Os protagonistas dos partidos e as ideias que levaram aos 47 anos do 25 de Abril

Esquerda e direita seguiram diferentes ideias nos seus discursos, mas o combate à corrupção atravessou quase todos eles.

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Sessão solene no Parlamento Daniel Rocha

Na sessão solene que este ano assinalou, no Parlamento, os 47 anos da Revolução dos Cravos houve repetentes e estreantes. E também houve candidatos autárquicos. A corrupção foi o tema mais transversal.

Rui Rio, que discursou pela segunda vez numa celebração do 25 de Abril, dedicou boa parte do discurso a traçar o diagnóstico do sector da Justiça e considerou que a sua falta de eficácia “é uma das principais razões do descontentamento do povo português”. Em concreto, deu como exemplo as “permanentes violações do segredo de Justiça, a incapacidade de punir a corrupção e o crime de colarinho branco” para mostrar “como o regime está doente e divorciado dos seus princípios”. Reconhecendo que “tem faltado vontade política e ambição” para as mudanças necessárias, Rio disponibilizou-se para reformas que credibilizem o sistema e concluiu: “Se essas reformas não forem feitas, não será, seguramente, com ‘cordões sanitários’, nem com artigos de opinião radicais, que venceremos os extremismos emergentes.”

Alexandre Quintanilha foi um dos estreantes. O socialista quis celebrar “o trabalho realizado” e as evoluções na saúde, na educação, na ciência, mas admitiu “que não está tudo feito” e os desafios “são enormes”. “Ou nos ajudamos mutuamente ou naufragamos todos juntos”, disse, apontando esta ideia como a lição da pandemia”.

Também Beatriz Gomes Dias, deputada do BE e candidata à Câmara de Lisboa, concordou que “apesar do muito que foi conquistado, a promessa de igualdade e de justiça trazida por Abril ainda está longe de ser cumprida”. Depois de falar sobre a “plena igualdade de direitos” que “ainda é uma miragem para muitos”, disse que “Abril também não se cumprirá cabalmente enquanto não encararmos de frente a corrupção” que “mina a democracia, corrói a justiça e ameaça a coesão social”.

Pelo PCP, Alma Rivera lembrou as conquistas de Abril, como o Salário Mínimo Nacional, a inclusão na deficiência e a plenitude de direitos para as mulheres. Sublinhou ainda que “a desesperança” é o contrário de Abril e também se referiu à corrupção: “A impunidade da corrupção, dos crimes económicos e financeiros, dos buracos da banca, da utilização indevida do erário público são afrontas à democracia”. Pelo PEV, Mariana Silva, defendeu que “é preciso continuar a colorir o futuro, com tudo o que ainda ficou por fazer”, não esqueceu o combate à corrupção e ao enriquecimento ilícito e ainda disse que os valores de Abril protegem a natureza e o ambiente. 

O discurso de Pedro Morais Soares, deputado do CDS recém-chegado ao Parlamento, começou com uma farpa a Ferro Rodrigues. “Se, há um ano, existia quem se questionasse se viríamos para esta comemoração mascarados, hoje em dia só os negacionistas questionam a necessidade e a utilidade das máscaras”, disse. Mas as maiores críticas foram para o Governo, que acusou de navegar à vista. “Não se vislumbra um planeamento, navega-se à vista (…) falta rumo, estratégia e coordenação.”

A ideia-chave de André Silva, do PAN, foi a de “Portugal capturado”: “Capturado por interesses instalados que enclausuram a democracia na bolha das opções políticas do Bloco Central” e “capturado pela corrupção e pela falta de transparência”.

André Ventura, do Chega, acabou por fazer um discurso à volta da cor dos cravos, como forma de criticar as “medidas absurdas do Governo” no combate à pandemia. “Hoje os cravos vermelhos deviam ser substituídos por cravos pretos. É o luto da democracia que estamos a celebrar”, disse. Também se referiu à descida de Portugal no ranking da corrupção e à Operação Marquês para concluir: “Grande Abril que nos deram, grande revolução nos deram ao fim de 47 anos.”

O líder e deputado da Iniciativa Liberal, João Cotrim de Figueiredo, criticou a “esquerda sectária” que, “do alto da sua arrogância moral e intelectual”, acha que é dona do 25 de Abril” e apontou: “Há outro caminho, que é o liberalismo.” com Marta Moitinho Oliveira e Leonete Botelho