a afirmação de que o PSD não tem apresentado políticas alternativas ao poder socialista", disse.

"Alternativa sólida"

Para o ex-Presidente da República, "o PSD é a única opção de voto credível" para quem quer "libertar Portugal do Governo socialista e de uma oligarquia que se considera dona do Estado. O PSD e o seu líder estão a trabalhar para ganhar as próximas eleições", disse, elogiando o rumo seguido pela actual liderança.

"Luís Montenegro tem mais experiência política do que eu tinha quando subi a primeiro-ministro e está tão ou mais preparado do que eu estava", apontou Cavaco Silva. A frase gerou sorrisos e aplausos entre os presentes na sala, incluindo um sonoro "muito bem" do autarca de Lisboa, Carlos Moedas, sentado ao lado de Montenegro e que interviera numa sessão anterior em que participaram também os autarcas do Porto, Rui Moreira, e de Oeiras, Isaltino Morais.

"Em princípio, a actual legislatura termina em 2026 – prosseguiu Cavaco –, mas às vezes os primeiros-ministros, em resultado de uma reflexão sobre a situação do país, decidem apresentar a sua demissão e têm lugar eleições antecipadas... Nunca imaginei que a incompetência do Governo socialista atingisse uma tal dimensão", referiu.

"Há duas áreas em que o Governo socialista é especialista: em mentira e na propaganda e truques. Durante praticamente um mês não houve um dia em que, na imprensa, não fosse feita a demonstração de que o Governo mente", constatou Cavaco Silva, acrescentando que o objectivo do Governo é "desinformar, condicionar jornalistas e iludir cidadãos".

Prevendo o futuro, quando António Costa deixar o poder, o próximo Governo irá receber "uma herança extremamente pesada", com um "stock de capital fraco", uma juventude em fuga para o estrangeiro, uma produtividade baixa e impostos demasiado elevados. "Por tudo isto, é fundamental olhar o futuro: o país precisa de saber que há uma alternativa sólida e serena, um Governo social-democrata presidido por Luís Montenegro", concluiu.

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Cavaco Silva lado a lado com Luís Montenegro no encontro deste sábado ANDRÉ KOSTERS/LUSA

Recados para dentro

Aníbal Cavaco Silva aproveitou a intervenção para deixar duas sugestões ao PSD e ao seu líder. "O PSD não deve ir a reboque de moções de censura apresentadas por outros partidos mais preocupados em ser notícia", disse, referindo-se em particular ao Chega. E continuou: estas moções "servem os interesses do Governo e desviam as atenções dos erros da sua governação", quando o fundamental é "resgatar o debate político".

Depois, numa referência directa a uma possível coligação entre o PSD e o Chega ou a Iniciativa Liberal, e perante a pressão a que Montenegro tem sido sujeito quanto à política de alianças do partido, Cavaco deixou clara a sua opinião: "O PSD não deve pré-anunciar qualquer política de coligações tendo em vista as próximas eleições legislativas. Se o PS, que está em queda [nas sondagens], não o faz, porque é que o PSD, que está a subir, deve fazê-lo?", questionou.

Já em Abril, Cavaco Silva disse considerar que a situação política em Portugal estava muito perigosa. "De então para cá, deteriorou-se muito mais do que aquilo que eu então antecipava", apontou.

Há quase três décadas que o ex-Presidente da República não comparecia em iniciativas partidárias, algo que praticamente deixou de fazer desde que deixou o cargo de primeiro-ministro, com raras excepções (como a participação na Universidade de Verão da JSD, em 2017).

O PS não tardou a reagir a este discurso, com o líder parlamentar socialista a considerar que Cavaco Silva "adoptou uma linguagem ofensiva e antidemocrática". "A degradação da política é isto", escreveu Eurico Brilhante Dias no Facebook. O socialista acrescentou que foram proferidas palavras "sem respeito por um partido com 50 anos, com milhares de militantes, e que há quase oito anos, com bons resultados, lidera o país em contextos muito desafiantes".

Notícia actualizada às 22h51

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