Putin anuncia mobilização militar parcial e acusa Ocidente de fazer “chantagem nuclear”

“Quero lembrar-vos que o nosso país também tem vários meios de destruição e para componentes separados e mais modernos do que os dos países da NATO. E quando a integridade nacional do nosso país é ameaçada, para proteger a Rússia e o nosso povo, iremos certamente usar todos os meios à nossa disposição”, disse Putin. “Não é bluff.”

i-video

O Presidente russo, Vladimir Putin, afirmou, nesta quarta-feira, que assinou um decreto de mobilização parcial para defender a Rússia das “suas ameaças” e libertar o Donbass, onde, assegura, a maioria não quer estar “sob o jugo de nazis”. Num discurso que começou pelas 7h em Portugal e que durou cerca de 15 minutos – um raro discurso desde o início da guerra na Ucrânia –, em que Putin se dirigiu várias vezes aos russos como “amigos”, o chefe de Estado russo afirmou que os objectivos estão a ser cumpridos e que “o fim está próximo” com várias regiões já livres “de nazis”.

Quase sete meses depois da guerra — com vários reveses no campo de batalha e alegados problemas de recrutamento de soldados —, foi imposta a impopular mobilização militar parcial, que se destina aos “cidadãos que se encontram actualmente na reserva e, sobretudo, aqueles que serviram nas Forças Armadas, têm certas especialidades militares e experiência relevante”: são esses que serão “sujeitos a alistamento” com efeitos imediatos. De acordo com o Ministério da Defesa russo, a mobilização parcial vai aplicar-se a 300 mil pessoas.

Os estudantes e recrutas não vão ser chamados “sob nenhuma circunstância”, assegurou o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, numa entrevista gravada e que passou na televisão russa pouco depois do discurso do líder russo.

A Duma aprovou, na terça-feira, uma série de alterações que prevêem os cenários de mobilização e estado de guerra no Código Penal russo. Com estas emendas, quem se recusar a combater ou não responder à chamada, ou quem se render será sujeito a uma pena de prisão.

Ocidente acusado de “chantagem nuclear"

O líder russo acusou o Ocidente de “fazer chantagem nuclear” e condenou “os discursos de alguns dos mais altos representantes dos líderes da NATO sobre a possibilidade de utilização de armas nucleares de destruição maciça na Rússia”.

“Para quem se permite fazer esse tipo de discursos sobre a Rússia, quero lembrar-vos que o nosso país também tem vários meios de destruição e para componentes separados e mais modernos do que os dos países da NATO. E quando a integridade nacional do nosso país é ameaçada, para proteger a Rússia e o nosso povo, iremos certamente usar todos os meios à nossa disposição.”

“Não é bluff”, sublinhou. “Quem tentar fazer chantagem nuclear deve saber que os ventos podem mudar de direcção para o seu lado.”

Disse ainda que irá aumentar o fabrico de armamento face à ameaça dos “mercenários do Ocidente que fornecem armamento às forças armadas ucranianas e ao mesmo tempo aumentam o perigo para as populações ucranianas e a violência”.

Putin diz que estas decisões são “completamente adequadas” face às “ameaças que enfrentam, nomeadamente para proteger a nossa terra natal, a sua soberania e a sua integridade territorial, para assegurar a segurança do nosso povo e das pessoas nos territórios libertados” e culpou o Ocidente pela escalada de violência, alegando que quer “destruir a Rússia” e “transformar a população ucraniana em carne para canhão”.​

Putin confirma referendos em regiões ocupadas

Durante o discurso, afirmou que vão ser levados a cabo os referendos que já haviam sido falados durante o dia de terça-feira nas regiões ucranianas ocupadas durante a guerra: Donetsk, Lugansk, Zaporijjia e Kherson. Esses referendos vão acontecer já nesta sexta-feira.

Desta forma, estes territórios poderão escolher, em teoria, se querem ser parte integrante da Rússia ou não. Contudo, têm sido levantadas dúvidas acerca da liberdade de voto nestas regiões ou até mesmo acerca da constitucionalidade da votação.

“Temos consciência de que as pessoas que vivem nos territórios libertados não querem viver em regimes nazis. Estão a matar pessoas, a detê-las, a torturá-las”, afirmou. “Sete milhões e meio de pessoas que lá viviam tiveram de sair por causa das hostilidades, tiveram de abandonar as suas cidades debaixo de bombardeamentos. Os ucranianos estão a levar a cabo ataques terroristas contra civis e acreditamos que estão a torturar civis separatistas no Donbass”, alega.

“Sinal de debilidade” e “fracasso” russo

O mercado de acções russo abriu a cair quase 10%​ após o discurso e, pelas 6h43, o rublo estava a cair 2,3%, para os 61,97 por dólar. Também as bolsas europeias sentiram a pressão: o índice Stoxx Europe 600 caiu 0,4% pelas 8h07 em Londres, de acordo com a Bloomberg. Os investidores estão a antecipar crescentes tensões políticas com a Rússia.

Há relatos de aumentos no preço das passagens para sair da Rússia, escreve a BBC.

E já começaram a ser conhecidas as primeiras reacções a este discurso de Putin. Para a Ucrânia, foi “previsível”, conforme descreveu o principal assessor do Presidente ucraniano, Mikailo Podoliak​. Para ele, “a mobilização anunciada por Putin era previsível e demonstra que a guerra não está a coorrer de acordo com o planeado”, disse à Reuters. Sobre as acusações de “chantagem nuclear”, dirigidas aos países ocidentais, Podoliak afirma que são “retórica”, palavras “destinadas a movimentar para o Ocidente a culpa da guerra e o agravamento da economia russa”.

“Os russos que exigiam a destruição da Ucrânia, no final, acabaram por obter: 1. Mobilização. 2. Fronteiras encerradas, contas bancárias bloqueadas. 3. Cadeia por deserção. Tudo ainda está conforme o planeado, não é? A vida tem um grande sentido de humor”, declarou Podoliak no Twitter.

A embaixadora dos EUA na Ucrânia, Bridget A. Brink, descreveu o discurso como sendo um “sinal de debilidade” e “fracasso russo”. “Os EUA nunca vão reconhecer a reivindicação russa dos territórios supostamente anexados do território ucraniano e vamos continuar a apoiar a Ucrânia durante o tempo que for preciso”, escreveu no Twitter.

No Reino Unido, as reacções couberam à ministra dos Negócios Estrangeiros, Gillian Keegan, que classificou as declarações de Putin como “sinistras” e “mais mentiras”. “É uma ameaça séria, mas já foi feita”, disse à BBC.

A notícia de que se irá proceder a uma mobilização militar parcial constitui “uma escalada preocupante” e defende que Putin deve ser “levado a sério”.

Sugerir correcção
Ler 178 comentários