O fim do jornalismo

A preencher o share televisivo e o da imprensa escrita, dão-nos uma visão, um retrato falso ou parcial, contemporizadora com os valores europeus (confundidos com os universais) e com uma censura colectiva com que pactuamos. É assim que a Ucrânia ganha a guerra nas televisões, mas vai perdendo no território.


Não é nova a discussão sobre o vínculo entre capitalismo e informação, relativamente ao modo como as relações económicas e materiais afectam a interpretação dos factos e do mundo. Situamo-nos da era do capitalismo de imprensa, dos editores, da administração das empresas públicas e privadas de televisão, dos donos dos jornais, dos detentores dos meios de produção de informação e de todo um processo de consequências que capturam a linguagem e o pensamento livre motivado por interesses legítimos de recusa da parcialidade. Valeria a pena empreender uma verdadeira sociologia histórica do fenómeno das representações da verdade. São cada vez mais as vozes daqueles que, despudoradamente, afirmam não acreditar em nada daquilo que se diz e exibe em televisão. Sabem tratar-se de uma mercadoria. E toda a mercadoria tem um preço.

Não nos admiramos, pois, que o jornalismo televisivo – mas também o da imprensa escrita – opte pela selectividade e critérios parciais na “análise” da realidade – o caso da guerra da Ucrânia é paradigmático –, usando palavras e ideias que não consistem exclusivamente na designação dos factos ocorridos, mas também incluem a perspectiva interessada com que os factos são considerados e vividos.

É a visão subjectiva do jornalismo que, como temos vindo a reparar, constrói ficções em torno dos factos, relacionando-se sentimentalmente com eles. Repare-se que estas opções ideológicas, a que podemos chamar propaganda, têm igualmente a sua congénere no paradigma pró-russo. Todas as imagens que nos são facultadas de Putin – e, nesse aspecto, há que ter em conta a enorme e paternalista censura do Ocidente aos meios de difusão de informação russa –, implicam a relação do olhar com aquele que é olhado: à visão triunfalista que os meios de comunicação russos difundem, junta-se a visão antecipadamente destrutiva e iconoclástica dos media ocidentais. Putin, como qualquer ícone ideológico, sujeita-se a uma dupla deformação, em que a crença impera sobre a visão e, ao mesmo tempo, se põe o problema da referência e do conhecimento, isto é, a clara dificuldade em discernir se vemos alguma coisa ou se vemos unicamente a maneira de olhar e a maneira de mostrar – e, por extensão, se vemos o que queremos ver.

Foto
Vladimir Putin Sputnik-Reuters

Não é de esperar, por seu turno, um observador asséptico de uma realidade humana, política e social. Somos porosos e permeáveis dentro das nossas concepções mentais e no plano da manipulação mediática a que estamos implacavelmente expostos.

No domínio do jornalismo já não há inocentes. Expresso de forma elementar: na elaboração de uma informação diz-se o que se quer em virtude de uma intenção. E tal como nada está fora de um território ideológico, o jornalismo ocidental, assim como qualquer outro, não se reduz aos seus estratos informativos, tornando-se legítimo procurar no relato o tipo de enunciador, ou seja, o ponto de vista predicativo que organiza a sua retórica de onde se fala (e para onde se fala). Não admira que, em favor da ostentação dos crimes de guerra dos soldados russos, escalpelizados até ao tutano, passem impunes e ocultos crimes como o dos soldados ucranianos que mataram a sangue frio prisioneiros de guerra russos desarmados (Le Monde, 13 de Maio). Transformaram-nos, é certo, em crianças.

A preencher o share televisivo e o da imprensa escrita, jornalistas (convertidos em comentadores e extensões administrativas), analistas políticos e comentadores dão-nos uma visão da realidade, um retrato falso ou parcial, contemporizadora com os valores europeus (confundidos com valores universais) e com uma censura colectiva com que todos pactuamos. É assim que a Ucrânia ganha a guerra nas televisões, mas vai perdendo no território.

Nos diálogos de Platão, Sócrates observava que Fédon distingue a verdade em virtude de quem fala e de onde provém a sua palavra. E a propósito de palavras, António Guerreiro deixava uma nota, há dias, sobre o comentador da SIC, José Milhazes: “Há boas e fundas razões para odiar Putin e ver nele a encarnação do diabo. (…) Mas quando esse ódio preenche o discurso jornalístico, o que daí resulta é apenas a vulgaridade, o insignificante e a redundância. A parada diária deste José Milhazes e dos seus congéneres, eventualmente mais sóbrios, merecia uma ‘operação especial’ nos estúdios da televisão, em nome de um jornalismo que cumpra a sua função. Não se trata de exigir uma impossível neutralidade (…), mas quando todas as informações e comentários redundam em exclamações, indignações e interjeições, percebemos que a escalada não é apenas a da guerra: é também a da idiotice”.

Num acto simbólico de grande significado político e partilha emocional, o actor norte-americano Ben Stiller, embaixador da boa vontade da ONU, encontrou-se, recentemente, com Volodymir Zelensky – e a sua conversa passa a poder confundir-se com réplicas e deixas dramatúrgicas, de actor para actor. Depois das visitas programáticas de Ursula von der Leyen ao palco ucraniano ou das lágrimas do porta-voz do Pentágono, John Kirby, na pantalha (e espelho) em que foram convertidos os media e na qual se projectam os valores ditos ocidentais, ao jornalismo já não chega a renovação das formas de representação da leitura da realidade: um encontro de actores marca uma concepção inequivocamente teatral do mundo, concebida para fazer de todos nós figurantes de um mesmo palco, que, querendo ver algo de novo, não fazem outra coisa senão ver-se a si mesmos.

Ao Carlos Santos Pereira e à Diana Andringa,
que me fizeram perceber a importância,
​a beleza e responsabilidade do jornalismo

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