Lavrov culpa sanções ocidentais pela crise alimentar mundial

Ministro russo estará nos próximos dias em quatro países africanos para reforçar os laços de Moscovo com estas nações, num momento em que as portas a Ocidente estão quase todas fechadas.

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Ministro russo encontrou-se com homólogo do Egipto antes de se dirigir à Liga Árabe MOHAMED HOSSAM/EPA

O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, iniciou no domingo um périplo por quatro países africanos com um encontro no Cairo com o seu homólogo egípcio, a quem procurou garantir que são as sanções ocidentais à Rússia que estão a desestabilizar os preços da energia e dos alimentos em África. Disse o mesmo mais tarde perante uma plateia de embaixadores dos países que compõem a Liga Árabe.

O périplo de cinco dias, durante os quais Lavrov visitará também a Etiópia, o Uganda e a República Democrática do Congo – três dos países mais pobres do mundo –, é um esforço russo para convencer estas nações a aprofundarem a sua relação com Moscovo. Lavrov anunciou no Cairo que pretende receber uma cimeira Rússia-África no próximo ano.

“Nós nunca lhes demos lições, sempre os ajudámos a resolver problemas que lhes permitissem viver no seu país da forma como querem”, disse Lavrov esta semana numa entrevista, referindo-se aos Estados africanos que estão no seu roteiro, e afirmando que esta atitude contrasta com a dos Estados Unidos.

O Egipto e a Rússia são importantes parceiros económicos em áreas como a compra e venda de cereais e de armamento e no turismo. As trocas comerciais entre ambos os países representam cerca de quatro mil milhões de dólares e a Rússia tem pelo menos dois projectos de grande envergadura no Egipto: uma central nuclear cuja construção começou esta semana e uma zona industrial no Canal do Suez.

“Os nossos colegas egípcios percebem o que se está a passar na Ucrânia”, disse Lavrov numa conferência de imprensa depois de se reunir com o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sameh Shoukry. “Eles entendem o contexto, que está relacionado com a geopolítica, que é o Ocidente ter uma política de dominação nos assuntos internacionais.”

O diplomata russo, à semelhança do que já fez Vladimir Putin noutras ocasiões, acusou os Estados Unidos, a União Europeia, o Reino Unido e a NATO de quererem prolongar a guerra. “Não temos preconceitos nenhuns em retomar as negociações sobre um conjunto alargado de assuntos, mas não depende de nós, uma vez que as autoridades ucranianas, a começar no Presidente e a terminar nos seus múltiplos assessores, dizem que não haverá negociações enquanto a Ucrânia não derrotar a Rússia no campo de batalha”, disse Lavrov.

Sameh Shoukry foi mais parco em palavras, tendo reiterado a importância de se alcançar uma solução diplomática para a guerra que poupe África aos danos colaterais na segurança energética e alimentar. O diplomata egípcio tinha estado em Moscovo em Abril, mandatado pela Liga Árabe para discutir uma possível saída negociada do conflito armado.

Um analista político britânico disse à Reuters que a visão ocidental da guerra não é partilhada pelos países árabes e africanos e que o Egipto “percebeu que o mundo está a tornar-se mais multipolar, pelo que não se quer limitar a uma relação que privilegie o Ocidente acima de tudo.”

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