“Mãe, como é que a sementinha vai até ao ovo?”

Lembrei-me de como é tão importante tentarmos partir sempre do que elas já sabem, e da curiosidade genuína delas, em lugar de lhes “impingir” aquilo que queremos contar, ou que imaginamos que já deviam saber!

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@designer.sandraf

Querida Mãe,

Lembra se de ter falado connosco sobre sexo? Eu não me lembro de ter tido uma conversa específica, embora me lembre de algumas conversas ao longo do tempo... Mas, acredito que a mãe se lembre porque, ao que parece, essa primeira conversa é mais “traumatizante” para os pais do que para os miúdos!

Quando foi a minha vez de falar com as gémeas sobre “de onde vêm os bebés”, sentia-me superconfiante. Falei na sementinha do pai, no ovinho da mãe, elas deram-me dois minutos de atenção e depois foram brincar, bastante indiferentes. Dei uma palmadinha nas minhas próprias costas e pensei “Porque é que há tanto alvoroço à volta disto?!” Foi só uns dias depois que, de repente, aparentemente do nada, já eu tinha baixado a guarda, que uma delas fez a pergunta: “Mas, mãe... Como é que a sementinha vai até ao ovo?”... Oops.... pois! Faltava esse “pequeno detalhe”! Comecei por explicar, mas cinco minutos depois já estava a rir às gargalhadas com os comentários destes pequenos seres de cinco anos. “Mas para isso é preciso tirar as cuecas?!?”, e “Mas onde se faz isso?” Definitivamente perdi o meu à-vontade todo, e andei por ali atrapalhada, até conseguir distraí-las com uma coisa qualquer.

O mais curioso é que, passadas umas semanas, voltaram a perguntar. Como se fosse a primeira vez. E assim foi durante uns tempos... Enquanto tentavam assimilar a explicação, suponho, ou para reconfirmar que os pais sabiam mesmo do que estavam a falar!

Por alguma estranha razão tinha semi-recalcado todo este assunto, talvez inconscientemente tenha assumido que agora caberia às gémeas explicar aos mais novos, mas no outro dia ouvi uma das mais velhas a perguntar à M.: “Sabes como é que os bebés saem da barriga?” Ela responde, a rir, “Nãaaaaaao faço a mínima ideia” e depois, a minha filha curiosa, que pergunta sempre por tudo, deixou cair o assunto e foi à vida dela... Deixando-me fascinada com a capacidade das crianças procurarem a informação que querem, apenas quando estão prontas para a receber, mas também de evitá-la, se for caso disso. E lembrei-me de como é tão importante tentarmos partir sempre do que elas já sabem, e da curiosidade genuína delas, em lugar de lhes “impingir” aquilo que queremos contar, ou que imaginamos que já deviam saber!

Tudo isto fez-me me lembrar aquela anedota deliciosa:

Um neto chega ao pé do avô e pergunta: “Avô como é que se chama aquilo em que uma pessoa fica em cima de outra pessoa?” O avô respira fundo e conta-lhe em detalhe tudo o que há a saber sobre a relação sexual. O miúdo, incrédulo, tapa os olhos e diz: “Avô, não é nada disso!!! Já me lembrei, chama-se beliche!!!”

Conte-me as suas memórias sobre este assunto!


Ui Ana, apanhaste-me de surpresa.

Deito-me no divã, deixo as memórias voltarem e concluo que, como constataste, a parte da biologia não é a mais complicada — aliás, nunca percebi qual era a dificuldade de mostrar uns desenhos do aparelho reprodutor e de explicar o seu funcionamento. Mas já o “como”, com o requinte do “onde”, é uma conversa completamente diferente, e suspeito que fugi ao assunto até hoje — também, convenhamos, é preciso deixar algum mistério e, muito francamente, está nos livros que, felizmente, temos algum mecanismo que nos impede de imaginar a vida sexual dos nossos pais, aliás como a dos nossos filhos.

Por isso é que é mais fácil falar a propósito de um filme ou de um anúncio na televisão, sem a ilusão de que se despacha tudo numa única conversa, e sobretudo, como tu dizes, à medida da curiosidade deles. E isso fizemos sempre. E sempre com a consciência de que a sexualidade nasce connosco, e que os valores éticos que devem presidir aos relacionamentos amorosos não têm idade. O respeito pelo outro, e pelo corpo do outro, o direito ao não, seja em que circunstância for, a confiança e a lealdade ensinam-se, aprendem-se e treinam-se desde o berço, tanto nos rapazes como nas raparigas. E é claro que aqui, como em tudo o resto, a verdadeira lição é a do exemplo das relações dos pais, dos tios, dos avós.

Sobretudo, Ana, os pais não se podem escudar na ideia de que hoje em dia já não é preciso falar nestas coisas porque “eles já sabem tudo”. Os estudos nesta área mostram e tornam a mostrar que os adolescentes têm muita informação, mas informação descontextualizada, e o resultado são ideias muito baralhadas, e que não é nem com os pares, nem na Internet que as vão conseguir desembaraçar. Sabem muito menos do que imaginamos sobre o ciclo menstrual, o período fértil, que não é precisa uma relação completa para engravidar, sobre o funcionamento das hormonas (deles e delas), do efeito da ansiedade no seu aparelho reprodutor e no desejo e, embora o consumo de pornografia tenha aumentado muito, aquela ficção não serve para mais do que para complexá-los, porque como é óbvio nem as medidas, nem as performances normais serão alguma vez aquelas.

Deixa-me dizer-te só mais duas coisas, que nesta viagem ao assunto me ocorreram poder interessar aos pais:

  1. A educação sexual, em casa ou na escola, não promove uma vida sexual activa mais precoce, e muito menos promíscua, muito pelo contrário. Quanto mais consciente do que uma relação sexual envolve, mais tendem a adiá-la, e a envolver-se sexualmente mais tarde, e numa relação de maior compromisso. Não é da minha cabeça, está em todas as investigações a este respeito.
  2. Por favor não associem constantemente sexo, namoro e paixão com contracepção e doenças sexualmente transmissíveis! Falem nelas, é claro, mas não contaminem uma experiência tão perfeita e transcendente com medo e desconfiança. Conheço pais que no dia em que a filha adolescente lhes apresentou o namorado, perguntaram imediatamente se estava a tomar a pílula, chocando-a em absoluto. Acreditem que se o clima de confiança mútua estiver criado — e para isso não é preciso (nem desejável) que se troquem confidências! —, quando estiverem interessados nas respostas, arranjarão forma de fazer as perguntas, ou de pedir um conselho.

Por outras palavras, prepara-te, porque a M. vai voltar à carga!


No Birras de Mãe, uma avó/ mãe (e também sogra) e uma mãe/filha, logo de quatro filhos, separadas pela quarentena, vão diariamente escrever-se, para falar dos medos, irritações, perplexidade, raivas, mal-entendidos, mas também da sensação de perfeita comunhão que — ocasionalmente! — as invade. Na esperança de que quem as leia, mãe ou avó, sinta que é de si que falam. Facebook Instagram.