Carlos Moreno: “Temos aceitado o inaceitável, na cidade”

É de bicicleta, e a pé, e não apoiado no carro, que se chega às cidades de 15 minutos, alertou o criador do conceito, Carlos Moreno, a fechar a Velo-city 2021

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Debateu-se o impacto do uso das bicicletas na transformação das cidades Rui Gaudencio

O académico francês Carlos Moreno, criador do conceito da Cidade de 15 minutos, considera que as sociedades “têm aceitado o inaceitável” na degradação da vida urbana, e propõe novos indicadores de qualidade de vida de modo a privilegiar valores como a ecologia, a economia de proximidade, a vizinhança e sociabilidade, que ele resume numa palavra, a topofilia - o gosto pelo lugar. Moreno foi o orador convidado do encerramento da Velo-city 2021, que juntou em Lisboa, nos últimos quatro dias, cerca de 750 pessoas – acompanhadas por cerca de mil que assistiram online –, e que sendo uma conferência dedicada ao uso urbano da bicicleta, foi sempre, em quase todas as sessões, uma reflexão multidisciplinar sobre o impacto deste veículo na transformação das cidades.

Lisboa despediu-se da maior conferência mundial sobre utilização da bicicleta em meio urbano com sensação de dever cumprido, após quatro dias a discutir a diversidade no uso deste modo de transporte. A bandeira foi entregue ao presidente da Câmara de Liubliana, na Eslovénia, que dedicará a próxima edição à ideia de Mudança, mas esta, na verdade, foi palavra já bem presente do princípio ao fim da Velo-city 2021.

Da Comissão Europeia, às associações representadas na Federação Europeia de Ciclistas (ECF), que organiza este evento desde 1980, passando pelos municípios de todos os continentes que expuseram aqui os seus projectos, anseios e dúvidas, ninguém dúvida da urgência de reinvenção das cidades, da urgência de fazer delas espaços onde a sinistralidade rodoviária mate menos, onde o carro não tome 70% do espaço, e este seja partilhado, de forma mais equitativa, com aqueles que andam a pé e de bicicleta.

Falou-se muito de covid-19, o vírus que parou meio mundo e nos deu um vislumbre de cidades diferentes. E tal como um ciclista não gosta de perder a pedalada, pelo esforço que requer recomeçar, a CEO da ECF, Jill Warren vincou, na sessão de encerramento, que é preciso aproveitar o momentum,  a oportunidade aberta pela pandemia, que de Berlim a Bogotá espalhou ciclovias pop-up pelo mundo, para tornar definitiva essa realocação das ruas, essa democratização do espaço público. “É uma questão de justiça” assinalou, pedindo à Comissão Europeia, aos países, às cidades, que sejam coerentes com os discursos “verdes” e ponham o dinheiro nas soluções que concretizam essa visão de um planeta neutro em carbono e de qualidade de vida.

O director-adjunto da Direcção-Geral de Mobilidade da Comissão Europeia, Matthew Baldwin, chegara a dizer que a UE não ia andar de dedo em riste a dizer às cidades o que têm de fazer, mas tal como o inglês, o vereador da mobilidade de Lisboa, Miguel Gaspar, insistiu que não será possível cumprir os objectos de descarbonização sem pôr mais gente a andar de bicicleta nas ruas, em infra-estrutura segura. Em várias sessões, a questão das acalmia da velocidade e intensidade de tráfego nas cidades surgiu como medida complementar, que além de baixar drasticamente a mortalidade rodoviária, como já se está a ver em Bruxelas, que assumiu o limite de 30 km/h, cria um ambiente urbano com menos poluição sonora e mais convidativo a a andar e pedalar.

Fernando Medina foi o grande ausente da Velo-City. O autarca era esperado no encerramento da conferência mas acabou por ser Miguel Gaspar a representar o município. Não houve, nestes dias, qualquer referência, nos palcos, à denúncia infundada, feita pelo candidato Carlos Moedas num debate eleitoral, de que teriam morrido 26 pessoas num ano nas ciclovias de Lisboa (o número é o das mortes em todo o país, e a maioria em estradas, em 2019). O vereador da Mobilidade apenas disse, em jeito de balanço, que não se arrepende de nenhuma das intervenções realizadas no espaço público da cidade, em prol da bicicleta, assumindo erros e disponibilidade para correcções, e pediu aos activistas que sejam ainda mais exigentes com o município.

Jill Warren lembrou que não será fácil concretizar esta visão de cidades mais equilibradas, onde pessoas de todas as idades e condição física possam andar e pedalar, porque o espaço urbano foi pensado para o automóvel e a indústria associada a este veículo continua a ter um peso económico e político enorme e absorve muitos recursos. Mas Carlos Moreno, nesse aspecto, foi claro: na cidade da proximidade, nos bairros de 15 minutos, o carro particular não tem “espaço” no sentido que a sua utilidade se cinge à mobilidade exterior a esse lugar, e a aposta tem mesmo de ser na criação de condições para a mobilidade activa, a única, insistiu, que consegue devolver vida às ruas.