Cientista portuguesa vai avaliar a poluição por mercúrio nos rios dos Yanomami

Geoquímica Rita Fonseca vai participar em missão na Amazónia organizada pelas Nações Unidas e pela União Europeia a pedido do Governo brasileiro.

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Um índio Yanomami com agente do Ibama numa acção contra mineração ilegal Bruno Kelly/REUTERS

Uma cientista portuguesa vai participar numa missão conjunta da União Europeia e das Nações Unidas, iniciada a partir de um pedido do Ministério do Meio Ambiente brasileiro, para analisar a poluição de mercúrio que contamina a água dos rios e ribeiros no território do povo indígena Yanomami, no Brasil. Este metal pesado é muito tóxico, mas é usado pelos garimpeiros ilegais para separar e extrair grãos de ouro.

“O mercúrio já não se utiliza na Europa há muito tempo, até os termómetros de mercúrio já foram proibidos. Mas os garimpeiros utilizam-no em quantidades brutas, para concentrar o ouro, que é extraído das linhas de água. O mercúrio vai directamente para os cursos de água, não tem qualquer hipótese”, explicou ao PÚBLICO a geoquímica Rita Fonseca, coordenadora do Laboratório AmbiTerra da Universidade de Évora.

Rita Fonseca, professora do Departamento de Geociências da Universidade de Évora foi escolhida pela Unidade Conjunta das Nações Unidas para o Meio Ambiente/OCHA e pelo Centro de Coordenação de Resposta de Emergência (ERCC na sigla em inglês) da União Europeia como especialista ambiental para ajudar o Governo brasileiro a lidar com a contaminação dos rios e ribeiros no território Yanomami (estado de Roraima) por mercúrio, que é um enorme problema de saúde pública.

Para se ter uma ideia da dimensão do problema, diga-se que uma perícia feita pela Polícia Federal Brasileira e divulgada pelo site G1 da Globo em Junho de 2022, concluía que quatros rios da região têm um altíssimo nível de contaminação: 8600% superior ao estipulado como máximo para águas de consumo humano. Não há um nível seguro de exposição ao mercúrio, mas usa-se um indicador da Organização Mundial de Saúde que considera que concentrações acima de seis microgramas de mercúrio por grama de cabelo podem trazer sérias consequências à saúde.

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Rita Fonseca no seu laboratório na Universidade de Évora DR

Esse foi o indicador usado em 2016 num estudo da Escola Nacional de Saúde Pública/Fundação Osvaldo Cruz, em colaboração com uma associação indígena Yanomami, feito em 19 aldeias, que detectou altos níveis de contaminação por este metal pesado, deixado no ambiente pelo garimpo ilegal, a procura de ouro nas terras indígenas, que é proibida mas foi encorajada durante o Governo de Jair Bolsonaro. Numa aldeia encontrou níveis pessoas em que a intoxicação de mercúrio foi medida até 15,5 microgramas por grama de cabelo, 6,8 em crianças com menos de cinco anos e 16 em mulheres grávidas.

“O mercúrio é um metal pesado altamente tóxico, e seus danos costumam ser graves e permanentes: pode causar alterações directas no sistema nervoso central, gerando problemas de ordem cognitiva e motora, perda de visão; além de implicações renais, cardíacas e no sistema reprodutor”, disse, na altura da divulgação do trabalho, Paulo Bastos, um dos autores do estudo à revista da Escola Nacional de Saúde Pública brasileira. Nas mulheres grávidas, o mercúrio atinge o feto e pode causar malformações e outras complicações.

Levar tudo o que é preciso

Esta poluição e a entrada ilegal de garimpeiros no território dos Yanomami - estima-se que haja 20 mil - são factores que contribuíram para a grave crise humanitária que está a viver este povo indígena, e cuja verdadeira dimensão só foi revelada com a entrada em funções do Governo de Lula da Silva

A ONU respondeu a um pedido de ajuda do Ministério do Meio Ambiente brasileiro para lidar com esta situação, que contactou o Centro de Coordenação de Resposta de Emergência da UE. Esta entidade entrou em contacto com os vários países da União, em busca de peritos de contaminação e descontaminação de mercúrio. “Aqui em Portugal, pediram à Protecção Civil, que eu penso que tem ligação com eles e a Protecção civil pediu à Agência Portuguesa do Ambiente se tinham algum especialista na área”, diz Rita Fonseca, para explicar como chegaram até ela.

A divisão regional da APA do Alentejo conhecia-a, ela foi contactada e ela enviou o currículo. Que parecia encaixar-se como uma luva. “Trabalhei muitas vezes no Brasil, inclusivamente nesta parte das contaminações mineiras. E trabalhei também na Amazónia”, adianta a cientista.

O seu nome foi rapidamente aceite, e percebeu que a primeira equipa que será enviada à Amazónia para analisar a contaminação das linhas de água por mercúrio será apenas de duas pessoas, Rita Fonseca e um cientista holandês, Gerhard Winters, da empresa CRUX Engineering. “Somos só duas pessoas. Ele já foi várias vezes perito da ERCC e é geógrafo físico ambiental com especialização em modelação matemática. Complementa a minha especialização”, explica a investigadora da Universidade de Évora.

Em princípio, a missão vai decorrer por fases. Primeiro, avançarão os cientistas que vão recolher amostras, Rita Fonseca e Winters. "Fazemos um diagnóstico e temos que fazer um relatório. E a partir daí é que vai se verificar quem é que se pode juntar a nós, numa outra fase”, explica.

“Agora estamos os dois a tentar planificar a missão, porque isto é uma coisa complicada. Leva tempo porque temos de levar geralmente quase tudo aquilo de que precisarmos. Porque se não, lá é sempre muito complicado de arranjar”, frisa a cientista. “Só queria saber qual era a área mesmo em que vamos trabalhar. Porque uma coisa é trabalhar num rio com 20 metros de profundidade, outra coisa é se tiver 20 ou 40 centímetros. Não tem nada a ver”, adianta Rita Fonseca.

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Local de garimpo abandonado e contaminado Ascom/Ibama

Ainda não há uma data para a viagem. “Eu fiz uma certa pressão para não ser nem em Março nem em Abril, porque são os meses de maior chuva na Amazónia. Eu já trabalhei lá e sei como é a chuva. É impossível trabalhar, porque os rios ficam com muito caudal e torna-se perigoso. Nós com montes de equipamento dentro num barco, porque isto é para trabalhar num barco”, adianta. A sugestão dela é que a missão se realizasse no mês de Maio.

Para começar, o Ibama – Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis está a considerar que os cientistas não devem entrar mesmo dentro do território dos Yanomami, por motivos de segurança. “Nesta fase, eles acham que é melhor analisar locais fora da reserva que recebem as linhas de água afectadas pela mineração”, explica a investigadora.

“Aquilo que estou a pensar que vai ser o meu trabalho será fazer uma amostragem em que tenho que apanhar sedimentos do fundo, da margem e da coluna de água, fazer logo uma caracterização química, daquelas que fazem no momento. Tenho que levar as minhas sondas para fazer isso. Tenho de ver se se o mercúrio está numa fase móvel ou imóvel [é um metal pesado que se pode derreter, passar de sólido para líquido e de líquido para gás], isso consigo ver logo.”

Aquilo que se vai concentrar em encontrar é “a forma mais tóxica do mercúrio, o metilmercúrio [é solúvel em lípidos e consegue atravessar membranas de seres vivos, danificando o sistema nervoso. Os seus afeitos são cumulativos, quanto maior a exposição maior a quantidade que se armazena no organismo]”, explica.

Mas está a pensar também trazer amostras para estudar no seu laboratório, na Universidade de Évora. “Já perguntei se seria possível as Nações Unidas, ou a União Europeia, financiarem um equipamento portátil de análise de mercúrio, para não trazer assim uma imensidão de amostras”, relata.

Imobilizar o mercúrio

Depois de estudar as concentrações de mercúrio, o que é que se poderá fazer aos rios contaminados com mercúrio na Amazónia? “Temos que ver como é que está a distribuído mercúrio, em que forma está, porque há uma forma mais móvel e outra menos móvel. Será preciso fazer uma série de ensaios, eu faço aqui alguns, à escala laboratorial, para ver qual é o material capaz de o imobilizar, de o impedir de passar para a coluna de água”, responde Rita Fonseca. O objectivo é travar a cadeia de contaminação dos seres vivos da poluição por mercúrio.

“Há materiais que se deitam nos rios, que vão inchar e vão incorporar estes elementos poluentes. São técnicas avançadas de remediação. É isto que se pode tentar fazer”, afirma a investigadora. Mas retirar o contaminante dos cursos de água será muito difícil. “O mercúrio não vai sair dali.”

O mercúrio é bioacumulado, ou seja, vai-se acumulando no organismo gradualmente, nos tecidos dos animais ou plantas contaminados e entra na cadeia alimentar. “Quando está na água ou nos sedimentos, os seres vivos vão-se alimentar das partículas de mercúrio, que fica naquela forma mais tóxica que é o metilmercúrio, e vão incorporá-las no seu organismo.”

Quando os peixes comem esses organismos, ficam também contaminados, e quando são, por sua vez, comidos, o mercúrio sobe mais um degrau na cadeia alimentar. Assim, lamenta a investigadora, “os índios estão a morrer porque comem o peixe". "O mercúrio é um elemento que fica bioacumulado nos organismos e vai progressivamente ficando com concentrações mais elevadas”, resume.

Mas estas acções de pouco valerão se não se fizer o mais importante. “Vai ser muito difícil, se não acabarem com as minerações ilegais, não vale a pena estar a tentar limpar os rios”, afirma Rita Fonseca. “São processos que levam muitos anos a tentar remediar, mas tem que se parar a fonte, porque se se continua a lançar mercúrio, não vale de muito, não é?”

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