DGEG: Portugal fica “claramente vulnerável” se não investir em gás natural

O director-geral de Energia e Geologia defende que o país deve investir na modernização das redes de gás e poderá beneficiar do reforço da capacidade de armazenamento.

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O director-geral de Energia e Geologia, João Bernardo Nuno Ferreira Monteiro

O director-geral de Energia e Geologia, João Bernardo, defendeu esta tarde que o país ficará “claramente vulnerável” se deixar de investir no gás natural.

Apesar de o modelo de sistema energético tender para a electrificação dos consumos e de ser certo que o país precisa de uma “nova arquitectura de rede [eléctrica]” para dar resposta ao aumento da produção dispersa nos parques eólicos e fotovoltaicos, o responsável da Direcção-geral da Energia e Geologia (DGEG) sublinhou que os investimentos nas infra-estruturas de gás também têm de continuar.

Apostar num só vector energético, mesmo que seja electricidade limpa, “deixa-nos claramente vulneráveis”, afirmou João Bernardo durante uma audição na Assembleia da República a propósito dos planos de investimentos da REN nas redes de transporte energético.

O ideal é que o gás vá sendo descarbonizado até eventualmente poder desaparecer do sistema, mas não se pode deixar de investir nas redes e nas tecnologias que as adaptem a gases renováveis (como o hidrogénio verde e o biometano), sob pena de ficarmos com “um sistema obsoleto”, considerou.

Portugal tem de “acompanhar os investimentos que Espanha faz, até numa perspectiva de interligação energética”, disse ainda o director da DGEG.

João Bernardo também admitiu que o reforço da capacidade de armazenamento do país pode ser “muito positivo”, embora isso vá depender do papel que se quiser dar ao gás em termos de política energética.

Se for relevante só até 2030, “não vale a pena”, mas se for utilizado até 2040, 2050 e for sendo descarbonizado, então já fará sentido, construir mais duas cavernas de armazenamento subterrâneo (uma actividade que está concessionada à REN), que “no futuro poderão ser de [armazenamento de] hidrogénio ou biometano”.

Uma das utilizações do gás natural é a produção de electricidade. Nos últimos meses, o gás natural ganhou peso, segundo os dados da REN, devido ao cenário de seca, que reduziu a mínimos históricos a produção nas barragens portuguesas.

“Não basta mexer no armazenamento sem mexer no terminal [de gás natural liquefeito de Sines]”, afirmou também o responsável da DGEG. O que interessa é que o país reforce a sua autonomia energética e tenha capacidade de expedir e receber gás natural, shale gás ou hidrogénio.

João Bernardo reconheceu que se vive uma “situação complicada” em relação ao gás natural, nomeadamente no que toca aos dois grandes fornecedores históricos: a Argélia interrompeu os fornecimentos através do gasoduto marroquino e a Nigéria tem falhado algumas entregas (como a Galp, que é a compradora deste gás natural liquefeito e a fornecedora grossista do mercado regulado, tem admitido).

A situação poderá agravar-se no futuro se houver uma interrupção total dos fornecimentos russos e o país passar a ter de competir com outros compradores de GNL.

"Descarbonizar onde é preciso"

A Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) tem pedido que se olhe com “muita prudência” para os investimentos nas redes de gás e ainda nesta audição, o regulador, Pedro Verdelho, afirmou que não faz sentido pensar em adaptar as infra-estruturas de gás para a incorporação hidrogénio se estiverem em causa usos domésticos (ao nível da rede de distribuição).

“O hidrogénio [verde] deve ser dirigido para onde faz mesmo falta”, como a indústria, onde as necessidades energéticas não podem ser satisfeitas com electricidade, sublinhou o presidente da ERSE.

O risco é o de sobrecarregar as tarifas dos consumidores com custos com investimentos que demorarão anos a amortizar, mas podem deixar de fazer sentido num futuro em que o gás tenha um papel residual na economia.

Por outro lado, Pedro Verdelho salientou que as infra-estruturas de gás portuguesas são relativamente recentes e facilmente adaptáveis aos gases renováveis e que “o custo de reconversão para hidrogénio é menor do que construção nova”.

“Temos de utilizar estas redes de forma inteligente, para os sectores em que descarbonizar é preciso”, acrescentou o regulador, destacando ainda o papel que o hidrogénio verde deverá vir a ter no armazenamento de energia eléctrica de origem solar ou eólica de um ano para o outro, num cenário em que “a variabilidade da hídrica é brutal”.

As baterias para armazenar energia são soluções caras que estão dependentes dos metais raros de que são feitas e são necessárias tecnologias de armazenamento de longo prazo para formas de produção como a eólica e a solar, um papel que o hidrogénio, pela sua alta densidade energética, pode desempenhar, notou Pedro Verdelho.

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