FMI revê previsões em alta, mas continua menos optimista do que o Governo

Fundo vê a economia portuguesa a crescer mais de 5% no próximo ano, com o desemprego a cair para 6,7%. É um cenário bem mais favorável do que o projectado em Abril, mas que não bate os números em que o Governo baseia o Orçamento para 2022

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Nelson Garrido

O Fundo Monetário Internacional (FMI) juntou-se esta terça-feira ao grupo de entidades que, perante a recente melhoria da situação sanitárias no país e depois do desempenho mais forte registado no segundo trimestre do ano, se viram forçadas a rever em alta as suas projecções para a economia portuguesa. Ainda assim, a confiança numa retoma forte continua a ser mais moderada em Washington do que no Orçamento do Estado apresentado esta segunda-feira pelo Governo.

Acompanhando aquilo que aconteceu relativamente ao resto da zona euro, o Fundo passou, face às suas previsões de Abril, a antecipar taxas de crescimento mais elevadas na economia portuguesa durante este ano e o próximo.

Se em Abril apontava para variações do PIB de 3,9% em 2021 e de 4,8% em 2022, o FMI prevê agora um crescimento económico de 4,4% e de 5,1%, respectivamente, para os mesmos anos.

Na proposta de OE para o próximo ano, o Governo estima um crescimento de 4,8% este ano e projecta uma aceleração para 5,5% em 2022, valor que é 0,4 pontos percentuais mais elevado do que a previsão do Fundo comunicada esta terça-feira.

De notar que outras entidades, como o Banco de Portugal, têm vindo a apresentar projecções de crescimento mais em linha com as do Governo.

Menos pessimismo sobre o desemprego

No que diz respeito à taxa de desemprego, as revisões agora efectuadas pelo FMI são ainda mais acentuadas. Os técnicos do Fundo estavam em Abril bastante apreensivos relativamente à capacidade do mercado de trabalho em Portugal reagir aos desafios colocados pela pandemia e projectava que a taxa de desemprego se situasse em 7,7% este ano, caindo depois para 7,4% no próximo. 

Mas, agora, perante os números oficiais do desemprego que vão sendo conhecidos, o FMI passou a estimar uma taxa de desemprego já abaixo de 7% este ano (6,9%), com uma redução para 6,7% em 2022. Ainda assim, este valor fica acima dos 6,5% que o Governo prevê na proposta de OE para o próximo ano.

Menos positiva nas projecções do FMI para Portugal passou a ser a estimativa de evolução da balança externa. Em Abril, o Fundo manifestava confiança de que o país poderia regressar a uma situação excedentária na sua balança corrente com o exterior, mas agora projecta que, depois de um défice de 1,7% este ano, este ainda cresça para 2,1% no próximo. 

A melhoria efectuada pelo FMI nas previsões para o crescimento económico em Portugal está em linha com aquilo que é feito para a generalidade dos países da zona euro. Em Abril, o crescimento projectado para as economias do euro era de 4,6% em 2021 e de 3,8% em 2022, tendo passado agora para 5% e 4,3%. O FMI vê a economia portuguesa a crescer menos que a média da zona euro este ano (depois de em 2020 ter caído mais) e a recuperar em 2022 parte do terreno perdido.

No entanto, quando se olha para as previsões intercalares feitas em Julho (apenas para as maiores economias mundiais, não incluindo Portugal), a revisão é bastante mais moderada para a zona euro e revela-se mesmo negativa para o total do globo, com o optimismo em relação aos EUA a diminuir consideravelmente.

O FMI vê agora a economia norte-americana a crescer 6% este ano, quando em Julho antecipava uma variação do PIB da maior potência mundial de 7%. O cenário menos favorável traçado pelo Fundo é explicado pelos riscos que os seus responsáveis vêem agora emergir em diversas frentes. 

Particular motivo de preocupação merecem questões como a crescente desigualdade entre países criada pela pandemia, o contágio rápido da variante Delta em algumas zonas do globo, o aumento da inflação e consequente impacto na política monetária e as dificuldades logísticas sentidas nos fluxos do comércio internacional.