Nuno Vasconcellos faz perder a paciência a Mariana Mortágua e Negrão termina audição

Entre elogios ao presidente do Benfica, e exigências de respeito a Mariana Mortágua, Nuno Vasconcellos recusou a existência de uma dívida de 600 milhões ao Novo Banco, passando as culpas da queda do BES para “o Governo da altura”.

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Nuno Vasconcellos (à esquerda) ao lado de Rafael Mora (à direita), quando eram accionistas da PT, através da Ongoing, já depois da queda do BES Rui Gaudencio

A conversa entre Mariana Mortágua e o presidente da falida Ongoing, que tem uma dívida de 600 milhões de euros ao Novo Banco, já havia azedado há muito na comissão parlamentar de inquérito (CPI) às perdas no Novo Banco, quando a deputada do Bloco de Esquerda perdeu definitivamente a paciência com Nuno Vasconcellos.

Ao fim de cerca de uma hora de audição, a parlamentar recusou-se a continuar a sua inquirição, ao ouvir Vasconcellos incluir-se no grupo de “grandes empresários” acusados injustamente das perdas do banco, depois de uma resolução que foi “um desastre” e uma “péssima decisão do Governo da altura”.

“Sempre que os bancos precisam de mais dinheiro, lá vem a lenga-lenga ‘a culpa é dos empresários’”, afirmou o antigo accionista da PT e do BES, rejeitando responsabilidades na derrocada do banco da família Espírito Santo e nas perdas que os contribuintes foram chamados a suportar desde então.

Sustentando que “os bancos estavam cheios de dívida pública” nos balanços, e que “a culpa é dos Governos, que geriram mal as coisas”, o empresário que está há dez anos no Brasil e que participou na CPI por videoconferência, não perdeu tempo a elogiar um dos grandes devedores do Novo Banco, o presidente do Benfica, Luís Filipe Vieira, “um grande empresário” e “um homem que se fez”.

Foi a gota que fez transbordar o copo de Mariana Mortágua, que acusou Vasconcellos de ter “o desplante” de vir para a CPI “falar em governos e crises”, depois de ter “ajudado Ricardo Salgado” a “rebentar com o BES e com parte da economia portuguesa” e de ter deixado “um calote no Novo Banco de 600 milhões”.

A deputada recusou-se a fazer qualquer outra pergunta a Nuno Vasconcellos e a dar-lhe “mais palco”, dando a deixa ao presidente da CPI, o social-democrata Fernando Negrão, que já por várias vezes havia tentado que o presidente da Ongoing respondesse directamente às perguntas e se deixasse de comentários laterais.

Vasconcellos ainda teve tempo de exigir a Mariana Mortágua que provasse a acusação de calote, mas Negrão deu por encerrada a audição “em nome da dignidade”, considerando que “ficou claro” que o ex-accionista do BES se recusou sempre a admitir ser titular de qualquer dívida ao Novo Banco, que nunca respondeu a qualquer questão “de forma construtiva” e que se limitou “a preparar a sua defesa” nas respostas que foi dando a Mariana Mortágua.

“Não vai ter sorte comigo”

A deputada do Bloco de Esquerda perguntou por diversas vezes a Nuno Vasconcellos, que publicamente demonstra viver uma vida luxuosa no Brasil, como é que tencionava pagar, e quando é que tencionava pagar, a dívida de 600 milhões de euros da Ongoing ao Novo Banco. “A senhora quer que eu lhe responda o que quer ouvir, mas não vai ter sorte comigo”, disse a dada altura o empresário que além de dívidas nas empresas em Portugal, reconheceu ter tido “dívidas grandes” também no Brasil.

Negrão não gostou da atitude e introduziu “um ponto de ordem”: “Estamos aqui para perguntar e o senhor está aqui para responder”, pedindo ao empresário que recomeçasse com “outro tom”.

Vasconcellos, que mais do que uma vez insistiu estar a ser ouvido na CPI “como convidado e não como arguido”, voltou a criticar Mariana Mortágua. “Quem não está aqui com o tom certo é a deputada, não vim aqui para ser desconsiderado”, atirou.

Referindo que, “a partir de 2016”, deixou de ser responsável pela Ongoing e que esta tinha “um gestor de falência”, Nuno Vasconcellos insistiu que a dívida de 522 milhões de euros ao BES tinha associados “diversos activos e garantias reais”, que até foram “reforçadas” quando se deu a passagem para o Novo Banco: “Tinha acções da PT, um depósito de 70 milhões de euros e activos imobiliários avaliados em mais de mil milhões de euros em 2013”, disse.

“Tudo o que BES me pediu, eu dei. Tudo o que Novo Banco me pediu, eu dei; a partir daí, se foi mal gerido já não sei”, referiu. E deixou a pergunta: “Se a dívida era tão ruim, por que é que passou para o Novo Banco?” (considerado o “banco bom” após a resolução do BES, a 3 de Agosto de 2014).

“Não sei se esses activos foram vendidos da melhor maneira, eu penso que não, se calhar alguns deles ainda estão lá no balanço do banco. Tem de ir perguntar a quem está lá agora ou a quem fez a gestão da insolvência”, respondeu Vasconcellos à deputada do Bloco.

 “O meu grupo não deve 600 milhões ao Novo Banco. A senhora insiste, tenho muito pena”, disse ainda, antes de iniciar a tirada que fez o presidente da CPI dar a audição por encerrada.

“Banco mentiroso”

A acrimónia de Nuno Vasconcellos não foi dirigida apenas à deputada do Bloco de Esquerda. O líder da falida Ongoing, que em tempos foi uma aliada valiosa do BES na estrutura accionista da ex-PT, também se referiu ao BCP como um “banco mentiroso” assim “como o seu presidente”.

Depois de, numa intervenção inicial, Nuno Vasconcellos ter procurado desmentir notícias que “circularam” de que houve dificuldades da CPI em contactá-lo para a audição, porque tem “morada conhecida” (disse o gestor) das autoridades de Portugal e Brasil, Mariana Mortágua não deixou de notar que o BCP, que o visa num “pedido de insolvência culposa” bem se queixa que não o consegue contactar.

Entre Novo Banco e BCP, Mariana Mortágua acusou Nuno Vasconcellos de ter dívidas à banca portuguesa no total de 1000 milhões de euros. O empresário retorquiu que “a história do BCP está muito mal contada” – “se o BCP me acusa então é um banco mentiroso”, dizendo ter emails do presidente do banco que provam a sua versão da história.

Vasconcellos notou que quem tinha dívidas “era a Ongoing”, não ele, nem a sua família, mas garantiu que a dívida ao BCP, que começou em 400 milhões e depois passou para 290 milhões, foi “regularizada”.

Depois da falência da Ongoing, foi encontrado um acordo e os créditos “foram comprados por cerca de 80 milhões em troca de dois activos prestados pelos accionistas e que não estavam no balanço” da empresa, afirmou.

Segundo Vasconcellos, quando faliu, a empresa tinha dívidas totais de 721 milhões de euros - “a alguns trabalhadores que não foram pagos, infelizmente, a fornecedores e 520 milhões ao BES”.