Cientistas vão estudar a vida que há no fundo do mar enquanto a mineração avança

Estes ecossistemas são ainda muito desconhecidos, mas correm riscos com os projectos de desenvolvimento da mineração no fundo do mar. Governos vão financiar investigação científica ao mesmo tempo que se fazem prospecções.

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Uma alforreca do género Atolla, um animal das profundezas marinhas, fotografada nas águas da Austrália REUTERS/Justin Marshall

Foi lançada na Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, no Parque das Nações, em Lisboa, a Iniciativa para o Conhecimento Sustentável dos Fundos Marinhos, que junta vários governos – e a Comissão Europeia – com instituições científicas para estudar a biodiversidade dos fundos marinhos, “o maior ecossistema do mundo”, mas ainda mal conhecido. Isto ao mesmo tempo que vão avançando prospecções sobre a localização e qualidade dos minerais dos fundos marinhos, com vista à sua exploração.

O projecto foi lançado num evento paralelo da conferência pela Autoridade Internacional dos Fundos Marinhos (ISA, na sigla em inglês), uma organização internacional com sede na Jamaica que tem 167 Estados-membros (mais a União Europeia) e que é mandatada, ao abrigo da Convenção das Nações Unidas sobre a Lei do Mar “para organizar, regular e controlar todas as actividades relacionadas com a exploração de minerais nos fundos marinhos”.

Com esta iniciativa, pretende lançar projectos científicos que permitam criar mapas da vida existente nos fundos marinhos, criar uma nova plataforma que ligue especialistas em taxonomia destes ecossistemas de todo o mundo e promover trabalhos de investigação que permitam compreender os possíveis efeitos das actividades humanas, como a mineração, nos fundos marinhos.

“Temos falta de uma política global, de protocolos de investigação standardizados para recolher e medir dados. Tal como existe um Instituto de Meteorologia para o tempo, deveria existir uma organização semelhante para a saúde do mar”, disse numa participação gravada em vídeo Ward Appeltans, gestor do Sistema de Informação sobre a Biodiversidade do Oceano (OBIS) da Comissão Oceanográfica Intergovernamental/UNESCO, uma plataforma que reúne informação sobre 100 mil espécies marinhas e que é um dos parceiros do projecto.

Outros participantes são, por exemplo, o Registo Mundial de Espécies Marinhas (WoRMS na sigla em inglês) do Instituto Marinho da Flandres (VLIZ), que é uma base de dados aberta, com a colaboração de 560 editores em todo o mundo.

“Não é apenas um índice taxonómico, tem dados sobre o ciclo de vida e características das espécies marinhas, o que é importante quando se pretende compreender os impactos das intervenções humanas nos ecossistemas”, explicou Ann-Katrien Lescrauwaet, directora de relações internacionais do WoRMS e do VLIZ. Mostrou algumas imagens de criaturas do fundo do mar, transparentes, fluidas, algumas com cores brilhantes. “Esta é alguma da beleza destes ecossistemas, e muita dela ainda não a conhecemos”, disse a cientista.

Mas os projectos de mineração no mar profundo causam muita inquietação. Há um movimento que pede uma moratória sobre a exploração mineira nos fundos marinhos, enquanto não se conheça melhor quais os seus impactos sobre a vida marinha e a saúde dos oceanos, embora não exista ainda nenhuma exploração mineira a funcionar, há projectos a avançar. “A ISA aprovou 30 contratos para exploração que envolvem 22 países e dizem respeito a 1,3 milhões de km2 dos fundos marinhos – o que representa 0,7 do total”, diz a instituição no seu site. Doze destes contratos são patrocinados por países em desenvolvimento – que vêm nesta indústria que está a despontar a possibilidade de uma nova fonte de rendimento.

A iniciativa agora anunciada dá alguma resposta a esta preocupação com a necessidade de conhecer antes de destruir. “Os fundos marinhos são o maior habitat na Terra mas são de difícil acesso, por isso são mal conhecidos. Mas é preciso um esforço para que sejam usados de forma sustentável”, disse Elizabeth Mrema, secretária da Convenção sobre a Diversidade Biológica. “Esta iniciativa vai efectivamente aumentar o nosso conhecimento dos fundos marinhos”, considerou.

“A colaboração da indústria e a da ciência pode permitir soluções inovadoras e sustentáveis para o desenvolvimento”, defendeu Michael Lodge, secretário-geral da ISA. “A estratégia de biodiversidade europeia prevê mais investigação sobre os fundos marinhos antes de se poder avançar na sua exploração”, assegurou Raphael Goulet, responsável da Unidade para a Governança dos Oceanos, Convenção da Lei do Mar e Política do Árctico na Comissão Europeia.

Participam ainda no projecto instituições como o Instituto Francês de Investigação para a Exploração do Mar (Ifremer) – que, segundo Pierre Sarradin, responsável da unidade de Investigação sobre Ecossistemas dos Fundos Marinhos, foi já mandatado pelo Governo francês para estudar vários possíveis locais de mineração no fundo do mar, ou o Instituto Nacional de Biodiversidade Marinha da Coreia do Sul (MABIK).

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