Escócia. A caminho da independência?

Com uma vitória mais do que provável nas eleições desta quinta-feira, Sturgeon e o SNP têm na mão as chaves do futuro do seu país. E, com ele, do Reino Unido e das relações destes com a União Europeia. Não é coisa pouca.

A Escócia vai hoje a votos.

Em jogo está a reeleição de Nicola Sturgeon, atual primeira-ministra e líder do Partido Nacional Escocês (SNP), e o seu pedido para o segundo referendo de independência numa década, que as sondagens sugerem que ela poderá ganhar. O SNP, que governa a Escócia desde 2007, quer que o país saia do Reino Unido. Esta eleição é, por isso, muito mais do que uma eleição legislativa. Pode ser um passo a caminho da independência da Escócia e o fim da união política de quatro nações que conhecemos como Reino Unido. A Escócia é também um laboratório político fascinante. O SNP tem governado com uma agenda que combina nacionalismo com medidas políticas pronunciadamente de esquerda, uma agenda por vezes combinada com a mobilização de sentimentos de ressentimento e inferioridade contra Westminster e a elite política inglesa.

Estes sentimentos de inferioridade e a necessidade de lhes dar resposta não são mera retórica para Sturgeon. Nicola Sturgeon é uma perfecionista que cresceu como uma rapariga tímida da classe baixa e que passou grande parte da vida adulta no contexto belicoso, masculinista e em regra privilegiado da política britânica. Para Sturgeon, a necessidade de se ter de provar perante os seus pares na política – a imagem típica dos debates televisivos com Sturgeon é dela rodeada por 4 ou 5 homens candidatos por outros partidos – é tanto uma realidade psicológica como é uma metáfora que ela tem utilizado para descrever a situação política da Escócia.

O distrito eleitoral que ela representa no Parlamento escocês, Glasgow Southside, é uma região historicamente de esquerda. Desde o final do século XIX que este bairro nas margens do rio Clyde, conhecido pela indústria naval e empresas de engenharia, é um laboratório para o ativismo de esquerda. Entre os anos vinte e a crise financeira de 2008, foi um reduto dos trabalhistas. Em 2010, todos os sete deputados por Glasgow eram do Partido Trabalhista. Em 2015, todos os sete lugares foram conquistados por deputados do SNP. Esta mudança histórica reflete uma transformação profunda na política do Reino Unido, num arco que vai da eleição de Thatcher em 1979, passa pela reação social e política à sua agenda monetarista e que culmina na hegemonia cultural desta agenda em Inglaterra – mas não, crucialmente, na Escócia.

De facto, quem visita a Escócia nota de imediato uma atmosfera diferente da do resto do Reino Unido. Não são apenas as estradas (algumas das melhores do mundo), ou a paisagem (da costa imaculada às montanhas, passando por Edimburgo, a Escócia é realmente difícil de bater), ou sequer o whisky (mais do que uma importante fonte de receitas, um ícone global) – apesar de ser também todas estas coisas. Falo de um regime fiscal mais progressivo do que no resto do Reino Unido, de uma universidade sem propinas, da redução da idade de voto para os dezasseis anos; tudo isto medidas introduzidas pelo SNP nos últimos anos.

E, no entanto, a Escócia continua a ser comparativamente mais pobre do que Inglaterra. Uma em quatro crianças escocesas vive em situação de pobreza. O sistema de educação, em tempos considerado o melhor do Reino Unido, continua num processo de declínio, agora sob a responsabilidade do SNP. Os críticos do SNP acusam Sturgeon de fazer da causa da independência uma distração dos problemas com que a economia e a sociedade escocesas se confrontam. Mas parece que, para muitos, a solução destes problemas passa precisamente pela independência.

A causa da independência tem mais de vinte anos. A Escócia tem o seu próprio governo desde o final dos anos noventa, quando certos poderes foram devolvidos ao país, quase trezentos anos depois de ter formado uma união política com a Inglaterra. Mas logo essa altura que o SNP, à época liderado por Alex Salmond, exigia mais. Desde então, a causa da independência não parou de crescer. No referendo à independência, realizado a 18 de setembro de 2014, o “não” ganhou por 55% a 45%, uma margem de pouco menos de quatrocentos mil votos. Salmond, que havia liderado a campanha do “sim,” e liderado o SNP durante vinte dos vinte e quatro anos anteriores, demitiu-se. Ambas as partes tinham concordado que a votação seria histórica. Salmond chegou a apelidar a possibilidade de sair do Reino Unido uma oportunidade que só ocorre “uma vez numa geração.” Mas a derrota não se manifestou como uma derrota. Na realidade, o apoio à independência escocesa aumentou em quinze pontos durante a campanha. Os jovens afluíram às urnas. A adesão ao SNP aumentou. Foi nesta altura, com a saída do palco por parte de Salmond, que Sturgeon se torna primeira-ministra e líder do partido.

Desde então, Sturgeon tem personificado o que muitos consideram uma combinação improvável: um nacionalismo progressista. Por um lado, o SNP é inequivocamente pró-imigração e dá particular atenção a questões como os direitos das crianças, dos refugiados e das pessoas transgénero. De facto, desde a liderança de Salmond nos anos 90 que o SNP tem se posicionado à esquerda dos trabalhistas, incluindo na oposição à Guerra no Iraque em 2003. É uma agenda que permite a Sturgeon posicionar-se ao lado de outras líderes políticas progressistas, como Jacinda Arden da Nova Zelândia. Por outro lado, Sturgeon defende um projeto nacionalista que a aproxima de líderes e causas como Nigel Farage.

Se o nacionalismo de Farage alimentou o “Brexit”, o nacionalismo de Sturgeon é a força motriz por detrás do “Scotexit”. Ironia das ironias, o projeto de independência da Escócia é um projeto que o “Brexit” veio tornar mais difícil. Não falo apenas da contradição de Sturgeon, que foi das críticas mais ferozes do “Brexit”, ser agora adepta do “Scotexit”. Refiro-me ao facto de que, com o Reino Unido fora da União Europeia, o futuro de uma Escócia independente ser mais incerto. Muito dependente economicamente do Reino Unido, a reentrada na UE é uma escolha difícil: ou manter os laços com o seu parceiro económico mais importante, o Reino Unido, e com isso ferir de morte a causa da independência, ou reestabelecer os laços com a UE, uma opção que pode revelar-se duas ou três vezes mais prejudicial para a economia escocesa do que “Brexit” tem sido.

Com uma vitória mais do que provável nas eleições desta quinta-feira, Sturgeon e o SNP têm na mão as chaves do futuro do seu país. E, com ele, do Reino Unido e das relações destes com a União Europeia. Não é coisa pouca.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico