A viagem

O homem recebeu a angústia já despida. Abriu-lhe a porta para a noite longa. E deixou-se levar nessa sedução dúbia que facilmente nos faz cair no abismo. Era o desamor. Há muitos abismos.

Foto
"As perguntas da noite que o devoraram morreram ali naquele abraço" Mag Rodrigues

O homem estuda as palavras que se sobrepuseram na insónia alargada até ser dia. Às vezes guardamos as palavras para que a manhã as torne claras ou as despejemos num lugar que nem ocupa memória. Esse é um exercício curioso: perceber se fazem sentido depois de terem formado uma espiral na nossa cabeça quando o sono não veio, ou se quando a manhã clarear se mantiveram nítidas. Se a nitidez lá estiver então é porque devem ser preservadas. Guardadas. Entregues.

O homem não acordou. Manteve-se desperto engolido pelos sentimentos que facilmente nos devoram quando a noite chega. A noite traz perguntas que o dia nunca provoca. A noite tem a habilidade de despir a angústia e encosta-la rente ao coração, um sussurro que nos empurra para a dúvida.

O homem recebeu a angústia já despida. Abriu-lhe a porta para a noite longa. E deixou-se levar nessa sedução dúbia que facilmente nos faz cair no abismo. Era o desamor. Há muitos abismos.

Quando é que deixamos cair o amor? É o cansaço? É erguer-lhe a impossibilidade para nos defendermos da dor? É a desilusão que nos finta nas pequenas coisas? Um copo que nunca se arrumou, um abraço que se perdeu lá atrás num dia como outro qualquer mas em que na chegada a casa ninguém nos estendeu as mãos. O amor perde-se às vezes em pequeníssimos gestos. E enquadras o retrovisor para ver quando é que o amor ficou pelo caminho e vês um rasto infinito de momentos e objectos que pareciam não ter importância mas que sim, um dia deram lugar ao desamor. Maldito rasto que todos deixámos.

O homem devorado pela angústia das perguntas despidas começou a perguntar se valeria a pena o amor. Aquele amor. Quem era ele por ter a possibilidade de o viver e se isso fazia dele melhor. Se de cada vez que apanhava o comboio para a ir ver, ela o esperava de braços abertos. Se ainda eram saudades aquilo que sentia. Se ela tinha posto a casa bonita para o receber e aquele vestido. Se ele ainda punha o perfume que fazia com que ela se pendurasse no pescoço dele.

As perguntas nessa noite, já feita manhã, soterravam o amor e ele não resistia. Deixava-se continuar a ser engolido pela incerteza.

Depois do banho, vestiu-se e antes de pegar no saco com três peças de roupa, hesitou em pôr o perfume. Como se o facto de o estar a usar, fizesse com que o amor continuasse. Era só um perfume. Meio frasco onde se escondia o forte dele.

Chegou à estação e bebeu um café com a luz a ferir-lhe o olhar cansado da noite em claro. As perguntas também magoam os olhos, sobretudo quando não se viram respostas.

Na viagem longa, estavam ensaiadas as palavras, a soma e o rasto que o tinham levado a ficar acordado. Ela não tinha estranhado o aviso dele em ir vê-la porque era assim mesmo que viviam: nessa distância que, apesar de tudo, não permite surpresas. As chegadas e partidas estão calculadas.

Na viagem perguntou-se mais vezes se ainda a admirava, se gostava do cheiro dela. Se não preferia o sorriso fugidio da colega que lhe emprestava discos e livros e estava ali tão à mão dele. Tudo afinal se poderia resolver de forma tão fácil, até porque não mais teria de fazer essas viagens, não ficaria no incómodo de se cruzar com ela na sua cidade. Os amores à distância parecem devidamente acautelados para que as partidas sejam mais fáceis, mas nem sempre é assim.

Quase adormeceu já muito perto do destino não fosse aquela pergunta silenciosa, ,traiçoeira ali rente à chegada: gostarias de cuidar um dia dela? Um dia que estivesses sempre a olhar para ela, por ela?

A voz nasalada sem rosto anunciou a estação seguinte e ele puxou do saco onde estavam as três peças de roupa que podiam estar a fazer aquela viagem pela última vez.

Saiu da carruagem, e ela estava lá. Talvez da noite que já era manhã sem sono, ela pareceu-lhe outra e estava de braços estendidos. Ele estranhou e caminhou para esse abraço. Tinha posto o perfume antes de sair de casa e ela pendurou-se no pescoço dele.

As perguntas da noite que o devoraram morreram ali naquele abraço.

Na verdade era como se a viagem fosse afinal começar.