Cancro da cabeça e pescoço e vírus HPV: qual a relação?

O reconhecimento dos sinais e sintomas da infeção pelo vírus do papiloma humano (HPV) pode ser difícil. Por um lado, a infeção por HPV pode não apresentar sintomas ou sinais e, por outro, pode traduzir-se numa irritação e inflamação inespecífica da garganta.

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Apenas através da análise ao material recolhido por biópsia se poderá confirmar o tumor e saber se este tem relação ou não com o vírus do HPV Unsplash/ National Cancer Institute

Os cancros da cabeça e pescoço mais frequentes são os da boca, da laringe (cordas vocais) e da faringe (garganta), incluindo orofaringe (amígdalas palatinas e linguais).

As principais causas são o consumo de tabaco e álcool. Mas, nos últimos anos, descobriu-se um novo agente causal: o vírus do papiloma humano (HPV). Este vírus é principalmente fator causal de cancro da orofaringe, mas também pode estar associado a cancro da laringe e da boca.

O cancro da orofaringe (amígdalas palatinas e linguais), nos EUA e em alguns países do Norte da Europa, é provocado pelo HPV em cerca de 60 a 70%. Em Portugal, o HPV encontra-se em 30-35% dos carcinomas da orofaringe.

O vírus do papiloma humano tem cerca de 200 genótipos — genótipo é a parte da composição genética de uma célula — e 40 deles têm apetência para infetarem as células epiteliais da mucosa oral, faríngea e laríngea, bem como da região genital e anal. Os vários tipos de HPV dividem-se em grupos de alto risco e de baixo risco, conforme o potencial de originar tumores. Os genótipos de HPV que mais frequentemente originam cancro da orofaringe são o 16 e o 18.

A transmissão do HPV para a boca, faringe e laringe pode fazer-se de várias maneiras: sexo oral principalmente, mas também por contacto direto (boca a boca), por autoinoculação — transporte pelas mãos desde a região genital — ou durante o parto, quando o bebé passa pelo colo do útero e vagina infetados. A infeção por HPV é considerada a doença sexualmente transmissível mais frequente em todo o mundo: cerca de 75% dos homens e mulheres sexualmente ativos terão pelo menos uma infeção de HPV ao longo da sua vida.

Ter múltiplos parceiros sexuais é considerado um comportamento de risco para contrair o HPV, bem como o contato orogenital ou oral com pacientes HPV positivos. No entanto, não devemos esquecer a disparidade entre o alto número de infeções por HPV — 75% da população em Portugal — e o baixo número de cancro da orofaringe HPV+: representam 35-40% dos 220 novos casos por ano de cancro da orofaringe em Portugal.

O reconhecimento dos sinais e sintomas da infeção por HPV pode ser difícil. Por um lado, a infeção por HPV pode não apresentar sintomas ou sinais e, por outro, pode traduzir-se numa irritação e inflamação inespecífica da garganta. A maioria das infeções por HPV é curada pelo próprio sistema de defesa do paciente, num processo que pode demorar até dois anos. O risco de novas infeções por HPV diminui com a idade nas mulheres, mas nos homens mantém-se ao longo de toda a vida. Nalguns casos, o HPV pode ficar “adormecido” dentro das células do epitélio da mucosa, provocando infeção uns anos depois.

O diagnóstico de cancro da orofaringe é realizado numa consulta de Otorrinolaringologia, onde se observa uma lesão e se realiza uma biópsia. A análise revelará o tumor, e se tem relação ou não com o vírus do HPV.

Os tumores provocados pelo HPV têm melhor prognóstico do que os tumores provocados pelo tabaco e álcool. O tratamento dos tumores das amígdalas palatina e lingual pode ser realizado com cirurgia, com radioterapia ou com quimio-radioterapia, conforme o estádio do tumor, sendo que os tumores HPV+ respondem melhor ao tratamento com radioterapia ou com quimio-radioterapia.

Não devemos esquecer que o prognóstico é muito melhor se os tumores forem apanhados quando são pequenos. Daí a importância do diagnóstico precoce, e de recorrer atempadamente ao médico assistente de Otorrinolaringologia se surgirem sintomas que não aliviam em duas ou três semanas.