O 25 de Abril também revolucionou os nomes das ruas de Lisboa

Os editais da Comissão Municipal de Toponímia, vigente entre 1974 e 76, são o reflexo de uma vontade enorme de participar e de afirmar a democracia. Há muitos nomes que as ruas de Lisboa podiam ter tido.

Por sugestão de um munícipe, em Julho de 1975 foi discutida a possibilidade de mudar o nome da Praça do Comércio para Praça do Povo
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Por sugestão de um munícipe, em Julho de 1975 foi discutida a possibilidade de mudar o nome da Praça do Comércio para Praça do Povo Daniel Rocha

Riscar o 28 de Maio da placa com o nome da avenida lisboeta foi um gesto simbólico. Escreveu-se por cima 25 de Abril. O episódio acontecia cinco dias depois da Revolução dos Cravos e, pela metáfora, iniciou uma série de mudanças da toponímia da cidade.

Deposto o Estado Novo, era altura de retirar das placas de cada rua os nomes ligados ao regime. Não se esperava outra coisa. Importava eliminar os “nomes afrontosos para a população”, lê-se no primeiro edital que o município emitiu sobre toponímia no pós-25 de Abril. O documento saiu no penúltimo dia de 1974, resultado dos pareceres da Comissão Municipal de Toponímia, aprovados pela câmara. Mudou os nomes de cinco ruas.

Para assinalar os 43 anos da revolução, o Núcleo de Toponímia do Departamento de Património Cultural da Câmara de Lisboa debruçou-se sobre as alterações na toponímia lisboeta pós-25 de Abril até ao final de 1976, ano em que é eleito o primeiro presidente da câmara pós-revolução, Aquilino Ribeiro Machado. Em três anos, foram alterados 12 nomes de ruas. Surgiram 23 novos.

A Avenida 28 de Maio (data da revolução que pôs fim à Primeira República portuguesa e iniciou a ditadura militar) acabou por não ter o nome de 25 de Abril. É a actual Avenida das Forças Armadas, determinou o primeiro edital. Nesse momento, a Avenida Marechal Carmona passa a homenagear o General Norton de Matos e a Rua General Sinel de Cordes para Rua Alves Redol. Depõem-se figuras do regime por adeptos da democracia.

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Núcleo de Toponímia do Departamento de Património Cultural

Os munícipes participaram nesta mudança. Nas sugestões de novos topónimos, impunham-se nomes como Ribeiro Santos — estudante de Direito morto pela PIDE —, Alves Redol e Bento Gonçalves — antigo secretário-geral do PCP, enviado para o campo de concentração do Tarrafal, onde morreu. A Calçada de Santos mudou efectivamente para Calçada Ribeiro Santos, dado que o estudante morava no Largo de Santos e de lá saíra o seu funeral, em 1972. A mesma vontade popular fez com que a Estrada de Malpique, em Alvalade, mudasse de nome para Rua Dr. João Soares, em homenagem ao professor e ministro das Colónias durante a I República, pai de Mário Soares.

Depois da revolução, outras ruas ganharam nomes de opositores mortos pela polícia do regime: Rua José Dias Coelho, em memória do artista plástico e militante comunista morto em 1961; Avenida Machado Santos, pelo militar obreiro da implantação da República assassinado na Noite Sangrenta de 1921; e Praça Marechal Humberto Delgado, o “General Sem Medo” assassinado na fronteira espanhola. Também Mário Castelhano, jornalista e opositor ao regime, que viria a morrer no Tarrafal, tem uma rua em seu nome desde 1996.

Os nomes das ruas eram, assim, reflexo das mudanças numa época de profundas transformações. Há uma praça que é um particular exemplo disso. Nascida como Praça das Colónias, em 1933, durou apenas um mês com este nome. Viria a ser a Praça do Ultramar, nome com que ficou até Fevereiro de 1975. Nesse ano, a toponímia de Lisboa espelhou uma nova realidade: o fim da guerra colonial e o início da descolonização dos até então denominados “territórios ultramarinos”. Surgia, assim, a Praça das Novas Nações, no culminar das ruas de Timor, de Angola, de Moçambique, da Guiné, de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe, na zona dos Anjos.

Quando a Praça do Comércio foi a votos

A substituição dos nomes no pós-25 de Abril não foi, no entanto, regra sem excepções. Salvaguardaram-se os casos em que houvesse “prejuízos para os munícipes” ou para os serviços públicos e privados. Não foram eliminados topónimos “tradicionalmente consagrados”. Paula Machado, do Núcleo de Toponímia, recorda a vez em que a Praça do Comércio foi a votos para ser Praça do Povo, por sugestão de um munícipe em Julho de 1975. A tradição impedia a mudança, justificou na altura a comissão municipal.

Nestes três anos, várias ruas reúnem o consenso de muitos lisboetas: mude-se o nome, pedem.

A Avenida Sidónio Pais, líder da ditadura militar durante a Primeira República, foi uma das que no pós-25 de Abril recebeu diversos pedidos de alteração. Que fosse Avenida Doutor Afonso Costa, um dos obreiros da Primeira República, ou Avenida Bernardino Machado, por duas vezes Presidente dessa república, ambas as vezes destituído do poder pelos militares. A avenida chegou mesmo a ter este nome, mas apenas no papel.

Nenhuma das propostas avançou, mas ambos os estadistas foram homenageados noutros locais. Afonso Costa deu nome ao arruamento “que, partindo da Praça do Areeiro, segue para Nascente e é vulgarmente designado por prolongamento da Avenida João XXI”, lê-se no edital, e Bernardino Machado a uma Praça no Lumiar, em 1985.

Outras das ruas populares pela vontade de lhe mudar o nome era a Rua António Maria Cardoso, homenagem a um oficial da marinha e “explorador” nos territórios africanos. Esteve nesta rua a sede da PIDE, até ao seu desmantelamento, em 1974. As sugestões de topónimos alternativos passavam por Rua Dias Coelho, pintor assassinado pela polícia política, ou Rua da Leva da Morte. Esta proposta, feita pela Associação dos Ex-Presos Políticos Antifascistas, inspira-se no nome de uma antiga rua, num troço da actual Rua Serpa Pinto, em homenagem aos presos políticos anti-sidonistas que foram mortos num tiroteio em 1918. Considerava a presença da PIDE tão forte neste arruamento que a associação utilizava Rua da Leva da Morte n.º 15 como morada.

Também a Avenida Doutor Alfredo Bensaúde, nos Olivais, em homenagem ao professor, engenheiro e fundador do Instituto Superior Técnico, poderia ter sido Avenida 25 de Abril caso tivesse sido aceite a sugestão de um munícipe. A comissão entendeu que a mudança seria “futuramente considerada”. 25 de Abril acabou por ser o nome dado a uma praça em Marvila, já em 1999.

Já Agostinho Lourenço, químico e professor universitário, quase perdia a homenagem por o seu nome ser igual ao do capitão director da polícia do regime até 1956. Houve vários pedidos para alteração do nome da rua, que assim era desde 1903.

Por muitas ruas que tenham visto o nome mudado, Paula Machado não deixa de notar que “Lisboa não foi das cidades que mais aderiu a este movimento de ruptura”. “Há mudanças maiores noutros concelhos”, refere. E até noutros momentos históricos. A Primeira República mudou o nome a 126 ruas lisboetas, a maioria para depor topónimos monárquicos ou religiosos. No Estado Novo, numa tentativa de repor algumas das referências religiosas e tirar símbolos emblemáticos da República, alterou-se a designação de 57 ruas.

E grande parte das alterações foi feita quando já iam longe os primeiros anos de democracia. A memória dos primeiros governantes após o 25 de Abril está guardada na cidade desde 1993, com a saída do edital que dava nome à Rua Prof. Adelino da Palma Carlos, um dos primeiros-ministros de governos provisórios. Seguiam-se as homenagens a Vasco da Gama Fernandes (2001), António de Spínola e Francisco da Costa Gomes (2004), Vasco Gonçalves (2005) e Maria de Lourdes Pintasilgo (2008). Adriano Correia de Oliveira, intérprete da Trova do vento que passa, é nome de rua desde 2009.

Ainda este ano, no primeiro dia do mês, à Rotunda 2 do Plano de Urbanização do Alto do Lumiar foi dado o nome de Coronel Vítor Alves, militar de Abril.