Morreu António Torrado, o escritor que tinha sempre um livro para oferecer

“Insinuar mais do que dizer; sugerir mais do que declarar.” Foi assim que escreveu mais de uma centena de obras, para todas as idades, mas sempre a pensar nos mais novos. António Torrado morreu esta sexta-feira, aos 81 anos. O funeral realiza-se na segunda-feira.

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António Torrado DR

O escritor português António Torrado morreu, esta sexta-feira, 11 de Junho, em Lisboa, na sequência de uma doença neurodegenerativa. Tinha 81 anos e mais de meio século de dedicação às palavras, que transformou em mais de uma centena de livros, e não só. “O António [Torrado] era, entre muitas outras coisas, um grande dramaturgo e um grande guionista de cinema”, tendo entre a sua vasta lista de trabalhos os argumentos de O Cônsul de Bordéus, de João Correa e Francisco Manso, ou O Último Condenado à Morte, de Francisco Manso, recorda o amigo José Jorge Letria.

Na literatura, nunca perdeu a noção de que “se escreve para o efémero, para o transitório”. “Os leitores estão em trânsito para outros livros”, explicava ao PÚBLICO por altura da celebração dos seus 40 anos de carreira, em 2010. Ainda assim, tinha pelos livros um amor singular. “O António andava sempre com uma pasta de cabedal debaixo do braço”, recorda Letria. “Sabe o que trazia? Livros para oferecer, sempre.”

Nascido a 21 de Novembro de 1939, em Lisboa, António Torrado tinha raízes em Vizela, de onde os pais eram originários. Mas foi por Lisboa que cresceu, no seio de uma família que se dedicava ao pequeno comércio. Foi com a ideia de ajudar o pai que, inicialmente, escolheu estudar Ciências Económicas. Mas, acabou por dar por si em Filosofia — não sem antes uma passagem sonolenta pelo Direito (“dava-me muito sono”).

Acabaria por se ver a braços com as palavras e daí até estar a escrever foi um passo. Começou no Diário Popular. Foi, porém, quando passou pel’A Capital, em 1970, que se cruzou com José Jorge Letria, na época jornalista no Diário de Lisboa. “Ficámos muito amigos”, sublinha o também escritor. Daí que, quando lhe pedimos para falar de António Torrado, não se iniba de dissertar sobre o homem: “bom (e esta é uma grande virtude), solidário, construtivo, cavalheiro, atento”. Afinal, considera, José Jorge Letria é importante sublinhar as qualidades dos que partem.

Isso, no entanto, não o faz esquecer a obra, recordando o facto de António Torrado ter sido o primeiro a receber o Grande Prémio Gulbenkian de Literatura para Crianças e Jovens, género que considera ser alvo de uma certa subalternização. “Mas ele sabia que há um factor de esclarecimento, que é o tempo.”

Foi também um editor de mão-cheia: fundou e dirigiu a Plátano, além de ter criado a editora Comunicação, de livros de bolso muito voltados para os estudos académicos. No campo do ensino, está entre os fundadores do Externato Fernão Mendes Pinto, em 1968, criado por um grupo de professores que não estavam satisfeitos com as metodologias vigentes nas escolas dessa época.

“O António foi sempre reconhecido como um homem de esquerda”, lembra José Jorge Letria, ao mesmo tempo que evoca o episódio em que foi saneado da RTP, em 1975.

Numa curiosidade, o amigo recorda que António Torrado nasceu na Rua da Creche, a mesma onde, em 1961, José Dias Coelho foi assassinado por elementos da PIDE. Um episódio a que António Torrado terá assistido — “e que o marcou para sempre”.

Voltando aos livros, o escritor marcou gerações com histórias como O Mercador de Coisa Nenhuma, Teatro às Três Pancadas, Verdes São os Campos, Corre, Corre, Cabacinha, entre muitos outros. Tantos que, em 2010, dizia: “os meus livros todos, os que tenho nas prateleiras que me são dedicadas, por conjunto, dá o meu tamanho deitado. Ou a minha altura.” Ou seja, “de uma forma leviana”, 1,76m de literatura.

Os livros, porém, não cessam com a sua morte, como confidencia José Jorge Letria: “Há um livro, que ficou concluído por estes dias, pela Inês Fonseca Santos, que será lançado nos próximos meses”. Uma derradeira obra para provar que um escritor nunca morre.

O corpo de António Torrado estará em câmara-ardente a partir das 15 horas de domingo, na Basílica da Estrela, em Lisboa, de onde seguirá na segunda-feira, às 14 horas, para o Cemitério dos Prazeres