O homem que reinventou a esperança, roteiro para uma cidade livre

O leitor Luís Pires evoca Salgueiro Maia e os passos da liberdade pela ruas de Lisboa.

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Claudia Teixeira sobre uma pintura de Paulo Robalo

Noite agradável. Na parada militar, perfilados, aguardam. Ouve-se Grândola, Vila Morena num rádio que amplifica o som da fraternidade no chão ainda frio da parada. Partem para Lisboa, 240 homens, saídos de meninos, comandados por um oficial como eles, sorriso rebelde, olhos curiosos.

Vão libertar a liberdade.

Campo Grande, à cidade universitária, cinco da madrugada, a coluna pára nos semáforos. Vão fazer uma revolução e param nos semáforos. 5h45, tomam posições no Terreiro do Paço. Forças do regime defendem os ministérios. O jovem capitão sente na cara tensa da adrenalina o afago da brisa fresca que vem do rio, dá-lhe confiança. Vai nascer um dia luminoso. Na concentração que tem em si, não ouve as gaivotas pousadas no Cais da Colunas. Dão-lhe boas-vindas. Dizem para não ter medo. Não era preciso dizerem, este homem não tem medo.

O Terreiro do Paço é o eixo de um império irreal. Onde estão os ministérios, onde o regime sonha acordado e ébrio com quimeras incompreensíveis. As fachadas da praça estão sujas, desbotadas, cores indefinidas. As paredes cascam.

O capitão oferece o peito e a vida à mira de um canhão de blindado. O cabo que opera o canhão desobedece ao mando feudal do oficial, não dispara, e barrica-se dentro do blindado. Este acto de um cabo sem nome e a coragem do oficial são os momentos que validam a liberdade. Depois desse episódio, singular, poético, os acontecimentos já não podem voltar atrás.

É o instante em que o país desperta de um coma induzido.

12h. No início da tarde, depois da fuga dos ministros do regime por um buraco aberto na biblioteca de um dos ministérios, rastejantes, baratas, a coluna da Escola Prática de Cavalaria atravessa a Rua Augusta, sobe a Rua do Carmo, o povo a acompanhá-los. Estão todos na rua. A esperança ocupa o Largo do Carmo. No quartel refugiou-se o Presidente do Conselho.

O jovem capitão sobe para uma das viaturas, com um megafone na mão, anuncia que vai dar uma rajada de metralhadora sobre o edifício. Que se rendam.

Ouvem-se tiros, e gritos e choro. De crianças? Não são crianças. Os guardas dentro do edifício choram de medo, não querem morrer, rendem-se. O capitão avisa que vai entrar e demitir o presidente.

É Primavera, a temperatura está amena, mas o céu continua encoberto, não se viu o sol, os tons de cinzento dão o tom ao cenário da cidade, pode ainda vir a chover, ou desanuviar. Pode ser que o sol rutile.

Fecha-se a porta pesada, rangente, o capitão atravessa um corredor cavernoso, numa penumbra ácida. Vai convicto. Percebe no peso do silêncio que se interrompe pelos gritos da multidão - lá fora - o ruído de uma cascata. Uma bala furou o reservatório, a água cai na caixa do elevador. O regime, agachado na sala militar do quartel do Carmo, borrou, mijou nas calças de fazenda fina, dois ministros choram num canto. Para onde foi a arrogância? O Presidente, descomposto, diz que se demite.

O capitão sai a anunciar, cantam o hino. O povo inteiro de um país veio ver a revolução num pequeno largo da cidade. Os pombos, habitantes naturais do lugar, estão tão felizes! Uma flor, humilde, tímida, pouco vistosa, vermelha, que uma vendedeira apregoa, é colocada no cano da espingarda de um soldado, imaculado soldado, deitado na calçada fria em posição de pontaria mal sabe ele a quê.

Fez-se o símbolo. Uma revolução dos cravos. O dia alonga-se, o tempo estica as horas e os minutos, há muita coisa por resolver e tem de ser resolvida nesse dia.

 Sabe-se, notícia triste, que os abutres mataram quatro inocentes, na António Maria Cardoso.

20h, a coluna militar escolta o ditador derrubado. O capitão sobe a Avenida da Liberdade. A cidade não é ainda cosmopolita, não tem lojas caras, nos apartamentos dos prédios mal cuidados vivem pessoas comuns, nos escritórios trabalham pessoas comuns.

As árvores e flores, por vontade sua e numa decisão muito louvável, abrem-se em flor e não fosse um cepticismo da ordem do racional dir-se-ia que floriram para o capitão e os seus jovens camaradas, animando-os a subir a avenida completos e seguros de si, na confiança de serem protagonistas do acontecimento que vai mudar a história de um país.

Amanhã há tanto ainda por fazer. Tudo.

No dia seguinte, depois de limpar a cidade dos corvos e das gralhas, o capitão regressa anónimo para o seu quartel, em Santarém, e não tem ninguém a recebê-lo, não sabiam que ele vinha.

O capitão da esperança chama-se Salgueiro Maia, voltou a ser anónimo. São assim os heróis, os seus actos e os seus feitos são sonhos que germinam no coração e quando florescem irrompem flores orgulhosas e coloridas para gosto de todos.

A cidade está deserta, Salgueiro Maia. Vem.

Luís Pires