Inflação abranda, mas nova subida é esperada até ao fim do ano

Numa interrupção já esperada da tendência dos últimos meses, a taxa de inflação na zona euro e em Portugal recuou em Junho. Os efeitos temporários que têm feito subir os preços deverão contudo ressurgir na segunda metade do ano.

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LUSA/MAURIZIO BRAMBATTI BT

As taxas de inflação em Portugal e no total da zona euro registaram, durante o mês de Junho, um recuo, interrompendo a tendência de subida que se vinha verificando nos últimos meses. A expectativa, no entanto, é a de que, até ao final deste ano, a variação dos preços volte a aumentar, afectada por factores pontuais como a subida dos custos da energia.

A evolução da taxa de inflação na Europa voltou, nos últimos meses, a estar no centro das atenções nos mercados financeiros. A recente subida deste indicador está a colocar dúvidas sobre a determinação do Banco Central Europeu em manter, durante o tempo inicialmente previsto, todas as medidas de estímulo à economia que tem em vigor, como o elevado volume de compras de dívida pública ou a manutenção das taxas de juro a níveis mínimos históricos.

Em Junho, revelou esta quarta-feira o Eurostat, a taxa de inflação homóloga na zona euro recuou ligeiramente, dos 2% de Maio para 1,9%. No caso de Portugal, que tem registado uma variação de preços bastante menos acentuada do que o resto da zona euro, a taxa de variação homóloga caiu, de acordo com os números publicados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), de 1,2% em Maio para 0,5% em Junho.

E se se considerar os Índice Harmonizado de Preços no Consumidor, que é o indicador totalmente comparável com a inflação calculada para a zona euro pelo Eurostat, a variação homóloga dos preços passou de 0,5% em Maio para um valor negativo de 0,6% em Junho.

Este recuo da inflação em toda a zona euro registado em Junho já era antecipado pela generalidade dos analistas. Em Junho do ano passado, assistiu-se a uma subida da taxa de inflação e isso produz agora um efeito base que conduz a inflação para um nível mais baixo.

No entanto, a expectativa, tanto dos mercados como do próprio BCE, é a de que a taxa de inflação volte, a partir de Julho e até ao final do ano, a apresentar uma tendência ascendente. O banco central prevê neste momento que no final de 2021 a taxa de inflação homóloga possa mesmo ultrapassar os 2,5%, ficando claramente acima do objectivo de médio prazo da instituição, que é de uma inflação “abaixo mais próxima de 2%”.

Ainda assim, uma subida deste tipo nos preços não deverá ser o suficiente para o BCE alterar os seus planos para a política monetária. A entidade liderada por Christine Lagarde tem defendido que a subida da inflação registada desde o início do ano e aquela que se prevê volte a acontecer na segunda metade de 2021 se devem a factores pontuais, como a recuperação dos preços do petróleo (que caíram no ano passado), impactos não permanentes da pandemia e subidas de impostos como a realizada, por exemplo, na Alemanha. E que, portanto, a partir de 2022, se irá voltar a assistir a um regresso da taxa de inflação da zona euro abaixo de 2%.

Para além disso, é também evidente que, até agora, não há qualquer sinal de uma pressão ascendente nos salários, um factor indispensável para que a taxa de inflação suba de forma mais permanente.

É isto que leva o BCE a assegurar que irá manter inalterada a estratégia que definiu e que implica a manutenção, pelo menos até meados de 2022, do programa de compra de dívida criado para combater os efeitos da pandemia, ficando apenas para mais tarde o eventual início das taxas de juro de referência do banco central.

Nas últimas semanas, o BCE foi colocado sob pressão pelo facto de os EUA, onde a taxa de inflação se encontra já em 5%, terem dado os primeiros sinais de que poderá vir a recuar mais cedo do que o previsto na sua política monetário expansionista.