O vírus do negacionismo

Num contexto ainda dramático como o atual, não deixa de ser patético ver um grupo insignificante de indivíduos acharem que têm mais razão que toda a comunidade científica mundial.

A manifestação agressiva de um grupito de negacionistas contra as vacinas diante do centro de vacinação em Odivelas devia envergonhar-nos a todos, pela falta de razoabilidade, espírito totalitário e aversão à evidência científica que revela.

O mundo está ainda a fazer tudo para evitar o alastramento da covid-19 e a ciência tem trabalhado incansavelmente para tornar as vacinas mais eficazes. Aquela manifestação, e outras com propósitos idênticos, em Portugal ou no estrangeiro, são um insulto à ciência e aos mais de duzentos anos de investigação em vacinas. É um insulto aos milhões de pessoas que foram salvas porque foram imunizadas de doenças que mesmo assim ceifaram milhões de vidas, como a gripe, varíola, rubéola, tétano, tuberculose, difteria, sarampo, poliomielite e outras.

Em Portugal, atingiu-se o número de um milhão de infetados e quase 18.000 pessoas morreram, todas elas familiares de alguém. No mundo, mais de 207 milhões de pessoas já foram infetadas e mais de 4 milhões e trezentas mil já morreram. Diariamente estão ainda a morrer milhares de pessoas com o vírus e muitos milhões já passaram pelas unidades de cuidados intensivos, ficando muitas com sequelas duradouras.

Os serviços de saúde em imensos países chegaram a pontos de saturação causando muita angústia e ansiedade. Estamos agora todos um pouco mais aliviados, precisamente porque a vacinação em massa tem demonstrado a sua eficácia. Os governos têm feito tudo o que está ao seu alcance para tentar salvar vidas e dar ânimo à economia, que tem sofrido a um nível nunca visto.

Mas, mesmo assim, continua a haver indivíduos que se acham iluminados e no direito de chamar assassinos a quem tem dado o seu melhor para salvar vidas. O vice-almirante Gouveia e Melo, toda a sua equipa e os profissionais de saúde merecem o respeito e reconhecimento de todos.

Os negacionistas têm direito, claro, à sua opinião, mas não de a impor aos outros. Ao contrário do que possam pensar, não têm o privilégio da iluminação nem tão pouco a sua opinião é a verdade. A emergência sanitária continua a existir e é a pandemia que mata, sobretudo quem não está vacinado. É da mais elementar ingenuidade acreditar em teorias obscuras e sem origem determinada que colocam a vacinação como parte de uma conspiração para dominar o mundo.

Num contexto ainda dramático como o atual, não deixa de ser patético ver um grupo insignificante de indivíduos acharem que têm mais razão que toda a comunidade científica mundial, que os médicos e especialistas em todos os países e continentes, como se houvesse uma grande conspiração global, que junta os governos do mundo, o Papa em Roma e os líderes das outras religiões e algumas empresas importantes.

São certamente pessoas que se calhar apenas têm o Facebook como fonte de informação, porque, no seu delírio, deixaram de acreditar em tudo menos nos fantasmas que as informam. Muitas delas, como tem sido frequentemente noticiado, ligadas a movimentos de extrema-direita.

Aquela manifestação, essa sim, é assassina e revoltante por tentar impedir pessoas de se imunizarem contra um vírus que têm virado do avesso as nossas sociedades e a vida de milhões de pessoas. Sim, os jovens que foram à vacina e não se deixaram intimidar são bem mais sensatos do que todas essas pessoas que vivem em mundos estranhos.

O negacionismo, tal como o extremismo de direita, é um vírus terrível que corrói as democracias e não pode ser deixado à solta. Precisa de ser combatido para evitar que se propague. Sem tréguas!

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico