Canadianos votaram para deixar Trudeau a governar em minoria

O primeiro-ministro canadiano decidiu marcar eleições antecipadas, mas acabou a fazer campanha no meio do caos da retirada do Afeganistão e do agravamento da quarta vaga de covid-19.

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Justin Trudeau, ao lado da mulher, Sophie Gregoire, festeja a vitória que ficou aquém do que desejava ERIC BOLTE/EPA

Depois de uma campanha difícil, o próximo governo do Canadá vai ser formado pelo Partido Liberal do primeiro-ministro canadiano, Justin Trudeau. Como já se adivinhava, os resultados não permitem ao actual chefe de Governo obter a tão desejada maioria, que perdera em 2019, e Trudeau terá de formar o seu segundo executivo minoritário consecutivo.

Segundo os resultados preliminares do voto de segunda-feira, os Liberais terão obtido 158 lugares (abaixo da barreira dos 170 que permite alcançar a maioria), mais um do que há dois anos (e bem longe da maioria de 184 conseguida em 2015).

“Os canadianos reenviam-nos ao poder com um mandato claro para conseguir sair desta pandemia e seguir em direcção a um futuro melhor”, felicitou-se Trudeau, afirmando-se “pronto” para este novo mandato e “feliz” com o facto de os canadianos terem escolhido um “programa progressista”.

“Ouvi-vos quando disseram que querem voltar às coisas de que gostam, sem terem de se preocupar com a pandemia ou com a eleição”, afirmou ainda em Montreal ao início da manhã de terça-feira, admitindo assim que a decisão de marcar eleições antecipadas foi muito impopular.

O primeiro-ministro enfrentou uma campanha particularmente difícil e a poucas horas da abertura das urnas, algumas sondagens mostravam o seu Partido Liberal quase empatado com o Partido Conservador, com cerca de 31% das intenções de voto.

No dia em que anunciou a decisão de ir a votos, 15 de Agosto, os taliban tomavam o poder em Cabul, seguindo-se as complexas operações de resgate para resgatar os afegãos que colaboraram com as tropas canadianas. Ao mesmo tempo, agravava-se a quarta vaga de covid-19 no país: de uma média de 2215 novos casos e 13 mortos a cada semana, há um mês; o Canadá chegou a votos com uma média a sete dias de 4438 novos casos e 29 mortes.

“Esta noite, os canadianos não deram ao senhor Trudeau o mandato maioritário que ele queria”, sublinhou por seu turno o líder conservador, Erin O’Toole, quando os primeiros resultados foram conhecidos. Depois de uma campanha ao centro e marcada pela promessa de renovação, o maior partido da oposição reuniu 122 lugares, mais três do que tinha antes da dissolução do Parlamento.

Pouco antes do encerramento das urnas, os media locais mostravam ainda muitas pessoas a fazer fila para votar nas principais cidades, com alguns eleitores a mostrarem-se surpreendidos pela afluência. “Nunca vi isto” em dez anos”, disse à AFP Liliana Laverdière, de 67 anos, em Montreal, à espera para votar, depois de ter desistido nas primeiras três tentativas.

Os 27 milhões de canadianos foram chamados a eleger os 338 deputados da Câmara dos Comuns. Sem que nenhum dos dois grandes partidos que alternam no poder desde 1867 obtenha uma maioria de lugares no Parlamento, o vencedor terá de negociar com os partidos mais pequenos.

Na expectativa estão agora os sociais-democratas do Novo Partido Democrático (NDP), do sikh Jagmeet Singh (o primeiro representante de uma minoria a liderar um dos grandes partidos canadianos).

À frente em 27 distritos eleitorais, o NDP será determinante para permitir aos Liberais aprovar leis na Câmara dos Comuns. O partido defendeu um aumento de impostos para os mais ricos, medicamentos e cuidados dentários subsidiados pelo Governo, um aumento do salário mínimo e o cancelamento da dívida dos estudantes, esperando-se que exija concessões nestes temas prioritários em troca de apoio. “Se alguém quiser trabalhar comigo no aumento dos impostos para os super-ricos, vamos a isso”, disse Singh na campanha.