A “política positiva” de Trudeau valeu uma maioria absoluta ao Partido Liberal

Os canadianos põem ponto final a uma década em que Stephen Harper deu ao país um rosto mais militar, poluente, e isolacionista. O jovem primeiro-ministro eleito ganhou porque foi o melhor anti-Harper.

Foto
"É tempo de mudar”, disse Justin Trudeau Chris Wattie/REUTERS

Os canadianos tinham muita vontade de mudar – 70% diziam nas sondagens estar fartos do primeiro-ministro Stephen Harper, conservador na política e na visão social, e um falcão em termos de defesa e segurança nacional. E votaram de facto pela mudança, nas eleições mais participadas desde 1993, elegendo um primeiro-ministro de 43 anos, Justin Trudeau.

O Partido Liberal não é nenhum novato – durante o século XX, esteve 69 anos no poder, e 15 anos foi com Pierre Trudeau como primeiro-ministro, o pai de Justin Trudeau, entre 1968 e 1984, com uma pequena interrupção. Mas nos últimos anos, esta formação centrista tinha sido relegado para o terceiro lugar do jogo de forças. Nestas eleições, acabou por conquistar a maioria absoluta, com 184 dos 337 assentos parlamentares, quando à partida Harper esperava obter uma nova vitória para os Conservadores, e prolongar o seu mandato que ia já em nove anos.

Trudeau conseguiu ultrapassar a intensa campanha negativa dos conservadores, que tentaram sublinhar a sua juventude e relativa inexperiência – em anúncios negativos com slogans como “ele ainda não está pronto”, “mas tem um bonito cabelo”. Afinal, Trudeau é um ex-professor de matemática e francês, e defensor dos direitos dos jovens, e só se tornou deputado em 2008 e líder dos liberais há dois anos – não é um currículo muito impressionante para um político candidato a primeiro-ministro de uma das sete economias mais desenvolvidas do planeta.

Mas o novo primeiro-ministro, fotogénico e amigo de posar para selfies, traz uma disposição diferente da de Stephen Harper, um conservador próximo da ideologia libertária americana – um ultra-liberal. Harper controlava apertadamente a acção do Governo, e pôs em prática políticas de forte estímulo à produção de hidrocarbonetos e de desregulamentação ambiental – retirou o Canadá do Protocolo de Quioto em 2011. Foi um aliado próximo de George W. Bush, manteve relações frias com a Administração Obama, e deu ao Canadá uma postura mais militarista, participando nas intervenções no Afeganistão, na Líbia e agora na coligação internacional que bombardeia posições do Estado Islâmico.

Mas carisma e empatia, nunca foram fortes de Harper. Orçamentos equilibrados, isso sim – mas a queda do preço do petróleo fez o país entrar em recessão este ano. Por isso, a paciência dos eleitores gastou-se, e a maioria dos jornais canadianos apelava aos eleitores a afastarem Harper, mesmo os de tendência mais à direita.

E o carbono?

Justin Trudeau promete fazer brilhar a “luz do Sol” na vida dos canadianos, introduzir uma “política positiva” onde Harper propunha apenas mais rigor orçamental. Aliás, prometeu que durante três anos os seus Orçamentos do Estado teriam um pequeno défice para financiar o seu programa de investimento em infra-estruturas no valor de 60 mil milhões de dólares canadianos (40.700 milhões de euros). Essa promessa, que o diferenciou tanto dos Conservadores como do Novo Partido Democrata (social-democrata, mais à esquerda), pode ter sido decisiva para a sua vitória, dizem os analistas.

O Canadá precisa mesmo de investimento em infra-estruturas, diz a revista The Economist, e o plano de Trudeau “é apenas um princípio, está longe de ser suficiente.”

A lista de coisas a fazer do novo primeiro-ministro – que deve tomar posse antes de 15 de Novembro – é bem longa. Prometeu cortar os impostos das classes médias e, para compensar, subir a taxa sobre os rendimentos superiores a 200 mil dólares (136 mil euros). Com a taxa de desemprego a subir – 7,1% em Setembro – deverá ser mais fácil obter o subsídio.

Em termos internacionais, o Canadá deve voltar a mostrar-se o seu lado de escuteiro, afastando o de guerreiro e negacionista das alterações climáticas que assumiu na última década com Harper. No programa do Trudeau está a promessa de aumentar o número de refugiados da Síria que o Canadá aceitará: 25 mil, até ao fim do ano. Por outro lado, quer retirar os aviões canadianos dos bombardeamentos contra o Estado Islâmico, e reduzir a participação do país a um grupo de instrutores militares.

Muitas atenções estão viradas para o que fará sobre as alterações climáticas: a saída do Canadá do Tratado de Quioto, em 2011, declarando os seus objectivos irrealistas, foi um dos golpes mais fortes contra o acordo para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa. Stephen Harper empenhou-se em desenvolver a exploração do petróleo das areias betuminosas da província de Alberta, no Canadá ocidental uma forma muito densa de petróleo misturada com areia, água e barro, transformada num produto designado como betume, cuja purificação é difícil e obriga à libertação de muitos gases com efeito de estufa.

Trudeau comprometeu-se a ir à cimeira do clima de Paris, em Dezembro, e a elaborar um plano nacional para combater as alterações climáticas, para “criar objectivos nacionais de redução das emissões”. Mas ele tem sido também um apoiante da indústria de hidrocarbonetos – por isso os ambientalistas canadianos não estão muito entusiasmados.