Morreu o designer francês Thierry Mugler, o padrinho do power dressing

Mugler, que tinha como imagem de marca os seus designs teatrais, vestiu artistas como David Bowie, Beyoncé, Lady Gaga e os Duran Duran.

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Thierry Mugler tinha 73 anos EPA/JENS KALAENE

Morreu o designer francês Manfred Thierry Mugler, aos 73 anos. A notícia foi anunciada na página oficial de Mugler no Facebook. O seu agente avança que o criador morreu no domingo, 23 de Janeiro, de “causas naturais”. Nascido em Estrasburgo em Dezembro de 1948, chegou a Paris aos 20 anos e criou sua própria marca, Cafe de Paris, em 1973, um ano antes de fundar a Thierry Mugler.

O criador, que tinha como imagem de marca os seus designs teatrais, com ombros largos e decotes vertiginosos, vestiu artistas como David Bowie, Beyoncé, Lady Gaga e os Duran Duran, mas também chegou ao cinema, tendo vestido actrizes como Demi Moore ou Sharon Stone. O ex-bailarino foi um dos precursores do power dressing, um estilo cujo seu expoente foi nos anos 1980, altura em que as mulheres começam a chegar a cargos de topo nas empresas, mas também na política, onde as cores fortes e os enchumaços transmitiam essa imagem de poder, de autoridade e de competência. ​A mulher para quem Thierry Mugler desenhava era a femme fatale. As silhuetas eram o triângulo invertido com ombros exagerados e a cintura de vespa bem definida.

Uma das fontes de inspiração de Mugler foi a comunidade LGBTQ. Na década de 1980, o designer escolheu modelos trans para desfilarem, assim como colaborou frequentemente com artistas drag, recorda o Guardian. “Ele sabia tudo sobre fluidez de género e as suas roupas reflectiam o calor e a sexualidade do final dos anos 70 e início dos anos 80”, definiu Jerry Hall ao New York Times.

Casey Cadwallader, actual director criativo da Mugler — a marca foi suspensa em 2002, mas recuperada em 2010 sob a direcção criativa do designer Nicola Formichetti —, já reagiu na rede social Instagram: “Manfred, sinto-me tão honrado por te ter conhecido e por trabalhar dentro do teu belo mundo. Mudaste a nossa percepção da beleza, da confiança, da representação e do auto-poder. O teu legado é algo que trago comigo em tudo o que faço. Obrigado.”

“Ele era intemporal e estava à frente do seu tempo”, declarou, em 2019, a supermodelo Jerry Hall — o rosto do perfume Angel, o mais vendido da marca com o nome do designer francês. Aliás, desde a década de 1990 que o nome de Thierry Mugler passou a estar mais associado aos perfumes do que à roupa. Em 1997, a gigante de cosmética francesa Clarins adquiriu os direitos das suas fragrâncias que continuam a ser das mais vendidas.

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Anúncio do perfume Angel com a supermodelo Jerry Hall DR

​Precisamente, em 2019, o designer foi tema de uma grande exposição retrospectiva, Thierry Mugler: Couturissime, que esteve em Montreal, Canadá, antes de chegar a Paris, em Setembro do ano passado, e que pode ser vista até 24 de Abril, no Museu de Artes Decorativas. Trata-se de uma mostra do trabalho do criador de 1973 a 2014, revelando todo o aspecto cenográfico das suas colecções. Thierry Mugler foi o inventor do “desfile espectáculo”, define a edição francesa da Elle.

Escreve o museu francês, na apresentação desta exposição que tem a curadoria do canadiano Thierry-Maxime Loriot: “É uma oportunidade para descobrir e redescobrir o brilho deste artista, e por sua vez, bailarino, homem de palco, fotógrafo e designer — um artista que marcou o seu tempo revolucionando o mundo da moda através das suas criações com morfologias esculturais que são futuristas e elegantes. O estilo distinto de Mugler transcende a moda, tendo influenciado gerações de artistas até hoje.”

Jeremy Scott, director criativo da Moschino, partilhou a fotografia de um autógrafo de Thierry Mugler, num livro de fotografias das suas criações, onde o criador lhe desejava um “brilhante sucesso”. Os dois ter-se-ão conhecido em Paris, depois de um desfiles de Mugler, quando Scott estava em início de carreira, um momento que o designer confessa irá lembrar-se “para sempre”, em especial das palavras de encorajamento que o veterano lhe terá dado. “A sua visão singular da perfeição, o humor da cultura pop encharcada com o velho glamour de Hollywood era uma mistura de moda que eu admirava”, escreveu o norte-americano.

Filho de um médico

Nascido em Estrasburgo, filho de um médico que exercia num spa, e de uma mãe excêntrica, o criador conta que criou um mundo seu. Faltava às aulas e construía teatros em cartão. “Comecei a criar o meu próprio mundo como podia, o mundo como eu via através de museus, cinema, natureza, animais…”, recorda à Elle.

Foi bailarino, foi fotógrafo e viajou pelo mundo. Bailarino na Opéra National du Rhin, Thierry Mugler chega a Paris em 1968 e é então que descobre a profissão de “estilista”, tendo desenhado para várias casas. Os seus desenhos não têm qualquer relação com o que se fazia na altura, onde as casas de moda eram muito clássicas e pouco inovavam. “Felizmente, eu tinha um pouco de talento, senão teria acabado como um sem-abrigo”, disse. A casa Mugler nasce em 1974 e o primeiro desfile de moda acontecerá um ano depois, abrindo as portas a uma galeria de personagens extravagantes que depressa chamam a atenção a quem trabalha no mundo do espectáculo.

No auge do seu sucesso, Thierry Mugler teve a coragem de dizer “não”, por exemplo, a Madonna, mas também a Bernard Arnault, à frente do ainda muito jovem conglomerado LVMH, que lhe ofereceu a direcção da maison Dior, em 1989, para substituir Marc Bohan. ​Em Agosto passado, Arnault atingiu o estatuto de homem mais rico do mundo, tratando-se do primeiro europeu no século XXI no topo da lista da revista Forbes.

​A marca não resistiria aos grandes grupos que se criaram na alta-costura, que dão origem a uma indústria mais focada no lucro do que na criatividade. Embora tenha fechado as portas em 2002, voltaria ao activo oito anos depois. Nesta segunda-feira, a presidente global de moda e fragrâncias da Mugler, Sandrine Groslier, há 27 anos na marca, lamentou a morte do criador que definiu como “um génio de tudo”, com impacto na “moda e beleza de todo o mundo”. E classifica-o como “um extravagante, eléctrico e ecléctico homem dos sete ofícios, que sonhou mais alto e mais depressa do que os outros e construiu um trabalho rico, múltiplo e coeso”.

A responsável sublinhou, ainda, o papel de Mugler para uma moda mais inclusiva e mais diversa, que “explorava o humano em todas as suas dimensões”. E conclui: “O nosso dever agora é manter vivo o seu maravilhoso legado e reinventá-lo todos os dias na sua memória.”

​O criador de moda norte-americano Christian Siriano lamentou a morte de Thierry Mugler com uma publicação no Twitter onde reuniu fotografias de algumas das criações mais icónicas do francês. “Outro ícone perdido hoje. Descansa bem, em beleza. Abriste muitas portas. A moda está a ter um mês difícil”, escreveu, fazendo também referência à morte recente do jornalista de moda André Leon Talley.

O clá Kardashian vestido por Thierry Mugler DR
Kim Kardashian à entrada do Met Gala em 2019 DR
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Designer das estrelas

​Embora se tenha afastado da marca com o seu nome em 2002, Thierry Mugler continuou a criar e a ser procurado por nomes como Beyoncé — foi responsável pelos looks de ficção científica que a cantora usou em 2008, na digressão “I am”. Assim como criou figurinos para Lady Gaga e Cardi B. Em 2019, vestiu Kim Kardashian para o baile do Met Gala, um vestido de látex pejado de cristais, tornando-se numa das suas criações mais marcantes dos últimos anos. A socialite norte-americana ainda não reagiu à morte do criador de moda francês, mas a irmã, Kourtney Kardashian, publicou uma fotografia nas suas stories do Instagram onde se vê todo o clã e escreveu “Todas de Mugler”, colocando um emoji de um coração partido.

No Twitter, a editora de moda das revistas norte-americanas Elle e Marie Claire, Nina Garcia, lamentou a partida do criador francês, apelidando-o de “visionário”. Escreveu: “As suas criações moldaram uma era da moda e influenciaram uma nova geração de designers que não tinham medo de correr riscos. Foi um pioneiro em misturar arte, música, história da moda, publicidade, tecnologia e o culto das celebridades em novas formas.”

“Estou profundamente triste com a notícia de que mais um dos grandes inovadores da moda partiu esta semana. Thierry Mugler desenhou literalmente os anos 70 e 80 com os seus designs”, escreve Nick Rhodes dos Duran Duran no Facebook. Diana Ross reagiu no Twitter com uma fotografia antiga, onde surge ao lado do criador de moda, com um body transparente adornado com cristais, que se pressupõe ser da autoria de Mugler, já que nos anos 80 e 90 era comum a cantora vestir criações do francês. “Vou ter saudades tuas, Thierry Mugler. Este foi um tempo maravilhoso nas nossas vidas”, escreveu a artista norte-americana.

​A actriz Tracee Ellis Ross, filha de Diana Ross, recordou o criador de moda com um vídeo de um desfile de 1992, onde desfilou lado a lado com a mãe. No início dos anos 1990, recorda, queria muito ser modelo e a mãe terá pedido a Thierry Mugler que a deixasse desfilar também. O francês terá achado piada à jovem e convidou-a a regressar no ano seguinte para, desta vez, cruzar a passerelle sem a mãe. “Thierry Mugler foi uma força determinante na moda. Até a sua colecção de arquivo hoje parece futurista. Era um verdadeiro sonhador... Foi concebido para um futuro onde as mulheres estavam no comando e no topo”, escreveu a protagonista de Black-ish. E terminou: “Que honra é ter um bocadinho de história com um ícone da moda. Descansa em Paz, Manfred Thierry Mugler.”

A supermodelo Linda Evangelista partilhou uma fotografia antiga do que será um desfile de Thierry Mugler. Na legenda escreveu apenas a sigla “RIP” (Rest in Peace, que português, significa ‘Descansa em Paz’). Nas passerelles de Mugler, nos anos 90, desfilaram as supermodelos mais icónicas, como Naomi Campbell, Iman, Linda Evangelista e até Pat Cleveland.

Também a actriz alemã Diane Kruger partilhou uma fotografia de um desfile dos anos 90: “Lembro-me de ter ficado tão impressionada ao conhecer Thierry Mugler. O que ele viu numa magricela de 16 anos para a deixar desfilar na sua passerelle com todas as supermodelos amazónicas continua a ser um mistério para mim, mas foi a experiência de uma vida”. A ex-modelo termina: “Era uma incrível força de criatividade, desafiou as mulheres a usar os seus poderes sexuais como uma arma.”

​O conceituado fotógrafo de moda britânico, Nick Knight, partilhou, no Instagram, uma fotografia onde surge lado a lado com Manfred Thierry Mugler, e escreveu estar “muito triste” pela sua partida. “Estávamos à espera que a pandemia passasse para trabalharmos juntos. Às vezes parece que as pessoas escapam como seda por entre os nossos dedos”, lamenta. E termina com um apelo: “Sinceramente, aproveitem cada dia.”

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