(Entre parênteses)

Não deixava de se questionar: porque não teria ido parar antes à frente de um travessão? Aí, sim, ia sentir-se valorizada. Um lugar que a iria enfatizar, onde iria sobressair, ao invés daquela cavidade que a fazia sentir-se tão inútil e secundária.

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Jenny Marvin/Unsplash

Acordou numa manhã que parecia igual a todas as outras. Deu um beijinho ao namorado que dormia ao seu lado, levantou-se e foi tomar banho. Vestiu-se e desceu para o carro para se dirigir ao trabalho. Tinha uma reunião importante. Seguiu a estrada, parou num sinal vermelho que não demorou a ficar verde e (percebeu que alguma coisa tinha mudado. De súbito, sem que nada o fizesse prever, reparou que estava dentro de parênteses. Não sabia como tinha ido ali parar. Tinha feito o percurso habitual, ia a uma velocidade normal, no horário do costume. O que se teria passado para ir parar a uns parênteses? Sentiu um desconforto invadi-la e tentou perceber o que estava a acontecer. A retrospectiva que fez não trazia nenhum indício que apontasse para aquele desfecho. Levava uma boa vida, tinha estudado, estava numa relação, era saudável e estava num bom caminho profissional. Ela tinha pertencido à oração principal a vida toda. O que se passava agora para se encontrar numa posição tão acessória? Teria deixado de ser importante, assim, do dia para a noite? Não sabia como tinha entrado nos parênteses e, certamente, não sabia como sair. Queria voltar à acção quanto antes. Tinha deixado tudo em stand by. Havia toda uma frase para ser completada e estava a perder tempo precioso dentro deste irritante semicírculo. O seu emprego, a sua auto-estima, o seu namorado. Estava tudo lá no início da frase e agora ela estava a deambular no meio de introspecções e explicações excessivas e completamente prescindíveis. Sentiu-se claustrofóbica, com uma ânsia desesperada de sair dali. Como podia estar naquele subúrbio das frases? Como podia ter sido tão brutalmente deslocada do centro das ideias? Não sabia quanto tempo teria de ficar entre parênteses. Tudo tem o seu fim, não é verdade? Todo o parêntese que se abre tem de ser fechado. Queria voltar às suas actividades, mas algo fazia com que não conseguisse ser pró-activa. Faz parte do estar entre parênteses, a estagnação. O tempo foi passando e ela manteve-se ali. Procrastinava muito, passava os dias a pesquisar curiosidades e factos irrelevantes e era incapaz de ser útil e dinâmica. Nada acontecia, mas tinha uma justificação para tudo, até para o facto de nada acontecer. Tornou-se mais filosófica, com tendências niilistas. Foi-se abatendo sobre ela uma tristeza vaga, sentia que ninguém queria saber o que ela dizia, que ninguém a ouvia com atenção, que ninguém lhe dava valor, que não tinha nada de importante para acrescentar ao mundo. Não é fácil viver entre parênteses. Até ter entrado ali, achava que levava uma vida extraordinária, cheia de grandes conquistas e sonantes momentos, e tudo tinha mudado em segundos de forma inexplicável.

Um dia, encontrou um rapaz que andava também lá por dentro dos parênteses e, os dois, tanto tempo longe da oração principal, perdidos e confusos, num momento de fragilidade, envolveram-se romanticamente. Não se pode dizer que tenha sido uma ligação forte, mais uma dessas ligações supérfluas e passageiras. Nada de excepcional acontece dentro de parênteses. Chorou, depois de se ter envolvido com o rapaz, porque tinha a sua relação fora do parênteses. A solidão tinha-a feito cair em tentação, [e já dizia Oscar Wilde que se pode resistir a tudo menos à tentação {mas isto é um parênteses dentro de um parênteses dentro de um parênteses e esses são ainda mais difíceis de se quebrar, como prisões de alta segurança, não nos aventuraremos por aí, pois quem por lá vive está condenado a um destino ainda mais exasperante de ultra-explicação e excesso de zelo a pender para a neurose obsessiva e disso não se ocupará esta história, voltemos à rapariga e ao rapaz.} citar Oscar Wilde fica sempre bem] o rapaz tentou tranquilizá-la dizendo-lhe para ela não se preocupar, que o que acontece dentro de parênteses fica dentro de parênteses, o que lhe aliviou a culpa. No entanto, continuava cheia de saudades da vida lá fora, a ansiar pelo dia da libertação, pelo regresso ao protagonismo das frases. O rapaz acabou por não ser má companhia e era a única pessoa com quem podia falar acerca do que se passava entre parênteses. As conversas não eram particularmente entusiasmantes. Consistiam em adendas, decifração de siglas, referências bibliográficas, datas. Por vezes introduziam apontamentos psicanalíticos ou astrológicos, outras vezes enumeravam acontecimentos históricos ou faziam listas onomásticas.

Não deixava de se questionar: porque não teria ido parar antes à frente de um travessão? Aí, sim, ia sentir-se valorizada. Um lugar que a iria enfatizar, onde iria sobressair, ao invés daquela cavidade que a fazia sentir-se tão inútil e secundária. Ou até mesmo a umas aspas, quem sabe, alguma ironia, algum humor, conviver com citações divertidas e interessantes. Ali, só conseguia esperar o fim. Não tinha força de viver, nem ambição.

Até que se foi, lentamente, habituando. Dizem que nos habituamos a tudo. Deixou de se lembrar que tinha tido, outrora, uma vida livre daquelas amarras. Já há tanto tempo que estava entre parênteses, que começou a desconfiar da própria expressão “entre”, porque não vislumbrava o parêntese que fecha, nem a hora dele chegar. Tornou-se quase um mito a hipótese de pôr fim àquela situação. O parêntese conclusivo era um Dom Sebastião, a ideia da sua chegada estava imbuída de esperança, mas as possibilidades disso acontecer pareciam-lhe utópicas. O parêntese inicial também ia lá longe, no início do texto, e já não era mais do que uma memória difusa. Esta agora era a sua vida. E era uma vida muito mais introspectiva. Longe do frenesim da oração principal, longe da agitação e da independência a que estava acostumada. A pouco e pouco, foi-se sentindo mais confortável, resguardada pelos parênteses, quentinha e protegida dos olhares de todos. O seu refúgio. Sim, é certo que já não comandava a própria vida, que se limitava a analisar a dos outros. Talvez estivesse a sofrer da síndrome de Estocolmo e a desenvolver carinho por aquele raptor ou, talvez, com a resiliência característica do ser humano, se tivesse habituado àquela existência pouco estimulante e frívola. A reflexão era uma constante, assim como as perguntas retóricas. E como poderia ser de outra maneira, se estava dentro de parênteses? Os parênteses tornaram-se o seu mundo secreto e interior, a sua história dentro da história. Assim como tinha chegado àquele momento, sem saber bem o motivo, também um dia de lá iria sair. E ficaria sempre na dúvida do porquê de aquilo ter acontecido. Teria sido a incursão nos parênteses um momento fundamental de auto-análise e autodescoberta? Teria sido um travão à aceleração do quotidiano? Um castigo pela vaidade e egocentrismo da vida mundana? Uma imposição divina, uma espécie de milagre? Um exercício literário sem um propósito maior de uma pessoa que está a escrever uma crónica para um jornal e tem de chegar ao fim porque já ultrapassou o número de caracteres exigidos? Nunca teria a certeza.

O curioso é que, ao contrário de tantas experiências, esta não iria modificar verdadeiramente a sua vida. Não tinha sido um episódio transformador e inesquecível, que levaria como lição. Aquele tempo tinha sido perfeitamente dispensável, não guardaria nada dali que lhe fosse substancial. Não seguiria como os ex-prisioneiros, com a eterna lembrança do cárcere e valorização da liberdade. Tudo continua igual, depois dos parênteses. A frase segue, impiedosa e fria, como se nada se tivesse passado. A acção principal é implacável com os parênteses. Engole-os e deita-os fora sem misericórdia. A vida continuaria exactamente igual) acelerou o carro, ligou o rádio e foi a cantar pela estrada fora.