Quando nem todos se sentem confiantes neste regresso à escola

Neste regresso às aulas presenciais, a prioridade deverá ser responder às necessidades de aprendizagem social e emocional das crianças e jovens e criar um espaço relacional seguro.

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Nuno Ferreira Santos

O meu professor de Matemática do secundário tinha os órgãos internos invertidos. Lembro-me de ter ficado perplexa, porque nem imaginava como tal podia ser compatível com a vida humana. Cada um dos seus órgãos estava localizado no lado oposto do corpo, como uma imagem em espelho. Recordo-me de ter começado a imaginar as coisas mais terríveis. E se ele tivesse um acidente grave, ficasse inconsciente e não conseguisse comunicar que tinha esta condição? Quem fosse cuidar dele conseguiria perceber?

Após um confinamento, que dura desde Janeiro, atravessamos um momento de regresso presencial faseado às aulas, momento esse mais prolongado no tempo do que o desejável. A maioria das crianças e adolescentes está farta deste confinamento, com muita vontade de voltar à escola e aos contactos sociais, em presença, com os colegas/amigos. Mas, nem todos se sentem confiantes neste regresso à escola. Alguns sofrem em surdina, à beira-mágoa, debatendo-se com sentimentos de medo e incerteza os quais, sendo até certo ponto adaptativos, poderão estar aumentados.

Gosto de lhes contar a história do meu professor de Matemática. Que por vezes sentimos as coisas dentro de nós desarrumadas, de pernas para o ar, entretidas que estão no seu desatino. Que sendo diferentes, todos temos medo de alguma coisa. Que o medo é uma emoção universal com uma função importante na nossa vida, protegendo-nos de estímulos externos que nos parecem ameaçadores.

Alguns medos ficaram exacerbados durante a pandemia, sendo um deles o receio de vir a ser contaminado pelo vírus no regresso às aulas presenciais. E assim vemos estas crianças e adolescentes ambivalentes, sendo natural que experienciem uma variedade de sentimentos, às vezes aparentemente opostos, tais como alegria, entusiasmo, alívio e sensação de libertação, mas também preocupação, desconfiança, medo e culpa.

Zygmunt Bauman falava sobre dois factores indispensáveis a uma vida satisfatória e feliz: a segurança e a liberdade. Segurança sem liberdade é escravidão e liberdade sem segurança é caos. O que esta pandemia tem evidenciado é, simultaneamente, a importância e dificuldade acrescida em gerir de forma equilibrada estes dois aspectos da vida humana, tanto para miúdos como para os graúdos que os acompanham, especialmente nesta fase.

No regresso presencial às escolas, uma atenção especial deverá ser dada aos mais novos com vulnerabilidades acrescidas, não só na forma como estão a vivenciar esta pandemia, mas também nas relações que foram estabelecendo ao longo do tempo. Os que já se sentiam perseguidos e maltratados pelos pares antes do isolamento, poderão sentir mais angústia no regresso à escola, com medo que o filme de terror continue.

Viktor Frankl, psicoterapeuta que passou por vários campos de concentração nazis conseguindo manter, numa situação tão desumana, a serenidade, a clareza de pensamento e a liberdade de espírito, dizia que tudo pode ser tirado de uma pessoa, excepto a liberdade de escolher a sua atitude, em qualquer circunstância da vida. Importa ajudar a proteger estes miúdos e reforçá-los positivamente pelos seus pequenos avanços na gestão de uma situação tão difícil, sendo fundamental o papel dos pares e adultos no combate a este flagelo. Para o bem e para o mal, a forma como os outros nos tratam diz pouco sobre nós, mas diz tudo sobre eles. A aposta na promoção de empatia nas testemunhas é essencial, porque mais recentemente a ciência tem-nos mostrado a sua mais-valia na redução/eliminação de ambientes tóxicos.

O meu professor de Matemática não tinha, anatomicamente, o coração encaixado no sítio certo. Mas, talvez o mais importante seja a forma como ele bate, o que o faz bater assim e o quão longe nos poderá levar. Neste regresso às aulas presenciais, a prioridade deverá ser responder às necessidades de aprendizagem social e emocional das crianças e jovens e criar um espaço relacional seguro, que permita construir caminhos saudáveis, por oposição às relações e ambientes tóxicos que nos fazem adoecer. A dimensão psicológica das medidas de segurança é essencial, uma vez que só um ambiente emocionalmente seguro, cuidador e de apoio ao desenvolvimento capacita as crianças e jovens para aprender e relacionar-se.