Opinião

Garimpo ilegal envenena a Amazônia

Novo filme de Jorge Bodansky analisa a contaminação dos rios amazônicos por mercúrio em decorrência do garimpo illegal.

O renomado cineasta brasileiro, Jorge Bodansky, fará a pré-estreia de seu novo filme Amazônia: a nova Minamata?, no dia 1 de fevereiro, durante o Colóquio Internacional Amazônia: Violência Crescente e Tendências Preocupantes, no Departamento de Desenvolvimento Internacional da Universidade de Oxford (ODID).

O documentário investiga a contaminação das bacias hidrográficas amazônicas pelo mercúrio usado no garimpo ilegal de ouro, traça um paralelo com a tragédia de Minamata, cidade japonesa onde centenas de pessoas foram envenenadas por mercúrio, em 1956, por conta da ação da Corporação Chisso, que usava o metal de transição como catalisador na fabricação de fertilizantes químicos desde a década de 1930.

O “Mal de Minamata”, como ficou conhecida a síndrome neurológica, gera sintomas como distúrbios sensoriais nas mãos e pés, danos à visão e audição, paralisia, convulsões severas, surtos de psicose, perda de consciência e coma, todos causados pelo envenenamento por mercúrio. Os sintomas, também observáveis na fauna local, aparecem em seres humanos apenas 20 anos após o contato, que pode ocorrer através da ingestão de peixes e frutos do mar encontrados na área contaminada.

“O filme faz uma comparação com o que aconteceu em Minamata e o que está começando a acontecer agora na bacia dos rios da Amazônia. Principalmente no nosso caso, nós acompanhamos o trabalho do dr. Erik Jennings, que há muitos anos pesquisa os danos causados pelo mercúrio na bacia do Tapajós, com a população ribeirinhas e a população indígena (os índios Mundurukus). Acompanhamos uma dessas viagens do dr. Erik fazendo os exames e já notando os danos neurológicos – irreversíveis – que a população começa a se manifestar”, afirmou o diretor, Jorge Bodansky.

Através do trabalho do neurocirurgião Erik Jennings, o documentário mostra as dimensões sociais, ambientais, econômicas e de saúde do problema. Passados 50 anos da descoberta do primeiro veio de ouro no Rio Tapajós, os Mundurukus começam a sofrer com doenças semelhantes às apresentadas em Minamata, preocupando-se com os efeitos da contaminação em suas crianças e adolescentes.

“O filme nos mostra que a presença do mercúrio é apenas a ponta do iceberg de todos os problemas que estão acontecendo nas bacias dos rios da Amazônia (a questão do desmatamento, dos incêndios, das hidroelétricas), principalmente do garimpo, que está se expandindo de maneira absurda em todo o Amazonas. Esse garimpo é ilegal, ele está fora de controle e joga esse mercúrio nos rios. Os peixes, que são a principal fonte de alimentação das populações ribeirinhas, ficam contaminados pelo mercúrio e assim ele entra no organismo humano”, conclui o cineasta.

Bodansky, um dos pioneiros do documentário ambiental no Brasil, continua a registrar e denunciar as arbitrariedades cometidas pelo capital privado na Amazônia, terreno ao qual está familiarizado. Com a agenda ambiental da gestão de Jair Bolsonaro, Amazônia: a nova Minamata?, traz um debate necessário ao atual contexto político nacional e internacional, sobretudo com as evidências cada vez mais claras do envenenamento por mercúrio em indígenas e ribeirinhos da Amazônia.

Sugerir correcção