Manifesto em defesa do jornalismo

O juízo das nossas escolhas editoriais não cede a manifestos intimidatórios: obedece apenas à lei, ao bem comum, à nossa consciência e às necessidades e apoio dos nossos leitores.

Circula por aí um manifesto pela liberdade de expressão que avançou sob a égide de princípios iluminados e recolheu certamente o apoio de muitos cidadãos de boa-fé. Mas, como tantas vezes acontece, sob a capa de bons princípios podem esconder-se estratégias sórdidas e objectivos grotescos. No caso, o que na verdade se pretende não é combater a censura: é derrubar a mediação do jornalismo. O que o manifesto quer não é a liberdade de expressão: é conseguir que jornais como o PÚBLICO se transformem num vazadouro semelhante às redes sociais onde grassa a superstição, o negacionismo, as teorias da conspiração ou as indignações do dia temperadas com o habitual insulto. O manifesto inspira-se em Rosa Luxemburgo e o PÚBLICO responde com Dolores Ibárruri, “La Pasionária”, outra luminária do radicalismo iliberal: “No pasarán!”

Como começo, vale a pena perguntar por que razão o PÚBLICO é o alvo desta sanha intimidatória feita em nome da liberdade de expressão. Não será por contar no seu painel de colunistas regulares com pessoas de todas as orientações políticas e ideológicas. Não será por ter publicado artigos de Raquel Varela a defender que os confinamentos nos levaram ao “limiar do totalitarismo”. Nem por ter acolhido textos de Paulo de Morais, outro subscritor, a descrever o país como um pântano de corrupção sem nunca ter divulgado um só caso em concreto. Não, o pretexto formal foi a publicação e posterior despublicação de um artigo do médico Pedro Girão.

Peguemos, então, nesse caso. Certo: a publicação foi um erro, ocorrido em tempo de férias e despublicado por ferir as normas do nosso Livro de Estilo. Pedimos desculpa por esse erro e discutimos as nossas razões com os leitores e com o autor num texto de crítica e resposta franco e aberto. Pedro Girão voltou, entretanto, a escrever no jornal, mantendo as suas críticas ao “pensamento único”, as suas reflexões sobre o carácter transitório das verdades da ciência e as suas ideias (erradas, na nossa opinião, mas legítimas) sobre a gestão da pandemia.

Ainda assim, o manifesto insiste em acusar o PÚBLICO de censura, pelo que convém pôr as coisas no devido lugar. Primeiro, recordando que o PÚBLICO não é um jornal de parede nem um albergue onde cabem todas as opiniões. Os seus leitores sabem bem qual é a sua natureza, o seu propósito e os seus valores. Sabem que nos regemos por um estatuto editorial e por um Livro de Estilo que, em matéria de opinião, obriga, por exemplo, “ao respeito pela linguagem não insultuosa e não panfletária” ou exige que “a opinião deverá ser sempre devidamente fundamentada”. Sabem que somos o único jornal do país com um provedor do Leitor e um Conselho de Leitores (desactivado desde o início da pandemia, é certo). Internamente, temos o privilégio de manter um Conselho de Redacção vigilante e crítico. E, em decorrência da Lei de Imprensa, sabem também que o PÚBLICO tem um director para “orientar, superintender e determinar o conteúdo da publicação”.

Confundir “censura” com mediação e com a aplicação de critérios editoriais só não é sinal de ignorância porque está fora de causa a craveira intelectual dos mentores do manifesto. Sobra então o seu propósito essencial: a vontade de ingerirem na liberdade editorial do jornal e o desejo incontido de abolirem as regras que garantem a sua identidade e credibilidade. Os manifestantes querem que o PÚBLICO, hoje, e outros jornais, amanhã, aceitem e publiquem sem reservas todos os seus devaneios, verdades retorcidas ou mundivisões eivadas de ressentimento aprimoradas pela desinformação. Querem, afinal, deslegitimar o jornalismo fundado na deontologia, na lei e na responsabilidade perante a sociedade para o transformar numa cloaca onde, em nome da liberdade de expressão, a superstição, a mentira ou os fantasmas da conspiração se instituam.

Usar um manifesto como um ataque ad hominem com o propósito de forçar o PÚBLICO a publicar o que não cabe na sua orientação editorial é, por isso, uma tentativa de esvaziar os direitos dos jornalistas de decidir o que é ou não notícia ou separar a opinião relevante da opinião manipuladora.

Neste vale-tudo, Raquel Varela tem até o descaramento de dizer que a assinatura do manifesto deu origem a uma “perseguição” da parte do PÚBLICO a partir dos erros do seu currículo. Uma mentira facilmente desmascarada pela sua conta no Facebook, na qual, a 27 de Julho, há dois meses, quando soube da nossa investigação, prometeu levar o jornalista a tribunal se avançasse com o seu dever profissional. Se há quem tenha argumentos para dizer que esta campanha é uma “perseguição”, é, portanto, o PÚBLICO. Não vamos por aí, embora saibamos que há sempre um preço a pagar pelo dever de fazer jornalismo. Nada, portanto, a esconder: escrutinar um concurso com dinheiros públicos no qual a historiadora apresentou um currículo favorecido por vários erros é jornalismo e nada mais do que jornalismo. Se a notícia surgiu agora, é porque só agora o Instituto de História Contemporânea, que lhe retirou o apoio, validou a nossa informação.

Isto dito, repita-se uma recomendação aos mentores do manifesto (e só a esses, para evitar ferir a boa-fé de muitos que o subscreveram em nome de altos princípios): não nos intimidam. A lógica irresponsável das redes sociais onde gostam de se banquetear não vai subverter o nosso jornalismo, os nossos valores nem os nossos deveres para com a sociedade. No PÚBLICO, quem determina o que se publica ou não publica são os seus jornalistas, os seus editores e os seus directores. O juízo das nossas escolhas editoriais não cede a manifestos intimidatórios: obedece apenas à lei, ao bem comum, à nossa consciência e às necessidades e apoio dos nossos leitores.