Cravos, punhos e vassouras partidas: são trajes de Viana com uma mensagem feminista

Para a designer de moda Margarida Coelho, os costumes do Estado Novo ainda estão bem assentes na sociedade. Amor? Luta! nasceu para acabar com a desigualdade de género através de símbolos revolucionários aplicados nos tradicionais trajes de Viana.

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Armas, cravos, punhos erguidos ou vassouras partidas são alguns dos símbolos do Amor? Luta! Amor? Luta!

Com o 25 de Abril, homens e mulheres tornaram-se iguais perante a lei. Mas para Margarida Coelho foi uma mudança que ficou apenas pela metade: quase 50 anos depois, na maioria das vezes, são as mulheres que executam grande parte ou mesmo todasas tarefas domésticas, afirma a designer social de 24 anos.

“Na minha própria casa fui vendo a minha mãe e a minha avó a fazerem a maioria das coisas. E quando vivi com o meu ex-parceiro também acabei por ser eu a fazer a maioria das tarefas. Sinto que é algo que acaba por estar tão enraizado na nossa maneira de agir que nem notamos”, começa por explicar ao P3.

Consciente do assunto, Margarida quis também dar visibilidade ao tema na sua tese de mestrado do curso de design social na Design Academy Eindhoven, nos Países Baixos. Durante a investigação, descobriu que os trajes de Viana do Castelo eram utilizados no Estado Novo como uma forma de propaganda e decidiu reinterpretá-los com “um propósito feminista, sem deixar de respeitar a técnica”, conta. Em Junho nasceu a página de Instagram Amor? Luta!.

A partir deste propósito, recriou os aventais, as algibeiras e criou novos emblemas da cidade onde vive, acrescentando-lhes símbolos que representam as mulheres e a revolução de Abril. A princípio, ver uma arma bordada num avental, “que ainda hoje é vestido religiosamente pelas mulheres vianenses”, causou estranheza na população mais velha, mas, quando explicava o propósito, acabavam por entender.

Os aventais, as algibeiras e os emblemas têm símbolos da luta pela igualdade de direitos como o punho erguido ou um rolo da massa partido Amor? Luta!
Os aventais incluem símbolos do Estado Novo, como as armas ou os cravos para lembrar que o tempo de "servidão" das mulheres acabou Amor? Luta!
A algibeira não é uma peça exclusiva às mulheres, tal como a luta pela igualdade de género Amor? Luta!
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Amor? Luta!

Os cravos e o punho erguido associado às causas de injustiça social são outros dos elementos presentes, mas o destaque vai para o megafone com a expressão “meu corpo, minhas regras”. “Acabo por usar palavras, o que não é costume ter num traje. Neste caso, esta frase é para enfatizar que a propriedade do corpo da mulher simplesmente pertence a ela”, explica.

A luta para mostrar que as mulheres não têm que fazer tudo em casa

As tarefas domésticas são o tema do segundo de três aventais. Pediu às artesãs de Viana do Castelo que tecessem um balde caído, uma vassoura e um rolo da massa partidos, objectos que são “bastante directos para dizer que as mulheres não são empregadas domésticas não remuneradas e que não têm de ser elas a fazer as tarefas e a ter esse peso sobre os ombros”.

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Margarida Coelho, 24 anos, criou o projecto em Junho Margarida Coelho

Cada um destes é “uma peça de conversação” e não de vestuário, explica a designer. É a partir dos aventais que o tema da desigualdade de direitos entre homens e mulheres se espalha, provocando “comichão” a quem ainda segue esta tradição minhota à risca.

Efectivamente, em Viana, o traje minhoto é uma coisa solene e respeitada que não pode sair das margens e das regras estipuladas”, revela, acrescentado que sempre participou nos cortejos tradicionais (como na Festa d'Agonia) e que também respeita todas as peças de vestuário.

A ideia, explica, é mostrar às pessoas que a tradição pode mudar. Mas reforça: mudar a mentalidade, não o traje. “Acho que a maneira como fomos ensinadas de que as mulheres têm que mostrar amor através da servidão para com alguém já é muito antiquada”, destaca.

Quem quiser comprar os emblemas pode fazê-lo através do Instagram por um preço que varia entre os 7,50 e os dez euros. Quanto às restantes peças, não foram desenhadas para serem compradas, uma vez que criar uma marca de roupa não é, nem nunca será, o objectivo desta iniciativa.

Em Outubro, esta “reinterpretação dos trajes” tem como destino os Países Baixos, para participar na Design Week, evento onde Margarida apresentará o projecto final de mestrado. Até lá, a jovem quer continuar a colaboração e partilha de conhecimentos com as tecedeiras e bordadeiras e pensar em novas criações.

Tudo isto para combater a desigualdade de género: “Mesmo conversando com várias mulheres, elas dizem ‘o meu marido às vezes ajuda, às vezes põe a mesa, às vezes cozinha’. O marido que ajuda, não é o marido que divide as tarefas. É esse condicionamento que estou a questionar.”

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