China promete não lançar novos projectos de energia a carvão no estrangeiro

Anúncio de Xi Jinping foi feito na Assembleia Geral das Nações Unidas, depois de Joe Biden ali ter prometido que os EUA vão duplicar a ajuda financeira para “as nações em desenvolvimento enfrentarem a crise climática”.

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Presidente chinês dirigiu-se à Assembleia Geral da ONU através de uma mensagem de vídeo Reuters

A China vai deixar de construir centrais a carvão no estrangeiro para lutar contra o aquecimento global, anunciou o Presidente, Xi Jinping, no seu discurso na Assembleia Geral das Nações Unidas. Horas antes, o Presidente norte-americano, Joe Biden, dizia no mesmo fórum que os Estados Unidos vão duplicar a ajuda financeira às nações mais pobres para “mudarem para energias limpas”, assumindo a liderança mundial no financiamento para “ajudar as nações em desenvolvimento a enfrentar a crise climática”.

“A China vai aumentar o seu apoio a outros países em desenvolvimento, para promover a energia verde e de baixo carbono, e não construirá novas centrais eléctricas movidas a carvão no exterior”, disse Xi num discurso pré-gravado, que responde a pedidos das organizações ambientalistas. O Presidente chinês não deu muitos detalhes sobre os planos de Pequim, mas o anúncio foi suficiente para fazer crescer as expectativas em vésperas da COP26, a cimeira do clima da ONU, marcada para o início de Novembro, em Glasgow.

Thom Woodroofe, ex-diplomata do clima e membro do Asia Society Policy Institute, descreveu a promessa de Xi como o traçar de “grande linha na areia": “É mais uma prova de que a China sabe que o futuro é feito de energias renováveis. A questão principal agora é saber quando é que eles traçarão uma linha semelhante na areia em casa”, disse ao diário britânico The Guardian.

Numa visita à China no início de Setembro, o enviado da Administração Biden para a crise climática, John Kerry, foi mais longe, pedindo precisamente às autoridades chinesas para parem totalmente com a construção de centrais termoeléctricas a carvão no seu país para “não arruinarem a capacidade do mundo de atingir a neutralidade de carbono até 2050”.​ Sem isso, defendeu, o país asiático ameaça os esforços globais de combate às alterações climáticas.

Woodroofe nota que entre os anúncios possíveis, o de Xi "foi uma decisão fácil para a China tomar antes da COP26 - muito mais fácil do que atingir o pico das emissões até 2025, o que muitos esperavam” ouvir (em vez disso, Xi reafirmou o compromisso de atingir um pico nas emissões “antes de 2030” e a neutralidade de carbono “antes de 2060"). Pela primeira vez desde 2013, diz o especialista australiano, a China já “não financiou nenhuma nova central a carvão no exterior nos primeiros seis meses deste ano”, depois de uma diminuição drástica destes investimentos ao longo de 2020.

Apesar da “facilidade” do anúncio, a China “merece um grande elogio por ter prometido parar de construir centrais a carvão no exterior”, considerou Kevin Gallagher, director do Global Development Policy Center da Universidade de Boston. Trata-se do “primeiro país em desenvolvimento a fazer esta promessa” e do “último dos maiores financiadores públicos de carvão no exterior a fazê-lo”, notou.

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, saudou tanto a iniciativa de Xi sobre o carvão como a promessa de Biden de trabalhar com o Congresso para duplicar até 2024 os fundos de apoio aos países em desenvolvimento para lidarem com as alterações climáticas — a confirmar-se, o valor anual passará a 11,4 mil milhões de dólares (quase 10 mil milhões de euros).

“Este ano trouxe mortes e devastação generalizadas da crise climática sem fronteiras”, disse ainda Biden. “Estamos a aproximar-nos rapidamente do ponto sem retorno.” Num discurso em que pediu unidade e multilateralismo em várias frentes, Biden disse que os EUA tentarão liderar no clima, mas que outros países precisam de colocar as suas “maiores ambições possíveis” ao serviço da redução das emissões de gases de efeito estufa.

“Acelerar a eliminação global do carvão é o passo mais importante para manter a meta de 1,5 graus do Acordo de Paris ao nosso alcance”, disse Guterres num comunicado. No discurso de abertura da 76ª Assembleia Geral, o secretário-geral sublinhara como as alterações climáticas e a pandemia de covid-19 “vieram expor profundas fragilidades nas sociedades e no planeta”.