ONU teme que deslocados de Cabo Delgado cheguem a um milhão em Junho

ACNUR já registou 11 mil deslocados de Palma e denuncia que a Tanzânia expulsou cerca de 1000 moçambicanos que fugiram do ataque de 24 de Março.

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A grande maioria dos deslocados que chegam de Palma são mulheres e crianças LUÍS MIGUEL FONSECA/LUSA

Se a violência em Cabo Delgado não for travada, o número de deslocados na província do Nordeste de Moçambique poderá superar o milhão já em Junho. O valor foi avançado pelo porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) que esta terça-feira anunciou que já registou 11 mil pessoas que fugiram do ataque jihadista de 24 de Março à vila de Palma.

As Nações Unidas contabilizam actualmente cerca de 700 mil deslocados do conflito violento que dura há três anos e meio, mas temem que esse número continue a subir nas próximas semanas se não se travar a violência, “podendo superar a barreira do milhão em Junho deste ano se a violência não parar”, disse Babar Baloch.

Baloch afirmou, citado pela Europa Press, que o organismo “trabalha a contra-relógio para dar ajuda aos milhares de pessoas que estão a chegar a zonas seguras na província de Cabo Delgado”, num fluxo que não tem parado desde o dia do ataque.

“Os civis chegaram a Pemba, Nangade, Mueda e Montepuez e pé e de barco desde 24 de Março, quando se iniciou o ataque”, explicou. Baloch confirmou que os voos humanitários para retirar pessoas da zona foram suspensos, aguardando o OK das autoridades moçambicanas para serem retomados.

O INGD de Moçambique afirmou na segunda-feira que cerca de 30 mil pessoas ainda escondidas no distrito de Palma precisam de apoio urgente para os próximos 30 dias. 

“Desde o dia 24, cerca de 30 mil pessoas estão estimadas como sendo pessoas deslocadas que estão em Palma”, afirmou o director da Área de Prevenção e Mitigação do INGD (Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres), César Tembe, citado pela Lusa.

Os novos deslocados são, sobretudo, mulheres e crianças que chegam “com poucos pertences” e “sinais de grave trauma por causa das atrocidades que presenciaram”, afirmou o porta-voz – “perto de 80% dos indivíduos separados são mulheres e crianças”. Baloch explicou que “a natureza repentina e mortal dos ataques dispersou as famílias e muitos ainda não conseguiram fugir”.

O porta-voz do ACNUR falou, por outro lado, de “informações preocupantes” vindas da Tanzânia, onde as autoridades se recusaram a conceder asilo a cerca de mil pessoas que para aí fugiram depois dos ataques em Palma. Baloch pediu aos países vizinhos de Moçambique “que permitam o acesso ao seu território e aos procedimentos de asilo aos que fogem da violência e pedem protecção”.