Parabéns, meu pai!

O meu pai soube mostrar-nos que era preciso ir para além do sofrimento e da mágoa, porque era primordial viver e deixar a vida continuar a acontecer.

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@PETERCALHEIROS

“A cada dia que vivo mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade. A dor é inevitável. O sofrimento é opcional.”
Carlos Drummond de Andrade

Muitas pessoas quando perdem alguém que amam muito perdem também o sentido da vida. Deprimem, deixam de comer, cuidam pouco de si, começam a beber ou se isolam do mundo, correndo o risco de ir ao fundo do poço. Mas o meu pai não iria querer que nada disso acontecesse comigo. Pelo contrário: ele adorava pessoas alegres e vivia a vida com entusiasmo, incentivando-me a fazer o mesmo. Além disso, sei que ele era grato pelo que tinha e sempre procurou ensinar-me a também ser grata e a aceitar as coisas más que acontecem na nossa vida.

Sendo uma pessoa emotiva, ensinou-me, com o coração e com o seu próprio sofrimento, que quando se quebra um vínculo importante começamos numa busca pela procura de sentido. Ele sabia que, por vezes, é fácil sentirmo-nos incapazes de encontrar sentido numa experiência de dor tão intensa e talvez por isso nunca tenha deixado de dizer-me, vezes e vezes sem conta, o quanto me amava e o quanto fui importante na sua vida. Lembrar-me disso faz-me sentir a sua presença.

A maior parte das lembranças que tenho do meu pai são divertidas, embora a vida não lhe tenha sido sempre cor de rosa. Ele sofreu muito com o divórcio da minha mãe e era notório o quão difícil era lidar com essa perda. Não sei se ele, efetivamente, conseguiu fechar esse episódio amargo; acho que carregou pelo menos parte dessa dor até o fim da sua vida. Na verdade, mesmo nos seus piores momentos, em que nós, filhos, sentíamos o sabor azedo que nele ficou, o meu pai soube mostrar-nos que era preciso ir para além do sofrimento e da mágoa, porque era primordial viver e deixar a vida continuar a acontecer. E aqui ele me ensinou que às vezes as coisas não são como queremos e temos de ser humildes e nos adaptarmos.

A morte do meu pai forçou-me na procura de significado para algo que eu não queria que tivesse acontecido. Como sei que não existe um significado válido para todos, tive de encontrar o meu. Ao pensar nele e na relação que cultivou comigo percebo cada vez mais o quão importante foi para mim, porque a sua dedicação e vontade de ser feliz ensinou-me a cuidar de mim, a dar carinho para poder receber, a não guardar rancor, porque quem sofre somos nós e, sobretudo, que a maior parte das nossas tristezas, mesmo aquelas que não passam totalmente, encontram o caminho da serenidade.

E é hoje, no dia em que completaria 86 anos, que lhe faço esta singela homenagem pelo amor e dedicação que me deu e que me permite, a cada dia, lembrar-me com carinho das suas e das minhas gargalhadas, lamentando a sua perda, mas com a certeza de que ambos estamos em paz.