Cientistas querem reverter extinção do mamute-lanudo. “Será a ida à Lua do século XXI”

Com 15 milhões já arrecadados, a Colossal quer levar milhares de mamutes-lanudos para a Sibéria, onde a espécie habitou há milhões de anos. O primeiro passo será criar um híbrido de elefante-mamute, produzindo embriões em laboratório que terão ADN de mamute. A razão? Salvar a tundra siberiana e combater as alterações climáticas.

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Restos mortais de umas das crias de mamute mais bem preservados do mundo exibidos em Hong Kong, em 2012 aaron tam

Uma equipa composta por cientistas e empresários quer concretizar uma missão (no mínimo) ambiciosa: ressuscitar geneticamente o mamute-lanudo (Mammuthus primigenius) e reverter a extinção deste animal, que aconteceu há mais de dez mil anos.

Para tal, e depois de muitos anos de “esboços,” o grupo fundou uma empresa, baptizada “Colossal”, que já recebeu um financiamento inicial de 15 milhões de euros para levar o projecto avante e colocar milhares de espécimes desta “besta magnífica” na tundra siberiana, um dos locais onde o mamute-lanudo habitou. Entre os principais fundadores da empresa de biociência e genética estão Ben Lamm, empresário de tecnologia e software, e George Church, professor de Genética na Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard e um dos primeiros cientistas a discutirem novas abordagens para a edição de genes.

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Pata de um mamute encontrada congelada na Sibéria REUTERS

“O primeiro projecto da Colossal de reversão da extinção será a ressurreição do mamute-lanudo — ou, mais especificamente, um elefante resistente ao frio com todas as características biológicas essenciais do mamute-lanudo. Este andará como um mamute, vai parecer-se com um, soará como um e, mais importante, será capaz de habitar o mesmo ecossistema anteriormente abandonado pela extinção dessa espécie”, lê-se na página da empresa, onde também se diz que este animal é um defensor vital da Terra”.

Os cientistas planeiam criar, inicialmente, um híbrido de elefante-mamute, produzindo embriões em laboratório que terão ADN de mamute. O ponto de partida do projecto envolve pegar em células da pele de elefantes-asiáticos, espécie em vias de extinção, e reprogramá-las para se transformarem em células-tronco mais versáteis que contenham ADN de mamute. Os genes particulares que são responsáveis ​​pelo pêlo de mamute, pelas camadas de gordura isolantes e por outras características que lhes permitem adaptar-se ao clima frio são identificáveis comparando genomas extraídos de mamutes recuperados do degelo do permafrost com os dos elefantes- asiáticos.

Estes embriões desenvolver-se-iam em “barrigas de aluguer” ou talvez num útero artificial, refere a equipa. E, se tudo correr conforme o que está planeado, os cientistas esperam ver nascer as primeiras criar daqui a seis anos.

Salvar a tundra siberiana

Há que relembrar que em relação a outras espécies de mamutes (que poderiam atingir os cinco metros de altura), o mamute-lanudo é um animal de tamanho modesto com um porte aproximado ao do elefante-africano actual. 

Os cientistas dizem que um dos grandes objectivos deste trabalho é salvar os elefantes-asiáticos da extinção, equipando-os com características que lhes permitam prosperar nas vastas extensões do Árctico — mas essa não é a única intenção da equipa. Na página oficial da Colossal, é apresentada uma lista de razões (dez, no total) para levar o projecto a bom porto. Diz-se, por exemplo, que introduzir manadas elefantes-mamutes na tundra árctica pode ajudar a restaurar o habitat degradado e a combater alguns dos impactos da crise climática. Os animais derrubariam árvores e esse acto poderia ajudar a restaurar as antigas pastagens árcticas, exemplificam. Os mamutes também poderiam contribuir para desacelerar o derretimento do permafrost árctico.

“Se pensarmos na manchete mais importante do século XX, pensamos, sem dúvida, na ida do Homem à Lua. No século XXI, trazer uma espécie extinta de volta à vida teria um peso semelhante na história da humanidade. É difícil imaginar um projecto mais profundo do que um que quer reverter a extinção de espécies que eram consideradas perdidas para sempre”, diz Richard Garriott, da Colossal, astronauta e empresário na área dos videojogos.

A ideia de reverter a extinção dos mamutes muito tem sido discutida nos últimos anos. Este ano, uma equipa internacional de cientistas conseguiu sequenciar ADN recuperado de molares de mamutes que viveram há mais de um milhão de anos. Tendo em conta a idade desses exemplares, este tornou-se o ADN mais antigo a ser sequenciado, peça essencial para que o plano da equipa de cientistas da Colossal seja bem sucedido. E esta segunda-feira, com o anúncio do novo financiamento para a empresa, o que era só uma ideia parece ter ganho novo fôlego e estar mais perto da concretização.

Mas nem todos os cientistas acreditam que criar animais parecidos com mamutes em laboratório seja a maneira mais eficaz de restaurar a tundra siberiana​. “A minha opinião é que as razões apresentadas — a ideia de que poderíamos engendrar o ambiente árctico usando manadas de mamutes — não são plausíveis”, diz ao The Guardian Victoria Herridge, bióloga evolucionista do Museu de História Natural, em Londres. “A escala em que teríamos de fazer esta experiência é enorme. Estamos a falar de centenas de milhares de mamutes. A gestação demora 22 meses e são precisos mais 30 anos para que atinjam a maturidade.”

Ao The New York Times Heather Bushman, uma filósofa da Escola de Economia e Ciência Política de Londres, levanta outra questão: quaisquer benefícios que a presença dos mamutes possa ter para a tundra precisarão de ser pesados juntamente com o possível sofrimento que os animais podem experienciar ao serem criados por cientistas (e não pelas progenitoras).

Mas o grupo de cientistas diz que “ressuscitar” o mamute não é apenas uma teoria, mas uma “ciência”. “Com uma correspondência genética de 99,6% com o elefante-asiático, o ADN de mamute intacto e a engenharia genética moderna, a tarefa está bem encaminhada”, concluem.