Dívida e mais dívida já chega

Com a pandemia todo o jogo económico e social virou-se ao contrário e em poucos meses destruiu tudo o que demorou vários anos a ser conseguido, mostrando mais uma vez que destruir é mais fácil que construir.

Desde 1996 até 2000 a nossa dívida pública em percentagem do PIB seguiu sempre uma trajetória de decréscimo que, apesar de ser ligeiro, não deixou de ser decréscimo.

Entre 2000 e até 2016 foi sempre a subir até atingirmos uns impressionantes 131,5% do PIB. Enquanto noutros países da Zona Euro as respetivas dívidas relativas ou subiam ora desciam, em Portugal subia sempre. Ao menos salva-se a coerência. Era sempre a subir, como se o amanhã não existisse.

Nos últimos dois ou três anos deste período temporal, e em face do programa de ajustamento, é natural que a dívida relativa subisse, para depois começar a descer de uma forma sustentada. E foi exatamente isso que aconteceu, não tão depressa como deveria ter ocorrido, fruto de algumas escolhas políticas erradas, mas em 2017, 2018 e 2019 foram efetivamente anos de correção em baixa.

Tudo indicava que estávamos no bom caminho e, se não fossem dadas mais “facadas” no Orçamento e na estabilidade económica do país, a troco de uns momentos de contentamento hoje de uma determinada freguesia e amanhã de outra, acredito que em mais alguns anos, com o crescimento do PIB e a diminuição da dívida real, a dívida relativa atingiria os 80% do PIB, para aí ficarmos durante muito tempo e voltarmos a ganhar a plena confiança de todos.

Para isto acontecer era preciso que houvesse mão firme, e não se perdesse a orientação macroeconómica nem as prioridades, sem esquecer a competitividade, o apoio ao empreendedorismo e à inovação.

Mas, como todos sabemos, em face da pandemia todo o jogo económico e social se virou ao contrário e em poucos meses destruiu tudo o que demorou vários anos a ser conseguido, mostrando mais uma vez que destruir é mais fácil que construir.

Em face da grande queda do PIB e do aumento da dívida pública para acorrer à economia, Portugal encerrou o ano de 2020 com uma dívida externa pública de 133,6% do PIB, ou seja, num ano subimos mais de 20 pontos percentuais.

Todos os países da Zona Euro, sem exceção, viram as suas dívidas relativas aumentarem e a Grécia “aproveitou” a ocasião para ultrapassar a barreira dos 200% do PIB, e isto já depois de três reestruturações da sua dívida (ou já serão quatro?), mas isto são posturas de caloteiros, de quem vive permanentemente à custa dos outros e em Portugal até temos um nome certo para esse tipo de pessoas, que nós não queremos ser.

Como queremos pagar, é necessário começar tudo de novo, só que num patamar mais elevado, mas nem por isso impossível de atingir.

Atualmente temos um ponto a nosso favor. A dívida pública francesa encontra-se em cerca de 116% do PIB, passando este país a funcionar como um ponto de referência para os mercados. Trata-se do primeiro objetivo a ser atingido em dois ou três anos. Igualar em termos relativos a dívida pública francesa, para ficarmos salvaguardados dos mercados, sem precisar de qualquer ajuda do BCE.

Tudo é possível, desde que nos vejamos livres desta pandemia, comecemos a crescer de uma forma rápida, pelo menos na fase inicial da recuperação plena e depois de uma forma sustentada,e consigamos diminuir gradualmente o volume da dívida.

Temos de conseguir.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico