“Este sabonete foi feito pela Maisaa”: na Amal, fabrica-se esperança para as mulheres sírias

A Amal é um negócio social, sediado em Lisboa, para integrar mulheres sírias em Portugal. Os sabonetes artesanais são inspirados na receita milenar de sabão de Alepo, a mesma cidade de onde Maisaa partiu com a família, em 2017, para caminhar até à Turquia e entrar na Europa.

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Teresa Pacheco Miranda

“Este sabonete foi feito pela Maisaa”, lê-se na fita que embrulha os sabonetes artesanais da Amal. Maisaa Katef produz dezenas de sabonetes por dia, inspirados na receita de sabão mais antiga do mundo – o sabão de Alepo, feito de azeite e óleo de louro. A síria aprendeu a técnica milenar com a tia, no seu país de origem, mas só em Portugal a tornou uma profissão.

Maisaa deixou a sua casa em Damasco, na Síria, em 2017, com os três filhos e o marido, Ali, com quem esperava mais um bebé. Demoraram dois dias a chegar a Alepo, de autocarro, num caminho que, “antes da guerra”, se fazia em poucas horas. Depois, caminharam até à Turquia.

Ao mesmo tempo, em Lisboa, nasciam ideias para um projecto de integração de pessoas refugiadas em Portugal, numa aula de Empreendedorismo Social, na Nova SBE. Benedita Contreras, estudante de mestrado, levaria avante a ideia que imaginava e criaria, pouco depois: a Amal. Em 2019, e apesar de continuarem a ser uma equipa, os alunos da Universidade Nova seguiram outros caminhos profissionais e entregaram a gestão do negócio social a Graça Francisco, que conheceram através de uma parceria entre a multinacional onde Graça trabalhava e a Universidade Nova.

Na Síria, a guerra dura há dez anos, já deixou de ser notícia, e não há nada. Comida, medicamentos, coisas básicas. Estas pessoas viveram coisas que nem nos nossos piores pesadelos conseguiríamos imaginar”, diz Graça Francisco, em entrevista ao P3. “Há que ter muito respeito, ser muito grato.”

Maisaa Katef e a família estiveram um mês e meio na Turquia, onde Ali não conseguiu encontrar emprego. Precisavam de ir para outro lugar. Atravessaram, então, o Mediterrâneo, num barco de plástico, que atracaria na costa da Grécia. Só depois de aceite o pedido de asilo partiriam, de avião, para Portugal.

Numa das consultas de obstetrícia para acompanhar o crescimento do bebé a caminho, já em Lisboa, Maisaa conheceu Tomás, amigo de Benedita Contreras, a estudante da Universidade Nova que pensava em soluções de integração para mulheres sírias. As duas combinaram encontrar-se e rapidamente Maisaa começou a trabalhar na Amal, depois de ter tentado, sem sucesso, ser cabeleireira em Portugal, como era na Síria.

“Na Síria era fácil encontrar um trabalho, abrir uma loja. Aqui é muito difícil. Usar hijab também pode tornar-se um problema”, conta Maissa, enquanto espera ouvir o soar de um alarme no interior da cozinha da Amal, indicando que é hora de passar à fase seguinte na confecção dos sabonetes. “Quando entrei na Amal, fiquei com mais confiança e mais esperança.”

A palavra “amal” significa, precisamente, “esperança”, em árabe. O negócio social foi assim baptizado simbolicamente, mas também com inspiração em Amal Moait, mulher síria, cunhada de Maisaa. Amal Moait, também a viver em Portugal, ainda trabalhou a fazer sabão na Amal, com Maisaa, mas dedica-se, agora, a tempo inteiro, à família.

É Maisaa, de 36 anos, quem produz as dezenas de sabonetes cozinhados diariamente na Amal, enquanto cuida de Zayn, o filho mais novo, de oito meses, o único com nacionalidade portuguesa, e de mais quatro filhos. Para o marido, Ali, a pandemia diminuiu as oportunidades de trabalho, por isso frequenta um curso de língua portuguesa para que, no futuro, seja mais fácil integrar-se.

Graça Francisco e Zayn, de oito meses, a olhar para Maisaa, que trabalha na cozinha da Amal. Teresa Pacheco Miranda
Maisaa, a preparar sabonetes na cozinha da Amal. Teresa Pacheco Miranda
Corte das barras de sabão, na cozinha da Amal. Teresa Pacheco Miranda
Maisaa segura uma das barras de sabão que terminou. Teresa Pacheco Miranda
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Teresa Pacheco Miranda

“Queremos que, através do trabalho adaptado — porque a prioridade das mulheres sírias é a família —, consigam ajudar economicamente a família, aprendam competências e se integrem na comunidade”, explica Graça Francisco ao P3.

Além de todos os sabonetes da Amal serem feitos apenas com ingredientes naturais, a sustentabilidade é uma preocupação. Nada é desperdiçado, todos os embrulhos são diferentes, feitos à mão, com papel de sobra, e, na pequena sede da Amal, em Lisboa, cedida pelo Instituto Padre António Vieira, a mobília não é comprada, mas construída com madeira e paletes usadas.

Terminado o dia de trabalho e o curso de língua portuguesa, Ali chega à Amal para conduzir a família até casa. Enquanto Maisaa deixa o espaço pronto para o dia seguinte, o marido brinca com o filho Zayn, segura-o bem alto, com o braço esticado, e volta a trazê-lo para o colo.

Graça Francisco, a segurar um dos sabonetes da Amal. Teresa Pacheco Miranda
Maisaa prepara sabonetes na cozinha da Amal. Teresa Pacheco Miranda
Teresa Pacheco Miranda
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Para Graça Francisco, que já se sente quase parte da família, este “não é um negócio normal”. “Queremos que seja sustentável, que seja o fruto do nosso trabalho que nos permita gerir o negócio, mas a ligação entre nós é de amizade, não é de empregador [para trabalhador].”

Os sabonetes da Amal podem ser encomendados na sua página de Instagram ou Facebook.