O que aconteceu a Linda Evangelista para ficar “brutalmente desfigurada”?

Antiga supermodelo está a processar uma empresa de cosmética devido a um efeito secundário de um tratamento sobre o qual não foi informada.

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Linda Evangelista, no Portugal Fashion 1998, ao lado do modelo sueco Marcus Shenkenberg Fernando Veludo/Arquivo

A icónica supermodelo dos anos 1990, parceira de estrelas como Kate Moss ou Naomi Campbell, veio a público revelar por que motivo desapareceu de circulação há cinco anos, relatando que o tratamento CoolSculpting da Zeltiq “fez o contrário do que prometeu”. Ou seja, Linda Evangelista pretendia diminuir as células gordas, mas acabou por vê-las aumentar significativamente. E nem “duas dolorosas cirurgias correctivas” inverteram a situação, o que levou a ex-modelo a processar a Zeltiq Aesthetics, exigindo uma indemnização de 50 milhões de dólares, como informou na semana passada.

Para lá dos efeitos físicos, que a própria descreveu como a terem deixado “brutalmente desfigurada”, Linda Evangelista acabaria por se fechar dentro de quatro paredes e sentir-se arrastada para uma depressão profunda. O caso remonta a 2016, quando a celebridade procurou um dermatologista, tendo realizado sete tratamentos com vista a eliminar células gordas no seu “abdómen, ancas, zona das costas e linha do peito, coxas internas e queixo”.

Para o efeito, foi-lhe aplicado o CoolSculpting, um tratamento ambulatório e não-invasivo (ou seja, não envolve cortes), aprovado pela reguladora do medicamento norte-americana (FDA, na sigla original), concebido para matar células gordas perto da superfície da pele, arrefecendo-as num processo conhecido como criolipólise.

O tratamento, que começou a desenhar-se pela primeira vez em 2008, não foi criado para perder peso, como explicou o director do Centro de Dermatologia e Cirurgia a Laser de Houston, Paul M. Friedman, ao New York Times, especificando que o propósito passa por eliminar “bolsas de gordura teimosa que não respondem à dieta nem ao exercício em pacientes que estão no seu peso ideal”.

“As células morrem e são absorvidas pelo corpo”, explicou o cirurgião plástico certificado Daniel Maman ao The Washington Post, adiantando que o CoolSculpting fez parte do seu “cardápio” há cinco anos e que “funciona mesmo”. A ponto de, em 2019, a Aesthetic Society o ter classificado como o quarto procedimento cosmético não-invasivo mais popular nos Estados Unidos.

No entanto, para ver os resultados (uma redução de células gordas que pode ir até 25%) é preciso aguardar alguns meses. O problema é que, no caso de Linda Evangelista, o desfecho ao fim desse período não foi o desejado: a antiga modelo desenvolveu uma hiperplasia adiposa paradoxal, ou HAP, que causa massas de tecido duras nas áreas tratadas.

Linda Evangelista afirma que este possível efeito secundário não lhe foi comunicado, ainda que em vários sites, de acesso público, sobre o tratamento a HAP seja referida, assim como dores tardias, queimaduras por congelação, hiperpigmentação e hérnias. Só que, alega o advogado da modelo na declaração entregue ao tribunal, essa informação só foi publicada após o tratamento em causa.

Além do mais, há estudos que indicam que a hiperplasia adiposa paradoxal está a ser subvalorizada. Exemplo disso é o trabalho publicado, em Julho de 2018, no Aesthetic Surgery Journal, em que se conclui que o risco de HAP nas pessoas submetidas ao CoolSculpting é de 1 em cada 2000 ciclos de tratamento, enquanto a estimativa num artigo anterior sobre o assunto, de 2015, era de 1 em 20 mil tratamentos. “A disparidade entre as taxas de incidência encontradas na literatura indica que a HAP está provavelmente a ser sub-reportada e mal diagnosticada”, lê-se no artigo.

Para o cirurgião plástico certificado Troy Pittman, consultado pelo The Washington Post, a HAP “é inconfundível quando se sabe o que se deve procurar”, não percebendo a ausência de diagnósticos. No entanto, o especialista ressalva que a condição “é totalmente benigna do ponto de vista da saúde” física. Já em termos psicológicos, Troy Pittman avalia como “psicologicamente perturbador”. Mas, avisa: “Só porque diz ‘não-invasivo’ não significa que não haja risco.